A memória não pode ter apenas um lado
Passaram noventa anos sobre aquele verão terrível de 1936 em que Espanha começou a matar os seus próprios filhos.
Recordamos Federico García Lorca, assassinado nos arredores de Granada, e fazemos bem. Um poeta desarmado, uma das grandes vozes da literatura espanhola, foi arrancado à vida pela violência política. Nenhuma circunstância histórica pode justificar o seu assassinato.
Mas a memória, para ser verdadeira, não pode escolher os seus mortos.
Enquanto Lorca era perseguido numa Espanha dominada pelos nacionalistas, na outra Espanha desencadeava-se uma das mais violentas perseguições religiosas da Europa contemporânea. Cerca de 6.800 sacerdotes, religiosos e religiosas foram assassinados durante a Guerra Civil, sobretudo nos primeiros meses. Igrejas foram incendiadas, conventos saqueados, imagens destruídas e comunidades religiosas perseguidas. Em muitos casos, bastava ser padre, frade ou religiosa para que a própria vida estivesse em perigo.
Também eles tinham um nome. Também eles tinham uma história. Também eles tinham alguém que os amava.
É tentador olhar para estes acontecimentos através das categorias políticas que os próprios combatentes utilizaram: «rojos» de um lado, «fascistas» do outro. Mas talvez seja precisamente aí que começa o problema. Antes de matarem pessoas, as guerras civis matam as palavras que permitem reconhecê-las como pessoas.
O adversário deixa de ser simplesmente alguém que pensa de maneira diferente. Torna-se «fascista», «vermelho», «reacionário», «burguês», «comunista», «inimigo do povo» ou «inimigo de Espanha». A categoria substitui o rosto.
E quando o rosto desaparece, matar torna-se mais fácil.
A perseguição religiosa na zona republicana não deve ser confundida com toda a República nem atribuída indistintamente a todos os republicanos. Muitos procuraram conter aquela violência. Sobretudo nos primeiros meses da guerra, porém, o colapso da autoridade do Estado permitiu que milícias e organizações revolucionárias exercessem um poder quase absoluto em diversas regiões. Para alguns desses movimentos, a Igreja não representava apenas uma instituição religiosa: simbolizava uma ordem social que a revolução pretendia destruir.
Encontramos aqui uma questão que ultrapassa a própria Guerra Civil Espanhola.
Quando a política deixa de aceitar a imperfeição da condição humana e passa a prometer a construção de um mundo inteiramente novo, surge uma tentação perigosa: considerar determinadas pessoas obstáculos à realização desse mundo.
É a velha tentação de transformar a política numa forma de salvação.
Eric Voegelin identificou precisamente esta característica em algumas das grandes ideologias modernas: a tentativa de realizar dentro da História aquilo que pertence à transcendência. Quando o homem acredita possuir o conhecimento necessário para construir definitivamente a sociedade perfeita, aqueles que se opõem ao projeto deixam facilmente de ser adversários. Transformam-se em obstáculos ao sentido da História.
E os obstáculos podem ser removidos.
Foi assim que, em diferentes revoluções, o inimigo político se transformou progressivamente num inimigo quase ontológico: alguém cuja própria existência parecia incompatível com o mundo que se pretendia construir.
Mas seria historicamente injusto reconhecer esta lógica apenas num dos lados da Guerra Civil.
Na zona nacionalista também se matou em massa. Republicanos, socialistas, sindicalistas, professores, autarcas e simples cidadãos foram executados. Lorca tornou-se o símbolo universal dessas vítimas. E a repressão nacionalista, diferentemente da explosão revolucionária inicial que o governo republicano procurou progressivamente controlar, adquiriu uma dimensão institucional que continuaria depois da vitória de Franco.
Por isso, talvez a lição mais profunda daquele verão de 1936 não esteja em decidir quais eram os «bons» e quais eram os «maus».
Está em compreender aquilo que acontece quando uma sociedade perde a capacidade de reconhecer humanidade no adversário.
Lorca merece a nossa memória.
Os padres assassinados merecem a nossa memória.
As religiosas mortas merecem a nossa memória.
Os republicanos fuzilados merecem a nossa memória.
Porque antes de serem símbolos de uma causa, eram pessoas.
Talvez seja esse o verdadeiro dever da memória histórica: devolver um rosto àqueles que as ideologias transformaram em categorias.
Noventa anos depois, podemos finalmente olhar para todos eles sem perguntar primeiro de que lado estavam.
Perguntando apenas quem eram.
E reconhecendo, em cada um, a dignidade humana que nenhuma revolução, nenhuma guerra e nenhuma ideologia têm o direito de retirar.
Francisco Vaz
20 de agosto de 2026
Sem comentários:
Enviar um comentário