Entre a lógica da guerra e a possibilidade do encontro
Ao longo da história da humanidade, fomos educados a acreditar que a guerra, a competição e a luta constituem o fundamento da existência humana. Desde as antigas epopeias até às modernas teorias políticas, económicas e sociais, repetiu-se incessantemente a ideia de que o conflito é o motor da história. Heróis são celebrados pelas vitórias militares, impérios são recordados pela capacidade de conquista e muitas filosofias apresentaram a rivalidade como condição inevitável da vida humana.
Não surpreende, por isso, que se tenha chegado a considerar a guerra como uma espécie de categoria metafísica, quase uma lei da natureza. Em diferentes épocas, pensadores procuraram justificar racionalmente a violência, transformando-a não apenas num facto histórico, mas numa necessidade. A luta entre indivíduos, classes, povos ou nações passou a ser apresentada como inevitável e até desejável, como se o progresso humano dependesse dela.
Contudo, esta visão encerra uma profunda redução da realidade humana.
Do ponto de vista ontológico, isto é, da reflexão sobre o ser e sobre aquilo que torna possível a existência humana, a guerra não pode ser considerada originária. Antes de qualquer combate, existe a relação. Antes da rivalidade, existe o encontro. Nenhum ser humano nasce em guerra; nasce dependente do cuidado de outros. A condição humana funda-se na vulnerabilidade, na necessidade de acolhimento e na capacidade de reconhecimento mútuo.
A própria existência de cada pessoa é testemunho dessa verdade. Nenhum ser humano se cria a si mesmo. Todos somos recebidos no mundo através de uma relação de cuidado. A violência pode destruir a relação, mas não a cria. O conflito pode interromper a comunhão, mas não a origina. Ontologicamente, o ser humano é um ser-com-os-outros. A cooperação não é uma invenção tardia da civilização; é uma condição da própria sobrevivência da espécie.
É significativo que muitas tradições religiosas e culturais não coloquem a guerra no princípio, mas sim uma idade de harmonia perdida. O Paraíso bíblico, a Idade de Ouro dos gregos ou os mitos de uma humanidade primordial reconciliada exprimem uma intuição comum: a violência não pertence ao fundamento do ser, mas à sua degradação.
Daqui emerge a dimensão ética da questão.
A ética começa quando reconhecemos o outro como alguém que possui uma dignidade igual à nossa. A violência procura transformar o outro em objeto, instrumento ou obstáculo. A não violência, pelo contrário, reconhece-o como sujeito.
Não se trata de sentimentalismo nem de ingenuidade. A não violência não ignora o mal nem nega a existência do conflito. O que ela recusa é a ideia de que a guerra seja mais racional do que o amor, ou que a destruição constitua uma forma superior de inteligência política.
Durante séculos, exaltaram-se as virtudes do guerreiro, do conquistador e do vencedor. Menos atenção se deu à coragem daquele que reconcilia, daquele que perdoa, daquele que constrói pontes onde outros erguem muros. Contudo, a história demonstra que as maiores transformações civilizacionais ocorreram quando a lógica da força foi substituída pela lógica da cooperação.
A verdadeira grandeza ética não reside na capacidade de derrotar um adversário, mas na capacidade de reconhecer a humanidade daquele que se encontra diante de nós.
A dimensão política decorre naturalmente desta visão.
Se a política, a relação entre diferentes entidades éticas, é a arte de tornar possível a convivência entre diferentes, então a violência representa sempre um fracasso da política. Pode, em certas circunstâncias, ser necessário o uso da força para proteger inocentes ou garantir a sobrevivência de uma comunidade, mas, a violência, nunca pode constituir o horizonte último da organização social.
As grandes tragédias do século XX demonstraram como a absolutização da violência conduz inevitavelmente ao totalitarismo, à guerra permanente e à instrumentalização do ser humano. Quando a guerra, ou seja, a continuação da política por outros meios, se torna permanente, desaparece o espaço do diálogo e da construção comum.
Hoje, num mundo marcado por conflitos armados, polarização ideológica e crescente fragmentação social, a questão da não violência assume uma renovada atualidade. A humanidade dispõe de meios tecnológicos capazes de destruir o planeta várias vezes, mas continua a revelar dificuldade em construir relações de confiança.
Talvez o desafio do nosso tempo seja precisamente este: substituir a categoria da guerra pela categoria do amor.
Não se trata de negar a existência do conflito, mas de reconhecer que ele não constitui o fundamento da realidade humana. O fundamento é o encontro. O fundamento é a possibilidade de comunhão. O fundamento é a capacidade de reconhecer no outro não um inimigo, mas um semelhante.
Por isso, a não violência não deve ser entendida como mera ausência de guerra. Ela é uma visão do ser humano, uma exigência ética e um projeto político. Representa a convicção de que a história não está condenada a repetir eternamente a lógica da violência.
Num tempo em que muitos parecem acreditar que apenas o poder produz ordem, importa recordar uma verdade frequentemente esquecida: nenhuma sociedade se sustenta apenas pela força. O que verdadeiramente a mantém unida é a confiança, a cooperação e o reconhecimento mútuo.
A não violência não é, portanto, uma utopia ingénua. É talvez a mais elevada expressão da racionalidade humana. Porque, no fim de contas, a civilização não começou quando o homem aprendeu a guerrear; começou quando aprendeu a cuidar.
Francisco Vaz
5 de Maio de 2026
Sem comentários:
Enviar um comentário