Pecado original

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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Midway

 o desastre japonês 

A Batalha de Midway é frequentemente apresentada como uma vitória americana obtida pela combinação de inteligência, coragem e alguma dose de acaso. Tudo isso é verdade. Mas, do lado japonês, Midway foi sobretudo uma tragédia estratégica: a incapacidade de reconhecer que a batalha já tinha mudado de natureza.

O excerto de Shattered Sword revela um dos momentos mais dramáticos da história naval. Enquanto o porta-aviões japonês Hiryū continuava a lançar ataques contra os americanos, os seus tripulantes observavam horrorizados o estado de Sōryū. As chamas consumiam o navio de proa à popa. O almirante Tamon Yamaguchi tentou contactá-lo por sinal luminoso: “Tentem salvar o vosso porta-aviões.” Não houve resposta. O silêncio era a confirmação de que o desastre já ultrapassava a capacidade humana de o controlar.

Mas a verdadeira tragédia não estava apenas nos navios em chamas. Estava na mente dos comandantes.

Nagumo e Yamaguchi continuavam a pensar segundo os pressupostos da manhã, quando o Kidō Butai era a mais poderosa força aeronaval do mundo. Contudo, ao meio-dia de 4 de Junho de 1942, a realidade era outra. Três dos quatro porta-aviões japoneses estavam mortalmente feridos. A capacidade ofensiva da força tinha sido reduzida a uma fração do que existira poucas horas antes. Ainda assim, ambos os almirantes persistiram numa lógica de ataque.

Há aqui uma profunda lição estratégica. A guerra exige coragem, mas exige igualmente discernimento. A coragem sem discernimento transforma-se em obstinação. O comandante que não consegue distinguir entre persistência e teimosia arrisca-se a sacrificar os meios de que ainda dispõe em nome de uma vitória que já não é possível alcançar.

O contraste com a atitude de Chester Nimitz é particularmente instrutivo. A estratégia americana assentava no princípio do risco calculado. Os meios não eram preciosos apenas pelo que podiam fazer hoje, mas pelo que poderiam fazer amanhã. Nimitz compreendia que a guerra é uma sucessão de batalhas e não um único confronto decisivo. Por isso, procurava preservar a capacidade de combate futura mesmo quando atacava com determinação.

Nagumo e Yamaguchi seguiram uma lógica diferente. Influenciados pela cultura militar japonesa da época, acreditavam que o dever supremo era continuar a lutar, independentemente das probabilidades. O conceito japonês do ganbatte — fazer o melhor possível até ao fim — possuía uma enorme dignidade moral. Contudo, quando transferido para a estratégia militar, podia conduzir a um paradoxo fatal: a nobreza do esforço substituindo-se à racionalidade do resultado.

A partir do momento em que Hiryū se tornou o único porta-aviões operacional japonês, a sua preservação deveria ter sido uma prioridade estratégica. Os seus aviões tinham alcance suficiente para atacar sem aproximar excessivamente o navio do inimigo. A prudência aconselhava uma retirada controlada para norte, mantendo a capacidade de combate e aguardando reforços. Em vez disso, Hiryū continuou a avançar na direção da força americana.

O resultado seria inevitável. Algumas horas depois, também ela seria encontrada e destruída.

Midway demonstra que as derrotas raramente resultam apenas da ação do inimigo. Muitas vezes nascem da incapacidade de adaptar o pensamento à nova realidade. O problema de Nagumo e Yamaguchi não foi falta de coragem. Pelo contrário, tiveram coragem em excesso e prudência a menos.

Por isso, a grande lição de Midway permanece atual muito para além do campo militar. Em política, nas empresas, nas instituições e até na vida pessoal, chega um momento em que a questão decisiva deixa de ser “como continuar a lutar?” para passar a ser “vale a pena continuar a lutar desta forma?”.

A sabedoria estratégica não consiste apenas em saber atacar. Consiste também em reconhecer quando a realidade mudou. Em Midway, os americanos compreenderam isso primeiro. Os japoneses compreenderam-no demasiado tarde. E foi nesse intervalo de poucas horas que se decidiu o destino do Império Japonês no Pacífico.

Francisco Vaz

4 de junho de 2026


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