a guerra como memória, verdade e condição humana
A guerra nos filmes suscita uma questão interessante: será possível representá-la de forma realista sem que essa representação seja, inevitavelmente, uma denúncia da própria guerra?
Filmes como Saving Private Ryan, de Steven Spielberg, All Quiet on the Western Front, de Edward Berger, ou Napoleon, de Ridley Scott, são frequentemente classificados como "anti-guerra". O mesmo acontece com Warfare, de Alex Garland e Ray Mendoza. A razão parece evidente: quando a câmara mostra a guerra tal como ela é — sangue, medo, sofrimento, mutilação, caos e morte — o espectador sente repulsa. A guerra deixa de ser uma abstração heroica para se tornar uma experiência humana profundamente trágica.
Mas talvez esta classificação seja simplista.
A verdadeira questão não é saber se estes filmes são anti-guerra. A questão é saber se são anti-ilusão. O que eles combatem não é necessariamente a guerra enquanto fenómeno histórico ou político, mas a romantização da guerra. A distância entre a guerra real e a guerra imaginada é enorme. Na imaginação, a batalha é feita de glória, coragem e bandeiras ao vento. Na realidade, é feita de medo, confusão, dor e perda.
Esta distinção torna-se ainda mais evidente quando observamos a influência do historiador Stephen E. Ambrose na forma como o cinema e a televisão passaram a retratar os conflitos do século XX. Ambrose dedicou grande parte da sua obra a recuperar a voz dos combatentes comuns, dos homens que viveram os acontecimentos longe dos gabinetes dos políticos e dos quartéis-generais dos generais. A sua História é uma história de rostos, de memórias e de experiências humanas.
Foi precisamente esta perspetiva que inspirou Steven Spielberg e Tom Hanks na criação de algumas das mais marcantes séries de guerra da televisão contemporânea. Em Band of Brothers, baseada na obra homónima de Ambrose, acompanhamos os homens da Easy Company desde o treino inicial até à vitória final sobre a Alemanha nazi. Em The Pacific, a guerra assume contornos ainda mais brutais, revelando a violência extrema dos combates travados nas ilhas do Pacífico. Mais recentemente, Masters of the Air transporta-nos para os céus da Europa ocupada, mostrando o elevado preço pago pelas tripulações dos bombardeiros estratégicos americanos.
Nenhuma destas obras procura esconder o horror da guerra. Pelo contrário, expõe-no em toda a sua crueza. Contudo, todas elas revelam simultaneamente algo mais profundo: a coragem, a amizade, o espírito de sacrifício, a lealdade e a capacidade humana de resistir perante circunstâncias extremas. O resultado não é uma mensagem anti-guerra, mas uma mensagem profundamente humanista.
A guerra é um mal. Mas a resposta ao mal pode revelar o melhor e o pior que existe no ser humano.
Talvez por isso estas produções tenham marcado gerações de espectadores. Elas mostram que o heroísmo não consiste na procura da violência, mas na capacidade de continuar a cumprir o dever apesar do medo. Os seus protagonistas não são super-heróis. São homens comuns colocados perante desafios extraordinários.
A história demonstra, aliás, que a guerra faz parte da condição humana desde os primórdios da civilização. Desde a Ilíada de Homero até às campanhas de Alexandre, de Roma, de Napoleão ou das guerras mundiais, a humanidade recorreu frequentemente à força para defender princípios, territórios ou simplesmente para sobreviver. Negar esta realidade seria tão ingénuo como glorificá-la.
O paradoxo é que muitos dos filmes considerados anti-guerra são também filmes que exaltam virtudes profundamente humanas. Em Saving Private Ryan, encontramos a coragem, a camaradagem, o sacrifício e o sentido de dever. Em Band of Brothers, vemos jovens cidadãos transformados em soldados e soldados transformados em irmãos. Em The Pacific, percebemos como a guerra pode ferir o corpo e a alma, mas também como o ser humano conserva a capacidade de manter a sua dignidade no meio do sofrimento. Em Warfare, os Navy SEALs não lutam por prazer ou por ódio; lutam para proteger os seus companheiros e regressar vivos.
A guerra surge como um inferno, mas a dignidade humana emerge precisamente no meio desse inferno.
Talvez por isso Chester W. Nimitz tenha compreendido que a paz não é um estado natural, mas uma conquista permanente. A história demonstra que, por vezes, para preservar a liberdade e a dignidade humana, foi necessário enfrentar a tirania pela força. A derrota do nazismo e do militarismo japonês não foi alcançada por discursos ou boas intenções, mas pelo sacrifício de milhões de homens e mulheres que aceitaram suportar o peso da guerra para impedir um mal ainda maior.
É aqui que o cinema de guerra encontra a sua mais elevada função ética. Não glorifica a violência. Não celebra a destruição. Não transforma a guerra em espetáculo. Antes preserva a memória. Recorda-nos simultaneamente duas verdades que a humanidade tende a esquecer: que a guerra é uma tragédia e que, em certas circunstâncias, a recusa de enfrentar a tirania pode conduzir a tragédias ainda maiores.
Existe, assim, uma linha contínua que une Saving Private Ryan, Band of Brothers, The Pacific, Masters of the Air e Warfare. Todas estas obras partem da mesma convicção: a guerra deve ser mostrada tal como foi vivida. Não para glorificar a violência, mas para honrar a verdade.
Porque esquecer o horror da guerra pode conduzir à sua repetição. Mas esquecer a coragem daqueles que lutaram pela liberdade seria uma injustiça histórica igualmente grave.
Os melhores filmes e séries de guerra não são, afinal, nem pró-guerra nem anti-guerra. São pró-verdade. E é precisamente nessa procura da verdade que reside a sua maior grandeza.
Francisco Vaz
12 de junho de 2026
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