ou a que Mastro nos devemos Amarrar?
A pergunta é decisiva. Se Ulisses se amarrou ao mastro para resistir ao canto das sereias, a que mastro se deve amarrar o ser humano contemporâneo?
A resposta não é técnica, económica ou tecnológica. É ontológica. O mastro não pode ser uma ideologia, um partido, um líder, um mercado ou uma máquina, porque todas essas realidades pertencem ao domínio do contingente. O que hoje parece sólido amanhã pode desaparecer. Amarrar-se ao efémero é preparar o naufrágio.
O único mastro suficientemente firme é a própria dignidade da pessoa humana, fundamento de toda a ética e de toda a política verdadeiramente humana. É o reconhecimento de que cada ser humano possui um valor intrínseco que não depende da utilidade, da riqueza, da força, da raça, da nacionalidade, da idade ou da produtividade. Quando a pessoa deixa de ser o centro, tudo se torna negociável.
Foi precisamente quando as sociedades se desligaram desse mastro que surgiram as grandes tragédias do século XX. O nazismo subordinou a pessoa à raça. O comunismo subordinou-a à classe. Outros totalitarismos subordinaram-na ao Estado, ao partido ou à nação. O resultado foi sempre o mesmo: milhões de vítimas sacrificadas em nome de uma abstração.
Hoje, as sereias cantam melodias diferentes. Já não prometem necessariamente a pureza racial ou a sociedade sem classes. Prometem eficiência absoluta, felicidade instantânea, consumo ilimitado, poder tecnológico sem limites, inteligência artificial capaz de substituir o juízo humano e uma liberdade sem responsabilidade. Mas o perigo permanece idêntico: esquecer que o ser humano é fim e nunca mero instrumento.
Numa perspetiva inspirada por Louis Lavelle, poder-se-ia dizer que o mastro é o próprio ser participado. O ser humano não se cria a si mesmo; participa de uma realidade maior que o precede e o transcende. A consciência desta participação gera humildade. E a humildade é talvez a virtude mais escassa do nosso tempo. Quem se julga absoluto acaba inevitavelmente por querer dominar os outros.
Daqui decorre a dimensão ética. O mastro é a consciência do bem. Não um bem arbitrariamente definido por cada indivíduo, mas aquele bem que se manifesta no respeito pela verdade, pela justiça, pela solidariedade e pela responsabilidade. A ética constitui a corda que nos prende ao mastro; sem ela, mesmo conhecendo o caminho, acabaremos por seguir o canto das sereias.
E daqui decorre também a dimensão política. Se a política é o encontro das diferentes entidades éticas, ela necessita de um ponto fixo que permita o diálogo. Esse ponto não pode ser a unanimidade das opiniões, impossível entre seres livres, mas a comum dignidade da pessoa humana. Sem esse fundamento, a política converte-se numa luta de vontades onde vence o mais forte, o mais rico ou o mais manipulador.
Talvez, porém, a imagem possa ser levada ainda mais longe. Para a tradição cristã, o mastro de Ulisses encontra a sua expressão máxima na Cruz. Não como símbolo de derrota, mas como sinal de uma verdade paradoxal: a força que salva não é a do domínio, mas a do serviço; não é a da imposição, mas a do amor; não é a da violência, mas a da entrega. É um mastro plantado na história que continua a recordar à humanidade que o valor supremo não é o poder, mas a pessoa.
Entre Cila e Caríbdis, entre as sereias do poder e as tempestades da história, o ser humano continuará sempre a necessitar de um mastro. A questão não é saber se estaremos presos a alguma coisa. A questão é escolher cuidadosamente aquilo a que decidimos prender a nossa liberdade. Porque, no fim, não são as amarras que nos escravizam. São elas que, muitas vezes, nos impedem de nos perdermos.
Francisco Vaz
9 de junho de 2026
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