Nimitz, Catherine e a dimensão humana do comando
A História recorda Chester W. Nimitz sobretudo como o comandante que, depois do ataque a Pearl Harbor, assumiu a chefia da Esquadra do Pacífico e conduziu as forças norte-americanas através de uma das mais vastas campanhas navais da História. Midway, Guadalcanal, as Gilbert, as Marshall, as Marianas, Iwo Jima e Okinawa ficaram inevitavelmente associados ao seu nome e à sua capacidade para exercer o comando num teatro de operações de dimensão quase incompreensível.
Existe, porém, outro Nimitz.
Um Nimitz muito menos visível nos mapas de operações, nas ordens de batalha e nas histórias das campanhas, mas talvez indispensável para compreendermos o primeiro: o marido, o pai, o homem que, durante a guerra, escreveu regularmente à mulher, Catherine.
Muitas dessas cartas começavam com uma expressão simultaneamente simples e reveladora:
«Best Beloved».
Duas palavras que abrem uma inesperada janela sobre a dimensão humana do comando.
Ao apresentar esta correspondência, o almirante Samuel J. Paparo Jr. chama precisamente a atenção para aquilo que nela se revela: por detrás da aparência estoica do comandante encontrava-se um homem profundamente ligado à família, desejando regressar a casa e procurando na relação com Catherine um espaço onde pudesse partilhar, tanto quanto as exigências do segredo militar permitiam, o peso de responsabilidades dificilmente imagináveis.
As cartas possuem, por isso, um valor que ultrapassa a curiosidade biográfica. São também documentos sobre a condição humana.
O homem para além da função
A organização militar, como qualquer grande organização, identifica necessariamente os seus membros pelas funções que exercem. Há comandantes, oficiais, sargentos e praças; há unidades, forças, estados-maiores e cadeias de comando. Em guerra, esta dimensão funcional torna-se ainda mais acentuada.
Nimitz era Commander in Chief, Pacific Fleet e, posteriormente, Commander in Chief, Pacific Ocean Areas. Para Roosevelt, King, Marshall, MacArthur, Halsey ou Spruance era o comandante de um gigantesco teatro de guerra.
Para Catherine continuava a ser Chester.
A diferença parece pequena. Antropologicamente, é imensa.
A instituição conhece necessariamente a função. A pessoa amada conhece a pessoa.
Existe sempre o risco de o exercício prolongado do poder fazer com que o indivíduo se confunda progressivamente com o cargo que desempenha. Quando isso acontece, a função deixa de ser um serviço e começa a transformar-se numa identidade. O homem passa a necessitar do poder para saber quem é.
As cartas de Nimitz sugerem precisamente o contrário.
No momento em que escreve a Catherine, o CINCPAC regressa a Chester. O homem que movimenta porta-aviões, couraçados, submarinos e centenas de milhares de militares regressa ao espaço onde a patente possui uma importância secundária.
Talvez resida aqui uma das razões da conhecida sobriedade de Nimitz perante o poder.
Ele sabia, no sentido mais profundamente humano da palavra, que era mais do que o cargo que exercia.
Um porto durante a tempestade
Paparo utiliza uma expressão particularmente feliz para caracterizar o significado da família para quem serve no mar: «For Sailors, family is the harbor in a storm.»
Para os marinheiros, a família é o porto durante a tempestade.
A metáfora merece atenção.
O navio existe para navegar, mas a navegação pressupõe referências. Há um lugar de onde se parte, pontos pelos quais se determina a posição e um porto ao qual se pretende regressar.
Também o homem necessita dessas referências.
Para Nimitz, Catherine e a família constituíam esse porto interior.
Não representavam uma distração relativamente à missão. Eram parte daquilo que conferia sentido à própria missão.
Esta ideia possui particular significado para a condição militar. Quem parte para o mar deixa inevitavelmente alguma coisa em terra. A separação faz parte da profissão naval desde que existem navios. Mudaram as tecnologias, as comunicações e as condições de vida a bordo; permanece, contudo, uma realidade essencial: servir implica frequentemente partir.
E toda a partida contém a esperança do regresso.
As cartas de Nimitz recordam-nos que mesmo aquele que ocupava o vértice da estrutura de comando não estava imune a esta condição elementar do marinheiro.
Também ele tinha saudades.
Também ele precisava de casa.
Também ele esperava regressar.
Quem sustenta aquele que sustenta os outros?
Existe outra dimensão particularmente relevante para o estudo da liderança.
Pensamos habitualmente o comando num único sentido: o comandante sustenta os seus subordinados. Decide, assume responsabilidades, transmite confiança, estabelece prioridades e procura transformar a incerteza em ação.
Em guerra, esta exigência torna-se extrema.
Mas surge então uma pergunta raramente formulada:
quem sustenta aquele que tem de sustentar os outros?
Quem escuta aquele que passa os dias a escutar problemas? Onde encontra repouso aquele de quem todos esperam serenidade? Com quem partilha as suas inquietações o homem que sabe que uma decisão sua poderá determinar a vida ou a morte de milhares?
A correspondência com Catherine ajuda-nos a compreender esta dimensão menos visível da liderança de Nimitz.
Naturalmente, as exigências de segurança impediam-no de revelar muitos dos assuntos que ocupavam os seus dias. Mas a própria continuidade da correspondência constituía uma ligação com uma realidade exterior à guerra.
Era uma forma de regressar a casa sem abandonar o posto de comando.
Talvez devamos procurar também aí parte da extraordinária estabilidade emocional que tantos contemporâneos reconheceram em Nimitz.
A serenidade do comandante dificilmente pode ser explicada apenas pelo temperamento, pela experiência profissional ou pela disciplina militar. O homem necessita de estruturas humanas que o sustentem.
Nimitz possuía uma delas: a família.
Liderança e relação
Existe ainda uma consequência mais profunda.
As cartas mostram que um dos homens mais poderosos do seu tempo precisava dos outros.
Precisava de escrever.
Precisava de partilhar.
Precisava de manter viva uma relação.
Precisava de regressar, ainda que através de algumas linhas escritas a milhares de quilómetros de distância, àqueles para quem não era o comandante da Guerra do Pacífico, mas simplesmente marido e pai.
Esta realidade contraria a imagem, por vezes cultivada, do chefe autossuficiente.
Nenhum comandante se basta a si próprio.
E talvez aquele que reconhece esta realidade esteja mais preparado para compreender os homens e mulheres que comanda.
A liderança de Nimitz caracterizou-se, entre outros aspetos, pela confiança depositada nos subordinados e pela capacidade de escolher homens diferentes para missões diferentes. Spruance não era Halsey; Fletcher não era Turner; Lockwood possuía características próprias. Nimitz não procurava reproduzir-se nos seus subordinados. Procurava retirar de cada um aquilo que melhor poderia servir a missão.
Também aqui encontramos uma conceção relacional do comando.
Uma grande organização militar não é simplesmente uma máquina constituída por peças substituíveis. É uma comunidade de pessoas que desempenham funções diferentes em torno de uma missão comum.
Comandar homens começa, por isso, por reconhecer que são homens.
«Best Beloved»
É neste contexto que as duas palavras com que Nimitz iniciava muitas das suas cartas ganham um significado particular.
«Best Beloved».
Não constituem apenas uma fórmula de intimidade conjugal.
Recordam-nos algo essencial acerca da condição humana e, consequentemente, acerca da própria liderança.
Antes do almirante existe o homem.
Antes da patente existe o nome.
Antes da função existe a pessoa.
E antes do poder existe a relação.
Quando terminaram a guerra e o comando, desapareceram progressivamente os gabinetes, os mapas, as ordens de operações e as enormes estruturas militares sobre as quais Nimitz exercera autoridade.
Catherine permaneceu.
É talvez esta a extraordinária contribuição destas cartas para o conhecimento de Chester W. Nimitz. Os documentos operacionais permitem-nos estudar como comandou a guerra. A correspondência familiar permite-nos entrever o homem que suportou o peso de a comandar.
E talvez exista aqui uma lição para todos aqueles que exercem responsabilidades de comando.
A verdadeira medida da liderança encontra-se certamente na capacidade de decidir, assumir riscos e cumprir a missão. Mas encontra-se também na capacidade de atravessar o poder sem permitir que o poder ocupe todo o espaço interior da pessoa.
No centro daquele gigantesco sistema militar que se estendia através do Pacífico encontrava-se um homem que, depois das reuniões, dos relatórios de inteligência, das notícias de perdas e das decisões sobre a próxima operação, se sentava para escrever à mulher.
E começava:
«Best Beloved».
Talvez essas duas palavras nos digam sobre Chester W. Nimitz algo que nenhum mapa de operações consegue mostrar.
No meio de uma guerra que inevitavelmente transformava homens em efetivos, unidades, tripulações e números inscritos em relatórios de baixas, existia ainda um lugar onde o comandante supremo da Guerra do Pacífico era simplesmente uma pessoa amada.
Era o seu porto durante a tempestade.
E talvez tenha sido também por possuir esse porto que Chester W. Nimitz conseguiu atravessar uma das maiores tempestades da História sem perder de vista o homem que existia por detrás do almirante.
Francisco Vaz
15 de agosto de 2026
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