E a aventura do conhecimento
A tendência contemporânea é associar a fé exclusivamente ao fenómeno religioso, reduzindo-a ao domínio das crenças espirituais. Contudo, uma análise mais rigorosa revela que a fé laica, ou seja, o acreditar humano, é uma condição prévia de toda a atividade racional. Antes mesmo de qualquer formulação teológica, a fé manifesta-se como confiança fundamental na inteligibilidade do real, na continuidade da existência e na validade do próprio pensamento.Na verdade, a razão não opera num vazio absoluto. Todo o raciocínio parte de pressupostos que não podem ser demonstrados sem que se caia numa regressão infinita. Quando nos deitamos à noite, acreditamos que despertaremos no dia seguinte como a mesma pessoa; acreditamos que a memória conservará a sua coerência; acreditamos que as leis da natureza continuarão a funcionar e que o mundo não se transformará radicalmente durante o sono. Nenhuma destas certezas pode ser provada antecipadamente. Elas assentam numa confiança racional que constitui uma forma elementar de fé.
É precisamente aqui que surge a questão da consciência. A consciência é o lugar privilegiado onde o ser humano experimenta simultaneamente a sua identidade e a sua continuidade. Ao acordar, não recomeçamos do zero; reconhecemo-nos como os mesmos que adormeceram na noite anterior. Essa experiência de permanência não é apenas psicológica; possui uma dimensão ontológica profunda. A consciência testemunha a unidade do ser ao longo do tempo, permitindo-nos afirmar que existe um “eu” que permanece apesar das mudanças físicas, emocionais e intelectuais.
Neste sentido, o acreditar, não se opõe à razão; pelo contrário, torna-a possível. A razão necessita de confiar na estabilidade da consciência, na fiabilidade da memória e na inteligibilidade do mundo para poder exercer a sua função crítica. Sem essa confiança originária, toda a construção racional desmoronar-se-ia. Duvidar de tudo, de forma absoluta, conduziria não ao conhecimento, mas à impossibilidade de conhecer.
A tradição filosófica, de Santo Agostinho a René Descartes, passando por Edmund Husserl, procurou compreender esta relação íntima entre consciência, certeza e existência. Todos reconheceram, de modos diferentes, que há uma experiência originária do ser que precede qualquer demonstração lógica.
Por isso, fé e razão devem ser entendidas como dimensões complementares da condição humana. A fé fornece o horizonte de confiança sem o qual a razão não pode iniciar o seu trabalho; a razão, por sua vez, examina, esclarece e ordena aquilo que a fé pressupõe. Entre ambas encontra-se a consciência, esse mistério quotidiano através do qual o ser humano toma conhecimento de si próprio e do mundo.
Talvez a verdadeira questão não seja saber se vivemos pela fé ou pela razão, mas reconhecer que toda a razão humana repousa sobre um ato primordial de confiança: a convicção de que o ser existe, de que a consciência permanece e de que o mundo pode ser compreendido. É nessa confiança originária que se funda toda a aventura do conhecimento humano.
Francisco Vaz
5 de junho de 2026
5 de junho de 2026
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