Pecado original

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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Saavedra Fajardo e as cosmovisões

Quando a política começa a separar-se da ordem moral

Há autores que descrevem o seu tempo e há autores que, ao descrevê-lo, revelam a transformação profunda de uma civilização. Diego de Saavedra Fajardo (1584–1648), diplomata, escritor e pensador político espanhol, pertence a esta segunda categoria. A sua obra ajuda-nos a compreender um momento decisivo da história europeia: aquele em que uma determinada cosmovisão do mundo começa a ceder perante outra.

Saavedra nasceu no final do século XVI e viveu intensamente as convulsões políticas e religiosas do século XVII. Diplomata da Monarquia Hispânica, conheceu por dentro as negociações, alianças, rivalidades e guerras de uma Europa dilacerada pela Reforma e pela Guerra dos Trinta Anos. Não escreveu, portanto, sobre o poder a partir da tranquilidade de uma biblioteca. Conheceu os corredores onde o poder se exercia e percebeu a distância que frequentemente separava os princípios proclamados dos interesses efetivamente perseguidos.

A sua Idea de un príncipe político cristiano representada en cien empresas, publicada em 1640, nasce precisamente dessa tensão.

O problema de Saavedra pode formular-se através de uma pergunta que continua extraordinariamente atual: como exercer o poder político num mundo onde eficácia, interesse e moral tendem a separar-se?

Durante séculos, a conceção cristã medieval procurara compreender o universo como uma realidade ordenada. Deus, criação, natureza humana, lei natural, comunidade e poder político integravam, apesar das contradições da existência concreta, uma mesma arquitetura do real. O príncipe encontrava-se submetido a uma ordem que o transcendia. O poder não constituía a fonte última da justiça.

A modernidade política começa progressivamente a alterar esta relação.

Maquiavel representa um dos momentos fundamentais dessa transformação. A política passa a ser observada segundo a sua própria lógica: conservação do poder, cálculo, oportunidade, força, prudência estratégica. O problema deixa gradualmente de ser apenas saber o que é justo e passa também a ser saber o que funciona.

Saavedra conhece esse novo mundo. Seria ingénuo ignorá-lo. Diplomatas enganam, príncipes conspiram, alianças mudam, interesses económicos condicionam decisões, Estados cristãos combatem outros Estados cristãos e a razão de Estado começa a adquirir uma autonomia própria.

Mas Saavedra recusa uma conclusão decisiva: que a necessidade política possa transformar-se na medida última do bem.

É precisamente aqui que o seu pensamento se torna particularmente interessante. Ele procura conservar uma prudência política cristã capaz de reconhecer o mundo como ele é sem aceitar que o mundo deva permanecer como está.

Entre a ingenuidade moral e o cinismo político existe a prudência.

E talvez seja esta uma das grandes lições de Saavedra.

A questão torna-se ainda mais profunda quando olhamos para o século XVI que imediatamente o precedeu. A expansão portuguesa no Índico, o crescimento do Império Otomano, a Reforma, as guerras religiosas, Malta, Lepanto, a expansão espanhola, o nascimento dos grandes impérios ultramarinos e a crescente competição comercial europeia mostram uma civilização em transformação.

As guerras continuam frequentemente a ser apresentadas como confrontos religiosos. Mas religião, comércio, território, prestígio, segurança e ambição imperial encontram-se cada vez mais entrelaçados.

As cosmovisões começam a confrontar-se dentro da própria Europa.

É neste ponto que surge uma palavra essencial para compreender Saavedra e, de modo mais amplo, a cultura barroca: desengano.

Desengano não significa simplesmente pessimismo. Significa aprender a distinguir aparência e realidade.

A glória pode esconder vaidade.

A vitória pode esconder uma derrota moral.

A religião pode servir de linguagem para interesses políticos.

A razão de Estado pode transformar a necessidade em justificação permanente.

O império pode convencer-se de que a sua expansão constitui um bem em si mesma.

E o governante pode acabar por acreditar que aquilo que aumenta o seu poder aumenta necessariamente o bem comum.

O desengano consiste precisamente em retirar esses véus.

Saavedra percebe que a política é necessária, que o poder é inevitável e que a prudência exige cálculo. Mas percebe igualmente que nenhuma destas realidades pode constituir o fundamento último da existência humana.

É aqui que a discussão sobre cosmovisões ultrapassa largamente o século XVII.

Uma cosmovisão responde, mesmo quando não o declara explicitamente, às perguntas fundamentais: o que é o homem? O que é o bem? De onde provém a autoridade? Existe uma ordem anterior ao poder? Há limites que nem sequer a necessidade política pode ultrapassar?

As respostas determinam depois a forma como compreendemos o Estado, a guerra, a economia, a justiça e a própria dignidade humana.

Por isso, o conflito decisivo da modernidade talvez não tenha ocorrido apenas entre impérios, religiões ou Estados. Ocorreu também entre diferentes maneiras de compreender a realidade.

De um lado, a ideia de que existe uma ordem do ser que o homem deve reconhecer.

Do outro, a tentação crescente de considerar que a ordem pode ser construída pela própria vontade humana.

Saavedra encontra-se numa fronteira entre estes mundos.

Conhece suficientemente bem a política para perceber que a virtude, por si só, não elimina o conflito. Mas conhece suficientemente bem a tradição cristã para compreender que a eficácia, separada do bem, pode transformar o poder numa finalidade absoluta.

Talvez por isso continue a merecer ser lido.

Porque a pergunta que atravessa a sua obra permanece diante de nós quatro séculos depois.

Mudaram os impérios, desapareceram muitas monarquias e nasceram novas formas de poder. Mudou a linguagem política. Permaneceram, contudo, as questões fundamentais.

O poder serve uma determinada conceção do homem ou acaba por fabricar o homem de que necessita?

Saavedra Fajardo recorda-nos que toda a política pressupõe uma antropologia e toda a antropologia pressupõe, no fundo, uma cosmovisão.

Quando esquecemos isso, começamos a discutir apenas os mecanismos do poder.

E talvez já tenhamos esquecido a pergunta mais importante: para que serve o poder e ao serviço de que ideia de homem deve ele estar?

Francisco Vaz

19 de agosto de 2026

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