uma reflexão ontológica, ética e política
O mal não é uma realidade concorrente do ser; é a diminuição da participação no ser.
Louis Lavelle
O mal é um dos temas mais persistentes e inquietantes da história do pensamento humano. Desde os primeiros mitos até às mais sofisticadas construções filosóficas e teológicas, a humanidade tem procurado compreender a origem do sofrimento, da injustiça e da violência. Porém, a questão fundamental permanece: será o mal uma realidade dotada de existência própria ou, pelo contrário, uma ausência, uma privação do bem que não possui substância em si mesma?
A resposta a esta pergunta não é apenas teórica. Dela dependem a forma como compreendemos a liberdade humana, a responsabilidade moral, a organização política e até o sentido da esperança. Se o mal fosse uma realidade autónoma e absoluta, estaríamos perante um universo dividido entre dois princípios rivais. Se, pelo contrário, o mal for uma privação do bem, então a própria estrutura da realidade permanece orientada para o ser, para a verdade e para a plenitude.
Esta segunda perspetiva atravessa uma longa tradição filosófica e teológica. Em diferentes registos, autores como Américo Pereira, Louis Lavelle, Hannah Arendt, Michel Henry e Étienne Borne convergem na recusa de considerar o mal como uma substância positiva. O mal não é uma coisa. Não é um ser. Não é uma força criadora. É antes uma deficiência, uma limitação ou uma corrupção daquilo que deveria realizar-se plenamente.
Na tradição teológica cristã, o mal é frequentemente entendido como ausência do bem devido. Tal como a cegueira pressupõe a visão ou a doença pressupõe a saúde, também o mal pressupõe sempre um bem anterior cuja integridade foi diminuída ou destruída. Não possui existência independente; manifesta-se como privação.
Américo Pereira desenvolve esta intuição numa perspetiva metafísica. O mal surge associado à fragilidade ontológica dos seres finitos. Quanto mais limitada for a participação de um ser na plenitude do ser, maior será a possibilidade de surgirem formas de carência, insuficiência ou privação. O mal não é algo que exista por si mesmo; é antes o sinal de uma participação incompleta na realidade do ser.
Também Louis Lavelle, na sua filosofia do Acto, compreende o ser como participação contínua no Acto absoluto. A existência realiza-se na medida em que participa dessa fonte originária. O mal surge precisamente onde essa participação se enfraquece ou falha. Não é uma realidade rival do ser, mas uma deficiência da sua realização.
A reflexão de Hannah Arendt acrescenta uma dimensão decisiva para a compreensão contemporânea do problema. Ao analisar o comportamento de Adolf Eichmann durante o regime nazi, Arendt concluiu que o mal nem sempre se apresenta sob formas demoníacas ou extraordinárias. Muitas vezes manifesta-se através da incapacidade de pensar, da submissão acrítica à autoridade e da renúncia à responsabilidade pessoal. A sua célebre expressão “banalidade do mal” recorda-nos que algumas das maiores tragédias da história não nasceram de monstros, mas de seres humanos comuns que deixaram de refletir sobre o significado dos seus atos.
Michel Henry aborda a questão a partir da fenomenologia da vida. Para ele, o mal corresponde à negação da vida interior, da subjetividade e da capacidade de cada pessoa experimentar plenamente a sua própria existência. Sempre que o ser humano é reduzido a objeto, instrumento ou número, abre-se caminho para formas de alienação e violência que atentam contra a própria essência da vida.
Entre os autores que mais profundamente se dedicaram ao tema encontra-se Étienne Borne. Na sua análise, o mal não pode ser reduzido a uma explicação simplista. Embora não possua substância própria, manifesta-se de forma suficientemente real para marcar profundamente a existência humana. O problema do mal situa-se precisamente na tensão entre a sua insubstancialidade ontológica e os seus efeitos concretos na história.
A questão torna-se ainda mais clara quando refletimos sobre a própria ideia de absoluto. Se o bem é concebido como fundamento último da realidade — seja como Deus na tradição judaico-cristã, como o Sol da alegoria platónica, como o Apeiron dos pré-socráticos ou como o Acto absoluto de Lavelle — então o mal não pode constituir um segundo absoluto. Dois absolutos limitar-se-iam mutuamente e deixariam, por isso mesmo, de ser absolutos.
Esta foi uma das grandes intuições de Santo Agostinho ao abandonar o maniqueísmo. A crença em dois princípios eternos e opostos, um do bem e outro do mal, revelou-se filosoficamente inconsistente. O mal não podia possuir substância própria. Era uma privatio boni, uma privação do bem.
A própria experiência confirma esta intuição. O mal nunca cria realidade; destrói-a. Nunca funda; corrói. Nunca gera ser; reduz a sua plenitude. A mentira depende da verdade que procura ocultar. A injustiça depende da justiça que viola. O ódio depende do amor que perverte. A guerra depende da paz que destrói. O mal vive sempre à custa do bem que procura negar.
Todavia, reconhecer a insubstancialidade do mal não significa minimizar a sua gravidade. Auschwitz existiu. O Gulag existiu. O Holodomor existiu. O genocídio do Ruanda existiu. O terrorismo existe. A guerra existe. O sofrimento existe. Mas mesmo nestas manifestações extremas o mal revela a sua dependência ontológica: destrói a vida, mas não a cria; aniquila a dignidade, mas não a funda; obscurece a verdade, mas não a produz. O mal é real nos seus efeitos, mas insubstancial na sua natureza.
Daqui decorre uma consequência ética fundamental. Se o mal é privação, então a ação moral consiste antes de mais em promover a presença do bem. A ética deixa de ser apenas um conjunto de proibições para se tornar participação ativa na realização da plenitude humana. Cada ato de justiça, de verdade, de solidariedade ou de amor contribui para diminuir os espaços onde o mal pode manifestar-se.
Mas a ação humana não permanece confinada à esfera individual. Quando a liberdade de cada pessoa encontra a liberdade dos outros, nasce o domínio da política. Entendida no seu sentido mais elevado, a política não é mera disputa pelo poder nem simples gestão de interesses. É o espaço onde diferentes éticas se encontram e procuram construir condições comuns de convivência orientadas para o bem comum.
Nesta perspetiva, a política adquire uma dimensão profundamente ética. As instituições, as leis e as práticas sociais devem criar condições que favoreçam a justiça, a liberdade, a verdade e a dignidade humana. Quanto mais robustas forem estas condições, menores serão os espaços onde a insubstância do mal poderá manifestar-se sob a forma de violência, exclusão ou tirania.
Esta conclusão possui uma relevância particular no nosso tempo. Vivemos numa época em que os discursos políticos e mediáticos tendem frequentemente a transformar adversários em encarnações absolutas do mal, reduzindo a complexidade humana a uma visão maniqueísta do mundo. Contudo, se o mal não é uma substância autónoma, então não habita exclusivamente determinados povos, partidos, religiões ou indivíduos. O mal manifesta-se sempre que o ser humano abdica da verdade, da responsabilidade e da participação consciente no bem. É precisamente essa a advertência de Hannah Arendt: a banalidade do mal nasce frequentemente da ausência de pensamento e da renúncia ao juízo moral.
A esperança nasce precisamente desta compreensão. O mal não possui a última palavra porque não possui consistência própria. A sua existência depende sempre daquilo que procura negar. O ser precede o não-ser; o bem precede a sua privação. Por isso, apesar das tragédias da história e das fragilidades da condição humana, permanece aberta a possibilidade da regeneração, da reconciliação e do aperfeiçoamento.
Talvez seja esta a lição mais profunda que podemos retirar da reflexão sobre a insubstância do mal. O mal pode obscurecer o bem, ferir a justiça e causar sofrimento, mas não possui poder criador. Vive sempre daquilo que procura negar. O bem, pelo contrário, participa da própria fonte do ser e, por isso, permanece capaz de gerar verdade, liberdade, beleza e esperança. Em última análise, o bem é criador porque participa do Acto; o mal é estéril porque apenas limita essa participação.
Francisco Vaz
11 de junho de 2026
Sem comentários:
Enviar um comentário