o grande almirante e os limites do estratega
Yamamoto ocupa um lugar singular na história naval do século XX. Poucos almirantes derrotados adquiriram uma aura comparável à sua. O ataque a Pearl Harbor, a utilização concentrada dos porta-aviões, a percepção precoce da importância da aviação naval e, sobretudo, a sua conhecida consciência da enorme capacidade industrial norte-americana contribuíram para construir a imagem de um estratega quase visionário. Há, porém, razões fortes para separar o grande comandante naval do grande estratega. E essa distinção torna-se particularmente clara quando se observa a génese da operação de Midway.
Yamamoto era, sem dúvida, um homem inteligente, culto, corajoso e conhecedor dos Estados Unidos. Tinha vivido naquele país, estudara em Harvard e servira como adido naval em Washington. Percebia, melhor do que muitos dos seus contemporâneos japoneses, a dimensão do adversário. A frase que John Adams lhe atribui é reveladora: «The real battle is now a competition between Japanese discipline and American scientific technology.» Yamamoto compreendia que o Japão estava a entrar numa guerra contra uma potência cuja capacidade científica, tecnológica e industrial acabaria por se tornar esmagadora.
É precisamente aqui que surge o primeiro paradoxo.
Yamamoto compreendeu uma parte essencial do problema estratégico japonês, mas as operações que concebeu contribuíram para agravar esse mesmo problema.
Pearl Harbor constitui o primeiro exemplo. Foi uma extraordinária operação do ponto de vista táctico e operacional: concentração de força, surpresa, treino, sigilo, coordenação e utilização inovadora do poder aeronaval. Mas uma operação brilhante constitui estratégia apenas quando serve adequadamente um objectivo político alcançável. Pearl Harbor destruiu ou danificou uma parte importante da esquadra americana, mas deixou intactos os porta-aviões, não destruiu a capacidade industrial norte-americana e, sobretudo, transformou uma sociedade politicamente dividida numa nação mobilizada para uma guerra sem compromisso.
A questão estratégica deveria, portanto, formular-se de outra maneira: que paz tornou Pearl Harbor possível ao Japão?
A resposta é desconfortável: praticamente nenhuma.
Midway torna esta contradição ainda mais evidente.
O excerto de John Adams é especialmente importante porque mostra que a operação esteve longe de constituir uma conclusão natural do pensamento estratégico japonês. Pelo contrário, encontrou resistências sérias dentro da própria estrutura naval. Fukudome e Tomioka tinham reservas. Tomioka partilhava com Kuroshima a percepção de que Midway poderia transformar-se num pesadelo logístico. O Exército via poucos benefícios na operação e receava que a ocupação do atol conduzisse inevitavelmente a uma futura exigência de participação numa invasão do Havai. O Naval General Staff também identificava problemas fundamentais.
E tinha razão em vários deles.
Midway era demasiado pequena para constituir uma base aérea ofensiva decisiva contra o Havai. A sua manutenção exigiria meios navais e logísticos que o Japão já começava a ter dificuldade em disponibilizar. Mais grave ainda, o sistema japonês de formação e substituição de aviadores era incapaz de repor rapidamente as perdas sofridas pelas unidades de elite da aviação naval.
Aqui encontramos talvez a maior fraqueza estratégica de Yamamoto.
Planeou uma guerra de atrição com uma força que não podia permitir-se sofrer atrição.
O Japão possuía, no início da guerra, alguns dos melhores aviadores navais do mundo. Mas esse extraordinário instrumento militar era artesanal: formava excelentes pilotos lentamente e em números reduzidos. Os Estados Unidos construíam um sistema industrial de guerra: navios, aviões, pilotos, combustível, logística e infra-estruturas podiam ser produzidos numa escala progressivamente incomparável.
Yamamoto conhecia esta assimetria. Contudo, em vez de preservar o seu instrumento aeronaval para situações em que pudesse obter uma relação de perdas claramente favorável, procurou repetidamente a batalha decisiva.
É aqui que a sua formação intelectual se revela simultaneamente poderosa e limitadora. Yamamoto permaneceu, em grande medida, herdeiro da tradição japonesa de Tsushima: encontrar a esquadra inimiga, destruí-la numa batalha decisiva e alterar por esse meio o curso da guerra. Os porta-aviões substituíram os couraçados como principal instrumento, mas a gramática profunda do pensamento manteve-se.
Midway destinava-se precisamente a isso.
O atol interessava menos pelo seu valor intrínseco do que pela esperança de obrigar os porta-aviões americanos a aparecer. Midway era a isca; os porta-aviões americanos eram a verdadeira presa.
Mas até este raciocínio era contestado pelo Naval General Staff. Como refere Adams, os seus planeadores perguntavam, com pertinência: por que razão haveriam os americanos de arriscar os seus preciosos porta-aviões para defender duas pequenas ilhas? Poderiam simplesmente recuar, deixar os japoneses assumir o encargo logístico de Midway e esperar que estes avançassem para mais perto do Havai, onde teriam de enfrentar não apenas a esquadra americana, mas também a aviação baseada em terra.
Esta objecção atingia o centro do plano de Yamamoto: a operação dependia de o inimigo fazer aquilo que Yamamoto precisava que ele fizesse.
Ora, uma boa estratégia procura impor dilemas ao adversário. Uma estratégia frágil depende da sua colaboração.
O Naval General Staff apresentava uma alternativa interessante: avançar para a Nova Caledónia, Fiji e Samoa. A ameaça às comunicações entre os Estados Unidos e a Austrália poderia criar uma pressão política e estratégica suficientemente forte para obrigar Washington a reagir. Adams observa, sugestivamente, que os discípulos de Clausewitz compreenderiam o argumento: se o verdadeiro centro de gravidade operacional eram os porta-aviões americanos, seria necessário criar uma situação em que estes tivessem necessidade de combater, e não simplesmente esperar que aceitassem o convite japonês.
Há ainda outro elemento que deve ser considerado na avaliação de Yamamoto: a forma como impôs a operação.
Segundo Adams, perante a resistência do Naval General Staff, representantes de Yamamoto deixaram entender que o comandante da Combined Fleet poderia demitir-se caso a operação de Midway não fosse aprovada. Algo semelhante já acontecera durante a preparação de Pearl Harbor.
Isto pode ser interpretado como coragem moral e determinação. Mas também revela uma fragilidade institucional.
Quando um comandante precisa de colocar a sua própria demissão sobre a mesa para vencer repetidamente uma discussão estratégica, o processo de decisão deixa de funcionar como verdadeiro mecanismo de crítica. A autoridade pessoal começa a substituir a argumentação. E quando isso acontece, as objecções dos subordinados deixam de constituir instrumentos para aperfeiçoar o plano e passam a ser obstáculos a ultrapassar.
É especialmente significativo que algumas das objecções levantadas contra Midway tenham sido confirmadas pelos acontecimentos.
Mas existe um paradoxo ainda maior.
Yamamoto pretendia concentrar-se na destruição dos porta-aviões americanos e concebeu, para o conseguir, uma operação extraordinariamente dispersa. Aleutas, Midway, força de invasão, força principal de couraçados, grupos de apoio e os porta-aviões de Nagumo encontravam-se distribuídos por enormes extensões do Pacífico. A Combined Fleet possuía uma superioridade global considerável, mas essa superioridade estava fragmentada.
No momento decisivo, Nagumo combateu praticamente sozinho.
Há aqui uma ironia estratégica profunda: Yamamoto procurava a batalha decisiva, mas organizou as suas forças de uma forma que dificultava a concentração decisiva.
A comparação com Nimitz torna-se particularmente reveladora. Nimitz dispunha de forças inferiores. Sabia-o. Em vez de procurar compensar essa inferioridade através de um plano excessivamente complexo, concentrou aquilo que realmente importava: os seus três porta-aviões. Aceitou risco, mas tratou-se de risco calculado. A inteligência permitiu-lhe escolher o espaço da batalha; a concentração permitiu-lhe maximizar a força disponível; e a delegação em Fletcher e Spruance preservou suficiente flexibilidade táctica.
Yamamoto possuía mais meios.
Nimitz conseguiu colocar mais poder relevante no lugar e no momento decisivos.
É precisamente aqui que devemos distinguir poder disponível de poder aplicado. A estratégia vive do segundo.
Nada disto transforma Yamamoto num comandante medíocre. Seria cair no erro inverso. A sua compreensão precoce do porta-aviões, a audácia de Pearl Harbor, a percepção da ameaça industrial americana e a capacidade de pensar para além das ortodoxias existentes colocam-no entre as grandes figuras navais do seu tempo.
Mas talvez seja excessivo classificá-lo como um dos grandes estrategas navais da História.
Porque a estratégia exige mais do que audácia. Exige coerência entre fins políticos, objectivos militares, recursos disponíveis, tempo, logística e capacidade de regeneração da força. Exige também compreender que o adversário possui vontade própria.
E é neste ponto que Yamamoto parece ter falhado.
Ele sabia que o tempo favorecia os Estados Unidos. Sabia que a capacidade industrial americana acabaria por ultrapassar esmagadoramente a japonesa. Sabia que os aviadores da Kido Butai constituíam um recurso dificilmente substituível. Sabia que o Japão precisava de obter rapidamente uma situação estratégica favorável.
Mas desse diagnóstico correcto retirou uma conclusão perigosa: era necessário procurar rapidamente uma batalha decisiva.
Talvez a verdadeira questão fosse outra: se uma guerra apenas podia ser ganha através de uma batalha decisiva que o adversário tinha liberdade para evitar, e se o fracasso dessa batalha destruiria precisamente os recursos que o Japão não conseguia substituir, então o problema estava situado muito acima de Midway.
Estava na própria concepção japonesa da guerra.
Yamamoto percebeu melhor do que muitos dos seus contemporâneos a dimensão do abismo para onde o Japão caminhava. A tragédia está em que, apesar de o ter percebido, ajudou a conduzi-lo até lá.
Talvez Yamamoto tenha sido um extraordinário almirante operacional, um táctico audacioso e um homem de notável coragem pessoal. Mas um grande estratega teria de responder a uma pergunta mais difícil: não como ganhar a próxima batalha, mas como essa batalha poderia ganhar a guerra.
Em Midway, Yamamoto nunca encontrou uma resposta convincente.
Francisco Vaz
15 de agosto de 2026
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