o Ser Humano como Criador de Mundos
A palavra grega poiesis significa literalmente «fazer», «produzir», «trazer à existência». Contudo, o seu significado filosófico é muito mais profundo do que a simples fabricação de objetos. Em sentido pleno, poiesis designa o ato pelo qual algo que antes não existia passa a existir pela mediação da inteligência, da vontade e da ação humanas.
A modernidade habituou-nos a associar a criação poética quase exclusivamente à arte. Pensamos no poeta que compõe um soneto, no pintor que cria uma tela ou no músico que escreve uma sinfonia. Todavia, para os gregos, a esfera da poiesis era muito mais ampla. O pastor que fabrica um cajado, o carpinteiro que constrói uma mesa, o arquiteto que ergue uma casa ou o engenheiro que projeta uma máquina participam igualmente desse movimento criador que faz emergir algo novo no mundo.
Esta compreensão revela uma verdade antropológica fundamental: o ser humano não é apenas um habitante do mundo; é também um criador de mundos. Entre a natureza recebida e a cultura produzida existe um espaço de liberdade onde a inteligência humana imprime forma à matéria e significado à existência. Cada objeto criado é mais do que um simples instrumento; é a materialização de uma intenção, de um desejo, de uma necessidade ou de uma esperança.
Mesmo os objetos aparentemente mais utilitários possuem uma dimensão simbólica. Um cajado não é apenas madeira trabalhada; é também proteção, autoridade e orientação. Uma ponte não é apenas uma estrutura de engenharia; é a expressão do desejo humano de unir margens separadas. Da mesma forma, uma arma não é apenas um mecanismo de destruição; representa igualmente o medo, a defesa, a segurança ou o exercício do poder. O objeto criado transporta sempre consigo algo da alma do seu criador.
A técnica contemporânea tende, porém, a ocultar esta dimensão. Os objetos surgem diante de nós como meros produtos funcionais, avaliados pela sua eficiência ou utilidade económica. Esquecemos que toda a produção humana é também uma narrativa sobre aquilo que somos. Até mesmo as criações mais inquietantes da modernidade, como as armas nucleares, podem ser interpretadas como manifestações extremas de uma mesma dinâmica poética: a tentativa humana de dominar a vulnerabilidade, controlar o futuro e afastar o espectro da própria destruição.
Neste sentido, a poiesis aproxima-se da ontologia. Criar é participar, ainda que de forma limitada, no mistério do próprio ser. Cada ato criador reproduz simbolicamente aquilo que as grandes tradições filosóficas e religiosas atribuíram ao princípio originário da realidade: fazer surgir o que antes não era. O homem não cria a partir do nada, mas transforma o que recebe, tornando-se colaborador da obra incessante da existência.
Talvez seja por isso que a poiesis permaneça uma das mais nobres expressões da condição humana. Não apenas porque produz objetos ou obras de arte, mas porque manifesta a capacidade singular do ser humano de conferir forma ao mundo e sentido à vida. Criar é, em última análise, participar do próprio movimento pelo qual o ser se revela e se torna presença.
Francisco Vaz
11 de junho de 2026
Sem comentários:
Enviar um comentário