Pecado original

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segunda-feira, 3 de março de 2014

Guerra e Paz


GUERRA E PAZ
O SENTIDO CRISTÃO DE PAZ

Fomos habituados a pensar «paz» e «guerra» como termos que dizem respeito a realidades humanas de tipo colectivo: povos, nações, estados. Paz e guerra surgem assim, como actos que dizem respeito a massas de indivíduos humanos pensadas precisamente como conjuntos e segundo uma lógica de conjunto. Hipostasiam-se, assim,  realidades cuja ontologia própria não é algo de obviamente hipostático. Que realidade própria substantiva, concretamente substantiva possuem aquelas realidades? Estará tal estatuto ontológico devidamente pensado?
Sendo paz e guerra actos concretíssimos, passar-se-á o mesmo com as massas a que tais actos são referidos? No ambiente antropológico em que nos situamos, da realidade ontológica de cada indivíduo humano, enquanto entidade concreta, ninguém duvida: é este mesmo indivíduo humano, qualquer seja, que faz a guerra e faz a paz, que vive a guerra e vive a paz. É a ele que o também concreto aço da espada encontra fisicamente e fisicamente corta, com quem a concreta e física bala se cruza, trespassando-o. É ele que fere, que é ferido, que mata, que é morto. É ele que marcha para a frente de batalha ou se acoita para perpetrar o acto de guerrilha, é ele que ganha a batalha ou a perde, é ele que pode cessar hostilidades, mesmo que em desobediência a ordens superiores quaisquer, é ele quem detém um poder espantoso de destruir ou de não destruir. Tudo real, tudo concreto, tudo com uma referência possível a um agente responsabilizável, concretamente responsabilizável: em última instância, é ao ser humano individual concreto que cabe a responsabilidade de exercer determinada força sobre o gatilho que desencadeia o acto físico que fere ou elimina alguém. Paradigmaticamente. 
É aqui, neste microcosmos individual humano que a guerra vive, é aqui que a guerra morre, é aqui que a paz vive ou morre. A guerra, concretamente considerada, é acto do indivíduo humano e apenas do indivíduo humano.
Mas, então, as «grandes massas»? São nada mais do que isso mesmo: «grandes massas». Tal quer dizer que são apenas amontoados instantâneos de indivíduos que podem ser seres humanos ou grãos de areia, pouco importa. Têm uma existência nocional ou mesmo conceptual real, enquanto tais, mas não há relação real alguma entre tal nocionalidade ou conceptualidade e isso a que deveriam poder referir-se. Concretizando exemplarmente: a expressão «a areia da Praia Grande» tem um significado nocional, mas a que corresponde exactamente na realidade concreta, física, mundana, tal enunciação nocional? Quando? Exactamente quando? E com que nível de precisão cronológica? Mesmo que fosse possível contar atempadamente todos os grãos de areia presentes num determinado, por exemplo, milésimo de segundo, cada grão permaneceu o mesmo molecularmente e atomicamente durante esse tempo de contagem?
Dizer «a areia da Praia Grande» é enunciar uma ilusão: que lá há areia, é uma evidência, mas o que essa mesma areia seja na imensa complexidade de sua concretude física é algo que nos escapa. Assim, contentamo-nos com a ilusão de posse de um sentido que não corresponde a coisa alguma de substantivamente alcançável pela humana inteligência. Ora, a «areia da Praia Grande» é apenas uma coisa física e a sua complexidade própria no domínio da física se esgota.
Então, o que dizer da afirmação: «as façanhas militares das Forças Armadas Alemãs na Segunda Grande Guerra»? Não existiram? Existiu um conjunto imenso de actos perpetrados pelos indivíduos humanos que são agrupados sob aquela designação, mas a sua confusão com a acção de uma hipóstase chamada «Forças Armadas Alemãs» é uma pura ilusão. Tais forças, enquanto suposta entidade colectiva, não mataram pessoa alguma, não ganharam ou perderam batalha alguma: a este nível, pura e simplesmente, não existem, nunca existiram. E é esta fundamental inexistência do colectivo enquanto entidade concretamente real que, por exemplo, impede que se possa levar tais entidades, como tais, a um tribunal de Guerra.
Que seria isso de julgar tais forças armadas pelos crimes de guerra que teriam cometido? Quando um desses crimes foi cometido, por exemplo, o massacre de uma aldeia soviética num determinado dia do mês de Agosto de 1941, havia uma determinada constituição dessas mesmas Forças Armadas: que se faz, juntam-se todos os elementos então constantes como seus membros, mesmo os que estavam em casa a gozar de licença e nunca tinham cometido ou cometeram crime de guerra algum, e levam-se todos a tribunal? Mas, entretanto, muitos já morreram, outros estão desaparecidos, outros em campos de prisioneiros? Onde está, então, isso que são as tais aparentemente tão evidentes «Forças Armadas» que cometeram o crime?
Elegem-se ou escolhem-se alguns seus representantes? Mas que quer dizer «representante»? Quererá dizer «estar na vez de»? Mas o que é isso de estar na vez de um criminoso de guerra? E se o representante estiver completamente irrelacionado com tal crime? Mas a questão é muito mais profunda e diz respeito ao fundamental desta comunicação: pode alguém representar ou substituir alguém no que diz respeito à relação ética e política com o acto próprio de um ser humano? Que sentido faz tal possibilidade?
Poder-se-á querer contornar a questão afirmando que se procura encontrar quem deu a ordem. Mas pode não ter havido ordem alguma e o massacre ter ocorrido por pura sequenciação do que é a lógica mesma da guerra. Mas mesmo que tal ordenante fosse encontrado, o facto de ter dado a ordem torna absolutamente necessário que tal ordem seja obedecida? Se a resposta for sim estaremos a dar razão ao movimento nazi que se propunha precisamente transformar o que foram seres humanos em autómatos inumanos ao serviço de um tirano e sua máquina de seguidores. Se a resposta for negativa, que é o que coincide com o que se passa realmente nos campos de batalha, então, a responsabilidade não é apenas de quem dá a ordem, mas também de quem a executa.
Então, no caso vertente, teríamos de reunir todos os intervenientes no massacre e levá-los a julgamento. Mas, então, não seriam as «Forças Armadas Alemãs» a serem submetidas a julgamento, mas apenas uma sua ínfima parte.
Ainda assim, não teria sido esta ínfima parte como um todo a realizar o massacre, pois não foi a massa considerada a realizar cada acto em conjunto, mas o massacre resultou da combinação e integração de todos os actos de todos os soldados, individualmente considerados, pessoalmente considerados. O massacre, foi, assim, realizado por cada um dos soldados: sem a contribuição pessoal de cada um deles, não teria havido massacre algum. Pela negativa, se cada um deles não tivesse contribuído para o massacre, nenhum teria contribuído para o massacre e, assim, não teria sido possível ter havido massacre algum.
Se cada um desses soldados pudesse reflectir objectivamente sobre o que fez, poderia chegar à conclusão de que fora ele a fazer o massacre: ele e os outros, mas os outros e ele. E cada um dos outros é um ele, tão responsável analogicamente pelo que fez como ele. E ele como os outros. Repetimos: a abstenção de acção por parte de cada um deles teria como efeito a abstenção de todos e não teria havido massacre. É aqui que se situa o ponto praxiológico absoluto, neste dizer que sim ou que não, em absoluto, a fazer isto ou aquilo. O mais é simplesmente espúrio. Se o não for, tal significa que já não há propriamente um ser humano presente e que teorias como a nazi ganharam.
Mas, mais do que perceber que o autor do massacre tinha sido ele (com todos os outros «eles» que co-laboraram para tal), o soldado em questão poderia perceber, a um nível ainda mais profundo, esse em que coincidimos como pessoas com o que realizamos, com os nossos actos, que não apenas o massacre era de sua autoria, mas que, ao massacrar, ele tinha-se convertido no massacre: o massacre sou eu. E com este eu que é o massacre que fiz tenho de viver para todo o sempre, mundanamente apenas ou mesmo também transmundanamente. Para o crente, na sua pessoa, no que tem de mais fundo e próprio seu, no que de si próprio fez, há um massacre que o constitui. E esta presença, como qualquer outra de idêntica profundidade ontológica é indelével.
Então, o que é a guerra, em nosso entender, se não é a ilusão de uma acção destruidora perpetrada entre vãs hipóstases?
Guerra é todo o acto de um qualquer ser humano que atente contra a existência de qualquer ser humano. Assim, todo e qualquer acto que respeite esta definição constitui um acto de guerra e instaura a guerra no seio do conjunto dos seres humanos presentes. Neste sentido o evidente primeiro acto de guerra, segundo a tradição bíblica, seria a conhecida acção de Caim sobre seu irmão Abel, no que é uma marca absoluta da grandeza e poder do acto de guerra como possibilidade e realidade da pessoa humana. Paradigmaticamente, este acto primeiro, contado em mítica narrativa, mostra a radicalidade do acto de guerra: este tem sempre como fim, mediato ou imediato, a aniquilação de um ser humano. Assim, toda a acção que um ser humano realiza sobre outro ou outros e que põe em causa o mesmo ser desse outro ou outros seres humanos é um acto de guerra e a essência do acto de guerra reside sempre nesta aniquilação de outro ser humano, mediata ou imediata, voluntária ou involuntária.
Há corolários evidentes: no geral, cada possibilidade própria de bem possível que anulo a um ser humano, pode pôr, em última análise, a sua existência em causa, pelo que pode ser um acto de guerra: sê-lo-á, se, de facto, anular essa mesma possibilidade. Assim, se retirar o meio de subsistência a alguém, ponho a sua existência em causa e tal é um acto de guerra. E não interessam as causas ou as desculpas que possa apresentar. O acto de guerra perpetrado é disso absolutamente independente. A guerra obedece apenas à lógia que é própria sua e que decorre do processo de aniquilação de um ser humano em curso.
Os exemplos poderiam repetir-se sem fim, pois, já se percebe que, em grande parte, coincidem com o que é o acto nosso de cada dia, sobretudo num mundo que, podendo ser humano, no sentido de isso que é o melhor que distingue o ser humano das bestas, persiste em ser um mundo em que se pretende viver ao modo de Caim, construindo o nosso bem através da negação da possibilidade do bem do outro.
E é a questão do mal com que nos deparamos aqui: toda uma tradição de profundíssima capacidade analítica insiste em não perceber a lição do velho Sócrates de Atenas e de seu discipulado, segundo a qual o mal é a ausência de bem. Ora, o acto de guerra permite-nos entender melhor o que está em causa nesta vetusta lição. Aliás, Sócrates experimentou em sua mesma carne a realidade do que pregava. Se teoricamente é pensável que há um bem possível para cada pessoa e para todas as pessoas e se nada à partida pode obstar a que se pense que esse bem pode coincidir com um bem absoluto possível próprio para tal pessoa, bem esse que podemos, na falta de melhor, dar na forma mítica do paraíso, ou na forma já filosófica, da felicidade, então, toda a acção que contrariar tal possibilidade introduz imediatamente a realidade de uma diferença entre a possibilidade no seu melhor e a concretização dessa mesma possibilidade. Esta diferença é o mal. Mal cuja origem é o ser humano, isto é, sou eu.
Ora, cada um destes actos de negação de uma possibilidade própria retira algo que é da ordem da ontologia possível para cada ser humano assim afectado. No limite, se se retirarem todas as possibilidades restantes num determinado momento, tal equivale a anular toda a possibilidade ontológica, ou seja, a aniquilar a pessoa. O mal diz respeito não à anulação do que é, que está, Heraclito bem o percebeu, sempre em trânsito, isto é, sempre a transformar-se num passado, que já não é e é para sempre irrecuperável, mas à anulação do possível. Ora, o acto de guerra, concretizado em sua plenitude é esta consumação da anulação de toda a possibilidade para um ser humano, que, deste modo, se torna impossível. O acto de guerra é o acto da impossibilidade do ser humano, absolutamente. Estendido transcendentalmente a toda a humanidade, aniquila-a imediatamente. O acto de guerra em sua máxima plenitude coincide, assim, com o acto de mal em sua mesma plenitude. Por outro lado, tal plenificação tem como corolário a queda no destino irracional de imediatamente se auto-anular, pois, não havendo já mais seres humanos, não é, já, possível haver mais guerra. Mas tal é mesmo o destino último de todas as formas parasitárias que praticam com excelência a sua fórmula de sucesso.
Que fique bem claro: no sentido aqui defendido, a guerra é o mal.
A guerra é, portanto, um acto pessoal, ético, isto é, de origem na mesma interioridade humana, mas sempre posto em âmbito político, isto é, da relação inter-humana. Mesmo no caso do suicídio, como não é possível que a morte de alguém, seja absolutamente destituída de qualquer repercussão negativa sobre um qualquer outro ser humano, tal consequência política como possibilidade mantém-se.
O acto de guerra é sempre da responsabilidade de um qualquer ser humano, sob pena de se negar que nisso que perpetrou o acto não há humanidade presente, o que nos repugna, pois constitui o fundamento paradigmático próprio de todas as formas tirânicas modelarmente consubstanciadas no exemplo nazi. Para que tal responsabilidade não esteja presente, em absoluto, isso que deveria ser um ser humano estará a ser analogado a algo como um pedregulho que, por via da necessária força da gravidade cai sobre uma pessoa e a esmaga, sem que se possa dizer que o pedregulho cometeu um acto de guerra.
É nestes actos potencialmente e concretamente extremos que se percebe a grandeza própria da ontologia humana quer como possibilidade quer como realidade concreta, construída a partir de essa mesma possibilidade. A guerra é uma destes actos extremos.
A guerra, o pensamento sobre a guerra são tão obsessivos que nos levam a que nos esqueçamos até do título das acções para que nos convidam… Então e a paz? Não tem interesse?
A paz é o outro acto extremo fundamental. Mas só há dois? Neste âmbito, que é o da realidade humana fundamental como acto de possível bem, só. A paz é o acto que corresponde, em termos cristãos, à plenitude do acto do amor. Ora, este acto é o acto contraditório do acto da guerra. O amor, esse acto, que tem de ser continuado, é o único acto que pode impedir e impede, de facto, o acto de guerra. O acto de amor é algo de muito técnico: consiste na acção que promove o bem de alguém (pode ser o do próprio). Neste seu carácter técnico fundamental, pode mesmo ser algo de muito «frio», como se costuma dizer. Não tem de o ser, mas pode sê-lo.
Fazer o bem no sentido do bem de alguém, não implica qualquer forma de paixão ou de afecto. Nada impede que seja acompanhado por os mais nobres sentimentos, mas não os requer: posso exercer uma cirurgia que salva alguém sem qualquer sentimento especial: mas o bem real está feito e a possibilidade de ser de esse a quem operei permanece. Todos os bons sentimentos e afectos e paixões, quando utilizados no sentido do bem de alguém fazem parte dos actos de bem e são parte do amor, mas não porque são bons sentimentos, mas porque contribuíram para o bem do, assim, amado. O bem do amado não ocorre porque há tais afectos sem mais, mas porque tais afectos, no caso, operaram o bem.
É que podem existir os mais belos afectos, etc., e quem os tem, num acto com eles não compatível, mas possível, ainda assim, matar o objecto de tais afectos. Tal serve para mostrar que o bem não é da ordem do passional, mas do activo e que há uma realidade objectiva do bem feito que é a realidade da manutenção da possibilidade o mais plena possível do amado. O mais é irrelevante.
Ora, a paz, realizável em sua mesma plenitude, é a perfeição universal dos actos de amor. Santo Agostinho chamou-lhe «Cidade de Deus»: nesta, a acção do ser humano seria um pleno e prefeito acto de amor, semelhante de forma finita ao acto infinito de amor de Deus pelas criaturas, acto que as cria porque é o acto que realiza o seu bem. A este amor continuado chama-se Providência. A paz é o acto universal em que cada ser humano age como providência de todos os outros, numa reciprocidade total, num acto de amor que análoga humanamente o que é o acto de amor infinito de cada Pessoa da Santíssima Trindade por cada outra Pessoa.
A incarnação de Cristo é o acto de paz por excelência, em que, em aparente paradoxo, esse que é a mesma Paz em Carne, esse que ama infinitamente também o finito, vais por este finito ser morto, num acto de guerra que se torna o paradigma de todo o acto de guerra, pois é aquele em que a criatura mata o criador, em que o possibilitado mata o possibilitador, em que o que carece de vida infinitamente procura eliminar a infinita fonte de vida. Estranha ironia.
Dilacerada a possibilidade modelar da vida na cruz, e não havendo ressurreição, seria o triunfo da guerra e, com ele, a sua definitiva derrota. Com a ressurreição, retorna a possibilidade de a humanidade ser. Mas permanece a sua condição mundana de coisa que pode amar ou fazer a guerra, pois é neste ponto charneira que se joga a sua valia de coisa digna do amor de Deus ou de coisa digna do acto de guerra que insiste em praticar, como a consequência que tal insistência tem.
Na incarnação, no amor da Mãe do Menino, encontramos ao acto de amor que permite que toda a guerra tenha um vencedor. Mas este vencedor tem de passar, como todos nós, pela prova da cruz e a cruz não é uma coisa de madeira, obscena de sangue, suor e lágrimas, mas o mesmo arbítrio que nos constitui como seres humanos, a escolha constante: amo ou mato?, pratico o bem ou pratico a guerra? É esta a cruz, é este o cálice.
É esta a escolha excruciante que Cristo venceu modelarmente e que permanece para todos os seres humanos – não é coisa para cristãos – como a escolha.
Américo Pereira
18.02.2014

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