Da tragédia dos irmãos Sullivan à responsabilidade da pólis perante a vida humana
A guerra é, a mais radical manifestação da capacidade humana de negar aquilo que a própria humanidade tem de mais precioso: a vida. Enquanto a paz procura criar, unir e fazer florescer o ser, a guerra vive da destruição, da separação e da morte. É por isso que toda a guerra, mesmo quando necessária para enfrentar a tirania ou impedir um mal maior, transporta consigo uma dimensão trágica que jamais deve ser esquecida.
Poucos episódios ilustram melhor essa realidade do que a história dos cinco irmãos Sullivan: George, Francis, Joseph, Madison e Albert, naturais de Waterloo, Iowa. Após o ataque a Pearl Harbor e a morte de um amigo comum a bordo do couraçado Arizona, decidiram alistar-se juntos na Marinha dos Estados Unidos, impondo uma condição singular: serviriam lado a lado, acontecesse o que acontecesse.
A decisão não resultava de qualquer idealização romântica da guerra. Eram filhos da América profunda, marcada pelas dificuldades da Grande Depressão. Alguns já tinham servido na Marinha; outros trabalhavam em empregos modestos. Albert era casado e pai de um filho pequeno. Poderia ter permanecido em casa. Contudo, escolheu acompanhar os irmãos. Não queria que partissem sem ele.
Em novembro de 1942, durante a campanha de Guadalcanal, o cruzador USS Juneau foi atingido por um torpedo japonês. Sobreviveu inicialmente. Horas depois, quando se retirava para reparações, um segundo torpedo atingiu exatamente a zona já danificada. A explosão foi tão violenta que o navio desapareceu em menos de um minuto. Cerca de setecentos homens perderam a vida. Entre eles encontravam-se os cinco irmãos Sullivan. Alguns sobreviveram à explosão inicial, mas acabariam por sucumbir aos ferimentos, à sede, aos tubarões e ao abandono no mar. Nenhum regressou a casa.
A dimensão militar do acontecimento é relativamente simples de descrever. A dimensão humana, porém, é quase impossível de compreender. O que significa para uns pais perder cinco filhos? Não um, mas cinco. Não ao longo de décadas, mas praticamente ao mesmo tempo. Como medir o vazio deixado por cinco vidas que partilham a mesma origem, a mesma casa, os mesmos afetos e as mesmas memórias?
A ontologia ensina-nos que o ser humano não existe isoladamente. Somos seres de relação. Existimos através dos vínculos que criamos e cultivamos. Os pais não são apenas aqueles que geram e educam os filhos; prolongam neles o seu próprio ser. Cada filho representa uma possibilidade de futuro, uma extensão da sua esperança no mundo.
Quando a guerra elimina um filho, destrói uma vida. Quando elimina cinco, parece arrancar uma parte substancial da própria identidade dos pais. Não desaparecem apenas pessoas; desaparecem projetos, recordações, expectativas e fragmentos da própria alma. A guerra torna-se, assim, uma forma de aniquilação do ser que ultrapassa largamente a destruição física dos corpos.
Por isso, a guerra não mata apenas soldados. Mata partes invisíveis daqueles que permanecem vivos. Cada baixa militar corresponde a uma ferida aberta numa família. Cada nome gravado num monumento corresponde a lágrimas derramadas longe dos campos de batalha. A morte de um combatente não termina no momento do impacto de uma bala ou de um torpedo. Prolonga-se durante décadas nos corações daqueles que ficaram.
Sob uma perspetiva platónica, esta tragédia coloca uma questão fundamental. Se a finalidade da pólis é a realização do bem comum, então o Estado não pode considerar os seus cidadãos como meros instrumentos de uma estratégia. Os homens não existem para servir a máquina política; a política existe para servir os homens.
A verdadeira política não é a administração da força, mas a procura da justiça. E a justiça exige que cada pessoa seja reconhecida como um fim em si mesma. A tragédia dos Sullivan tornou esta verdade impossível de ignorar. A partir dela, a Marinha norte-americana alterou as suas políticas, procurando evitar que vários membros da mesma família servissem em circunstâncias que pudessem conduzir a uma perda simultânea. Foi o reconhecimento de que o bem comum não pode ser construído à custa da destruição completa de uma família.
Todavia, existe um paradoxo que importa reconhecer. Os irmãos Sullivan combateram uma causa justa. Lutaram contra regimes totalitários que ameaçavam a liberdade humana à escala planetária. A sua morte não foi inútil. A derrota do nazismo e do militarismo japonês constituiu uma condição necessária para a preservação da civilização democrática.
Mas precisamente porque a causa era justa, importa recordar o preço pago para a alcançar.
Existe uma tentação permanente de transformar a guerra em estatística. Fala-se de navios afundados, aviões abatidos, divisões destruídas e territórios conquistados. Desenham-se setas em mapas e elaboram-se gráficos de perdas. Contudo, por detrás de cada número existem sempre pais, esposas, maridos, filhos e amigos.
No caso dos Sullivan, existiam Thomas e Alleta Sullivan. Dois pais que viram desaparecer, numa única tragédia, os cinco filhos que tinham criado. A sua dor recorda-nos que nenhuma vitória militar, por mais necessária ou decisiva que seja, consegue apagar o sofrimento humano que a guerra inevitavelmente produz. Após conhecerem o destino dos filhos, continuaram a servir o seu país, percorrendo fábricas e estaleiros, incentivando o esforço de guerra. Transformaram a dor em dever, mas nem o dever conseguiu apagar a presença da ausência.
Talvez seja essa a grande lição dos irmãos Sullivan. A guerra pode, por vezes, ser necessária para impedir males ainda maiores. Mas nunca deve ser glorificada. Porque mesmo quando vence o mal, deixa atrás de si uma sucessão de ausências irreparáveis.
A verdadeira política, a política orientada para o bem, deve conservar sempre a memória desses pais. Deve recordar que a finalidade última do poder não é vencer guerras, mas criar as condições para que elas deixem de ser necessárias.
Porque cada vida salva representa uma vitória do ser sobre o nada, da esperança sobre a destruição e do amor sobre a morte.
Porque nenhuma vitória militar, por mais brilhante que seja, conseguirá alguma vez preencher o vazio deixado no coração de uns pais pelos filhos que não regressaram a casa.
Francisco Vaz
15 de junho de 2026
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