Sobre eclipses, ídolos e a economia da atenção
Há acontecimentos verdadeiramente extraordinários que quase passam despercebidos e há acontecimentos perfeitamente normais que, por artes da comunicação contemporânea, adquirem subitamente a dimensão de acontecimentos cósmicos. O eclipse do Sol pertence, simultaneamente, às duas categorias: é extraordinário para quem o contempla, mas absolutamente banal para o universo.
Desde que existem Sol, Terra e Lua — e desde que as respectivas órbitas permitem o alinhamento — há eclipses. A Lua passa entre a Terra e o Sol, a luz diminui, durante alguns minutos o dia parece hesitar, e depois tudo regressa à normalidade. O Sol não desapareceu. A Lua não mudou de rumo. A Terra não interrompeu a rotação. O universo, aparentemente indiferente à nossa ansiedade, prossegue.
O que mudou não foi o eclipse.
Fomos nós.
Ou, talvez mais exactamente, mudou a extraordinária máquina mediática que se interpõe hoje entre nós e a realidade.
O eclipse astronómico acontece quando a Lua se coloca entre a Terra e o Sol. O eclipse mediático acontece quando os media se colocam entre o ser humano e o acontecimento.
E, neste segundo caso, a sombra pode durar muito mais tempo.
Durante dias somos preparados para o momento. Especialistas explicam aquilo que já foi explicado. Gráficos mostram aquilo que acontecerá. Repórteres deslocam-se para os melhores locais para observar aquilo que ainda não aconteceu. Outros repórteres entrevistam pessoas que viajaram para esses locais para observar aquilo que ainda não aconteceu. Finalmente, quando acontece aquilo que todos sabíamos que iria acontecer, os mesmos especialistas explicam aquilo que acabámos de ver acontecer.
E depois começa a análise do que aconteceu.
É um eclipse perfeito: o acontecimento deixa de ser notícia e a notícia transforma-se no acontecimento.
Talvez este seja um dos fenómenos mais curiosos da nossa civilização mediática: já não basta que uma coisa seja. É necessário que seja transmitida, repetida, comentada, ampliada e convertida em experiência colectiva obrigatória. A realidade necessita de certificação televisiva.
Quem perdeu o fenómeno começa quase a sentir-se culpado.
— Não viste o eclipse?
A pergunta é feita com a gravidade com que outrora alguém poderia perguntar:
— Não viste passar Napoleão?
E o pobre cidadão, que talvez estivesse nesse momento a trabalhar, a ler, a dormir uma sesta ou simplesmente a contemplar uma árvore, sente que perdeu um daqueles instantes irrepetíveis da história da humanidade.
Irrepetível, aliás, até ao próximo eclipse.
Mas o episódio ofereceu-nos uma situação ainda mais extraordinária. Durante algumas horas, um absoluto conseguiu eclipsar outro absoluto.
Porque havia já outro fenómeno destinado, segundo parecia, a ocupar uma parte considerável do espaço mediático: o casamento de Cristiano Ronaldo.
Quem? Onde? Quando? Quantos convidados? Que vestido? Que cerimónia? Que festa? Que alianças? Quem estará presente? Quem ficará de fora?
Questões evidentemente decisivas para o futuro da civilização.
E eis que aparece a Lua.
Silenciosamente.
Sem assessores de imprensa.
Sem publicação nas redes sociais.
Sem vender direitos de transmissão.
Sem sequer anunciar previamente a sua chegada.
Coloca-se diante do Sol e, por alguns minutos, consegue uma proeza que poucos seres humanos alcançariam: eclipsar Cristiano Ronaldo.
Não totalmente, evidentemente. Há limites até para a mecânica celeste.
Foi apenas um eclipse parcial.
O episódio seria apenas divertido se não revelasse algo mais profundo sobre a nossa relação com a realidade.
Vivemos progressivamente numa economia da atenção. E a atenção humana é limitada. Aquilo que ocupa obsessivamente o espaço mediático tende a ocupar também o espaço mental. Pela repetição, pela imagem, pela antecipação e pela dramatização, determinados acontecimentos deixam de ser acontecimentos entre acontecimentos e convertem-se, durante algumas horas ou dias, no acontecimento.
É aqui que começa o verdadeiro eclipse.
Não quando a Lua tapa o Sol, mas quando uma realidade particular tapa todas as outras realidades.
O problema não está, portanto, em admirarmos um eclipse. Pelo contrário. Há algo de profundamente humano em levantar os olhos para o céu e maravilharmo-nos perante o cosmos. Talvez devêssemos fazê-lo mais vezes.
O problema começa quando confundimos maravilhamento com absolutização.
O mesmo vale para Cristiano Ronaldo. É perfeitamente legítimo interessarmo-nos pelo casamento de uma das personalidades portuguesas mais conhecidas no mundo. O curioso é a desproporção que transforma um acontecimento privado — importante sobretudo para os próprios — numa espécie de acontecimento nacional, quando não planetário.
É a velha idolatria, apenas adaptada à sociedade do espectáculo.
Os antigos fabricavam ídolos de ouro.
Nós fabricamo-los com audiências.
E talvez a ironia maior esteja precisamente aqui. Durante alguns minutos, a natureza recordou-nos a escala das coisas.
De um lado, um homem extraordinariamente famoso prepara o seu casamento.
Do outro, três corpos celestes continuam, indiferentes, uma dança gravitacional iniciada muito antes de existirem futebol, televisão, redes sociais, jornalistas, comentadores e espectadores.
A Lua passou diante do Sol.
Os jornalistas falaram.
Os especialistas explicaram.
As câmaras filmaram.
As pessoas fotografaram.
Cristiano Ronaldo foi temporariamente remetido para segundo plano.
E o universo?
O universo continuou exactamente como estava.
Amanhã outro assunto ocupará o ecrã. Outro absoluto. Outra urgência. Outra coisa que, durante vinte e quatro horas, nos será apresentada como indispensável à compreensão do mundo.
Depois virá outra. E outra. E outra.
Talvez seja este o verdadeiro poder dos media: já nem precisam de nos dizer em que acreditar; basta-lhes escolher aquilo que deve ocupar o nosso pensamento.
A Lua, pelo menos, quando eclipsa o Sol, limita-se a cumprir a sua órbita. Não pretende convencer-nos de que o resto do universo deixou de existir.
Os media, por vezes, conseguem melhor: eclipsam-nos o mundo e ainda nos convencem de que estamos a vê-lo inteiro.
Francisco Vaz
12 de agosto de 2026
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