ou como a Bíblia transformou os mitos do Antigo Oriente numa reflexão sobre o ser, a dignidade humana e o fundamento do real
Quando lemos os primeiros capítulos do Génesis, somos frequentemente tentados a colocá-los perante uma falsa alternativa: ou são história literal ou são mera ficção mítica. Porém, uma leitura mais atenta, iluminada pelos estudos bíblicos contemporâneos e, em particular, pela obra do biblista português Armindo dos Santos Vaz, revela uma realidade muito mais rica e profunda.
Os relatos da criação não surgiram num vazio cultural. Foram redigidos num contexto em que circulavam numerosos mitos de origem provenientes da Mesopotâmia, do Egito e de outras civilizações do Antigo Oriente Próximo. Os autores bíblicos conheciam esse património simbólico e utilizaram-no como linguagem para transmitir uma visão radicalmente nova de Deus, do mundo e do ser humano.
O Génesis partilha com esses mitos alguns elementos narrativos. Tal sucede com a existência de um caos primordial anterior à criação, com a formação do homem a partir do barro ou com a narrativa do dilúvio universal. Contudo, o essencial não reside nas semelhanças, mas nas diferenças.
No mito babilónico Enuma Elish, o mundo nasce de uma guerra entre deuses. O cosmos é construído a partir da vitória de Marduque sobre Tiamat, a divindade do caos primordial. A ordem resulta da violência. No Génesis, pelo contrário, Deus não combate ninguém. Não existe qualquer rivalidade divina. O universo surge pela simples palavra criadora. O mundo não nasce da força, mas da inteligência e da vontade. A criação deixa de ser um episódio de conflito cósmico para se tornar manifestação de uma ordem racional fundada no bem.
Também a criação do homem apresenta paralelismos significativos. Em diversos mitos mesopotâmicos, o ser humano é moldado do barro pelos deuses. A Bíblia conserva essa imagem simbólica, mas altera-lhe completamente o sentido. O homem não é criado para servir os deuses como escravo nem para aliviar as suas tarefas. É criado à imagem e semelhança de Deus, dotado de dignidade própria e chamado a participar responsavelmente na obra da criação. Aquilo que era servidão transforma-se em vocação.
O mesmo sucede com a narrativa do dilúvio. A epopeia de Gilgamesh apresenta uma história surpreendentemente próxima da de Noé: uma embarcação, a preservação das espécies animais, a libertação de aves após a inundação e um sacrifício final. Porém, enquanto nos relatos mesopotâmicos o dilúvio resulta frequentemente do capricho ou da irritação dos deuses, na Bíblia assume uma dimensão ética. A narrativa deixa de ser uma descrição dos humores divinos para se tornar uma reflexão sobre a responsabilidade humana e sobre as consequências da corrupção moral.
É precisamente aqui que reside a grande originalidade do Génesis. Os autores bíblicos utilizaram a linguagem simbólica dos mitos conhecidos do seu tempo, mas transformaram profundamente o seu significado. A forma permanece semelhante; a substância muda radicalmente.
A leitura proposta por Armindo dos Santos Vaz permite compreender que o Génesis representa uma verdadeira revolução espiritual. Pela primeira vez, afirma-se de forma clara a existência de um único Deus transcendente, criador de todas as coisas. O cosmos deixa de ser um campo de batalha entre divindades rivais para se tornar uma realidade ordenada e inteligível. O ser humano deixa de ser um simples instrumento dos deuses para se afirmar como portador de uma dignidade singular.
Existe aqui um interessante paralelismo com o percurso da filosofia grega. Tal como Platão procurou ultrapassar o universo mítico através da procura do Bem como fundamento último da realidade, também o Génesis realiza uma passagem do mito para o logos. Não abandona a linguagem simbólica, mas coloca-a ao serviço de uma verdade mais profunda. O mito deixa de explicar a realidade através da fantasia para a iluminar através do sentido.
Por isso, os relatos da criação não devem ser lidos como descrições científicas das origens nem como simples narrativas imaginárias. São meditações sobre o ser. Procuram responder às grandes perguntas humanas: de onde vimos, quem somos, qual o nosso lugar no mundo e qual o fundamento último da realidade.
A sua força permanece atual precisamente porque não pretendem explicar o mecanismo da criação, mas revelar o seu significado. Enquanto a ciência procura compreender o como, o Génesis interroga-se sobre o porquê.
Talvez seja essa a sua maior lição. Os autores bíblicos não destruíram os mitos herdados da cultura do seu tempo. Assumiram-nos, purificaram-nos e orientaram-nos para uma compreensão mais elevada da existência. Onde antes havia deuses em conflito, surgiu a unidade do ser. Onde havia servidão, surgiu a dignidade humana. Onde havia caos, surgiu uma ordem fundada no bem.
Nessa transformação encontra-se uma das mais extraordinárias conquistas do espírito humano: a descoberta de que a realidade não assenta na violência nem no acaso, mas numa inteligência criadora que chama todas as coisas ao ser e lhes confere sentido.
Francisco Vaz
16 de junho de 2026
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