Pecado original

Pecado original

domingo, 7 de junho de 2026

A Propósito do 82.º Aniversário da Operação Overlord

Normandia, Marianas e o Poder no Mar

As comemorações do Dia D constituem muito mais do que um exercício de memória histórica. A cada ano, as praias da Normandia transformam-se num palco onde o passado é convocado para iluminar os desafios do presente. O Dia D nunca é apenas uma evocação da maior operação anfíbia da História; é também uma declaração sobre a forma como cada geração compreende a liberdade, a segurança e o papel das democracias no mundo.

O discurso de Dwight D. Eisenhower, embora anterior às grandes comemorações modernas, permanece a referência fundadora. Na célebre Ordem do Dia dirigida aos homens que desembarcariam na Normandia, o foco estava na missão: derrotar a tirania nazi e restaurar a liberdade na Europa. Era um discurso de dever, sacrifício e responsabilidade moral. Não havia triunfalismo; havia a consciência da enorme incerteza da operação e da gravidade do momento.

Quarenta anos depois, em 1984, Ronald Reagan pronunciou em Pointe du Hoc um dos mais marcantes discursos políticos do século XX. Diante dos sobreviventes que tinham escalado aquelas falésias sob fogo inimigo, Reagan transformou o Dia D numa celebração da liberdade ocidental. O contexto era o da Guerra Fria. A União Soviética continuava a representar o principal adversário estratégico do Ocidente, e a mensagem implícita era clara: a mesma determinação que derrotara Hitler deveria continuar a defender o mundo livre contra qualquer forma de tirania.

Em 2024, por ocasião do 80.º aniversário, Joe Biden retomou muitos dos temas de Reagan, mas adaptando-os ao contexto da guerra na Ucrânia. O seu discurso insistiu na importância das alianças transatlânticas e na necessidade de resistir à agressão russa. Para Biden, a principal lição da Normandia era a de que as democracias apenas sobrevivem quando permanecem unidas perante ameaças comuns.

As comemorações deste ano revelaram uma interpretação diferente desse legado. No discurso de hoje, Pete Hegseth homenageou o sacrifício dos combatentes de 1944, mas utilizou também a ocasião para refletir sobre desafios contemporâneos. Ao afirmar que “outras praias da Europa estão hoje a ser assaltadas por ideologias perigosas”, numa referência aos fluxos migratórios e às questões de identidade cultural e segurança, Hegseth deslocou o centro da reflexão da defesa das alianças para a defesa da soberania, do controlo das fronteiras e da preservação daquilo que considera serem os fundamentos da civilização ocidental. A controvérsia que se seguiu demonstra, precisamente, como a memória da Normandia continua viva e politicamente relevante. O Dia D permanece um símbolo poderoso, mas o significado desse símbolo é permanentemente reinterpretado à luz das preocupações de cada época.

Todos estes discursos partilham uma mesma convicção: a liberdade exige sacrifício. Divergem, porém, na identificação das ameaças e das prioridades estratégicas. Para Eisenhower, era o nazismo; para Reagan, o expansionismo soviético; para Biden, a defesa da ordem internacional liberal perante o revisionismo autoritário; para Hegseth, um mundo multipolar marcado por desafios à soberania nacional, à identidade cultural e à capacidade dissuasora do Ocidente.

Há, contudo, uma dimensão frequentemente esquecida nestas reflexões. A Normandia tornou-se um mito fundador do Ocidente contemporâneo, mas a sua memória tende a concentrar-se quase exclusivamente na coragem dos homens que desembarcaram nas praias francesas. Essa coragem foi decisiva, mas não explica, por si só, a vitória.

Para um historiador, esta evolução é particularmente relevante. Em 1944, a Operação Overlord constituiu uma das mais impressionantes demonstrações do poder naval aliado, a par da Operação Forager, a grande ofensiva anfíbia lançada no Pacífico com o desembarque em Saipan, a 15 de junho de 1944, destinada à conquista das Ilhas Marianas e à expulsão das forças japonesas de um arquipélago cuja importância estratégica era decisiva para o desfecho da guerra. Em ambos os casos, o sucesso das operações assentou na conjugação do controlo do mar, da supremacia aérea, da capacidade logística e da projeção de força a partir do mar, demonstrando que o poder naval não é apenas um instrumento militar, mas uma condição essencial para a realização dos grandes objetivos políticos e estratégicos das nações.

Se a Normandia abriu o caminho para a libertação da Europa, as Marianas colocaram o Japão ao alcance dos bombardeiros estratégicos americanos, acelerando o colapso do Império Japonês. Juntas, estas operações representam o auge da arte operacional anfíbia e da aplicação do poder naval no século XX. A coragem dos homens que desembarcaram sob fogo inimigo só produziu efeitos decisivos porque foi sustentada por uma colossal infraestrutura naval, aérea, industrial e logística construída ao longo de anos.

É precisamente esta dimensão que muitas vezes se perde nas cerimónias comemorativas. Recordam-se os homens — e justamente —, mas esquece-se por vezes a estrutura de poder que permitiu transformar a coragem em vitória. A Normandia e as Marianas demonstraram que a liberdade não depende apenas de ideais nobres; depende também da capacidade das sociedades para organizar recursos, construir alianças, dominar tecnologias e sustentar esforços prolongados perante ameaças existenciais.

Talvez essa seja a principal lição que permanece oitenta e dois anos depois. As democracias podem desejar a paz, mas apenas conseguem preservá-la quando possuem a vontade política, a capacidade industrial, a coesão social e os instrumentos militares necessários para a defender. Como observava Alfred Thayer Mahan, o poder no mar não é apenas um instrumento de guerra; é o fundamento invisível da prosperidade, da segurança e da liberdade das nações.

Em certo sentido, a Normandia e as Marianas continuam a falar ao presente. Não apenas como memórias gloriosas de um passado distante, mas como advertências permanentes de que a liberdade tem um preço e de que a sua preservação exige, simultaneamente, coragem moral, visão política e poder estratégico. É por isso que as praias da Normandia continuam a ser visitadas por estadistas, militares e cidadãos comuns: porque nelas não se recorda apenas o que aconteceu em 1944; procura-se compreender o que continua a estar em jogo no século XXI.

Francisco Vaz

6 de junho de 2026

1 comentário: