Quando a beleza e a coragem convergem
À primeira vista, pouco parece aproximar Chester W. Nimitz e Giuseppe Verdi. Um foi militar, estratega naval e comandante das forças do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial; o outro foi compositor, génio da ópera e um dos maiores nomes da cultura europeia. Um moveu-se no universo da guerra; o outro no universo da arte. Contudo, observados mais atentamente, ambos convergem num ponto essencial: fizeram da sua vida um serviço ao bem comum.
A juventude de ambos foi marcada pela experiência da perda. Nimitz sofreu profundamente com a morte do seu cunhado, que seguia para a Europa a caminho de um emprego numa companhia mineira na Sibéria quando pereceu no afundamento do Lusitania por um submarino alemão. Verdi conheceu uma dor ainda mais devastadora: perdeu os seus dois filhos, Virginia e Icilio, em 1838 e 1839, e viu falecer a sua esposa, Margherita Barezzi, em 1840. Em ambos os casos, a experiência do sofrimento poderia ter conduzido ao desespero ou ao ressentimento. Não conduziu. Pelo contrário, tornou-se ocasião de amadurecimento humano.
Os caminhos que seguiram foram distintos, mas orientados por uma mesma finalidade. Verdi serviu a humanidade através da beleza. A sua música elevou consciências, despertou emoções e ajudou um povo a reconhecer-se como comunidade histórica e cultural. O coro Va, pensiero de Nabucco tornou-se símbolo da esperança e da liberdade de uma Itália ainda fragmentada. A sua arte não foi mero entretenimento: foi uma forma de dignificação humana.
Nimitz, por sua vez, serviu a humanidade através da arte da estratégia. Num século marcado por tiranias particularmente destrutivas, assumiu a responsabilidade de combater regimes que ameaçavam a liberdade e a dignidade de milhões de pessoas. Não procurou a guerra por si mesma. Como tantos homens da sua geração, compreendeu que havia momentos em que a força se tornava necessária para impedir males ainda maiores. A sua liderança prudente, serena e profundamente humana contribuiu decisivamente para derrotar o militarismo japonês e para restaurar uma ordem internacional mais justa.
Há, porém, uma convergência ainda mais profunda. Nem Verdi nem Nimitz se deixaram aprisionar pelo sucesso pessoal. Ambos compreenderam que o valor de uma vida não se mede apenas pelas realizações individuais, mas pelo legado deixado aos outros.
Verdi investiu uma parte significativa da sua fortuna na construção da Casa di Riposo per Musicisti, em Milão. Considerava-a a sua obra mais importante. Quis assegurar que músicos idosos e sem recursos encontrassem ali um lar digno. Era uma forma de gratidão para com aqueles que, como ele, tinham dedicado a vida à música.
Também Nimitz, após a guerra, recusou transformar a vitória em instrumento de vingança. Participou ativamente nos esforços de reconciliação e reconstrução. Compreendia que a paz duradoura exige justiça, mas também generosidade. A verdadeira vitória não consiste em humilhar o adversário, mas em criar condições para que antigos inimigos possam voltar a viver em comunidade.
Sob perspetivas diferentes, ambos contribuíram para aumentar a humanidade da própria humanidade. Um através da força colocada ao serviço da paz; o outro através da beleza colocada ao serviço da elevação do espírito. Um combateu a tirania pela estratégia; o outro combateu a pobreza espiritual pela música. Ambos procuraram, cada um à sua maneira, ampliar o espaço da liberdade, da dignidade e do bem.
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