a fragilidade humana e a esperança
Hoje, no funeral de Eugénio Fonseca, ressoaram dentro de mim as palavras do salmista: «O Senhor é meu pastor: nada me falta.»
Pronunciadas diante da morte, estas palavras adquirem uma profundidade diferente. Não eliminam a tristeza, nem apagam a ausência. Iluminam, porém, o caminho que atravessa a dor. Recordam-nos que, mesmo quando perdemos alguém que amamos, permanecemos acompanhados por uma presença que ultrapassa os limites do tempo, da matéria e da própria morte.
A partida de um amigo confronta-nos com a fragilidade humana. Vivemos como se o tempo estivesse sempre à nossa disposição, como se as pessoas que amamos permanecessem indefinidamente ao nosso lado. Contudo, chega o momento em que somos colocados diante dos limites da nossa possibilidade em ato. Há sonhos que ficam por realizar, palavras que gostaríamos de ter pronunciado e gestos que já só podem sobreviver na memória.
É precisamente diante destes limites que o ser humano pressente a necessidade do transcendente. A razão ajuda-nos a compreender muitos aspetos da vida, mas encontra uma fronteira diante do mistério da morte. O coração humano procura então uma resposta mais profunda, uma esperança capaz de acolher aquilo que a explicação racional já não consegue alcançar.
Santo Agostinho exprimiu esta inquietação de forma inesquecível: «Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti.» A inquietação da alma nasce desta consciência: fomos feitos para uma plenitude que o mundo, por si só, é incapaz de oferecer. Procuramos permanência num mundo marcado pela mudança; procuramos eternidade dentro do tempo; procuramos um amor que a morte seja incapaz de destruir.
Neste dia triste, recordo Eugénio Fonseca como um amigo e uma âncora segura para muitos. Há pessoas que atravessam a vida concentradas em si próprias. Eugénio escolheu fazer da sua existência um lugar de acolhimento, de serviço e de compromisso com os mais frágeis. Para muitos que enfrentavam as intempéries da vida, a sua presença representava apoio, orientação e esperança.
Uma âncora, porém, permanece invisivelmente ligada ao fundo que lhe dá firmeza. Talvez também a força de Eugénio tivesse a sua raiz numa realidade mais profunda: na convicção de que cada pessoa possui uma dignidade inviolável e de que servir o outro é uma das formas mais autênticas de servir Deus.
Agora, quando a sua presença física nos é retirada, compreendemos melhor o bem que realizou. A verdadeira grandeza de uma vida revela-se nas vidas que ajudou a sustentar, nas pessoas que levantou e na esperança que despertou. Eugénio continuará presente na memória dos amigos, na gratidão dos que apoiou e nas causas às quais entregou a sua inteligência, a sua energia e o seu coração.
«O Senhor é meu pastor: nada me falta.» Nada me falta porque, mesmo no vale escuro da morte, Deus permanece. Nada me falta porque o amor recebido se transforma em memória e responsabilidade. Nada me falta porque a fé nos permite confiar que a morte constitui uma passagem e que a vida encontra em Deus a sua plenitude.
Hoje despedimo-nos do Eugénio com tristeza, mas também com gratidão. A sua morte recorda-nos a fragilidade da nossa condição; a sua vida confirma-nos a extraordinária fecundidade do bem.
Que a sua alma inquieta encontre finalmente repouso em Deus. E que aqueles que choram a sua partida encontrem consolo na certeza de que uma vida oferecida aos outros permanece para além da morte — como luz que continua a iluminar, como âncora lançada nas profundezas da eternidade.
Francisco Vaz
17 de agosto de 2026
Sem comentários:
Enviar um comentário