e a Arte da Liderança em Tempos de Derrota
“Well, I think Admiral Nimitz' greatest quality was his sense of leadership coupled with his innate ability to read a man's character, his kindliness towards his shipmates, and finally his patience in the face of adversity. The Admiral needed all these tools to pull the Fleet out of the low state that he found it when he arrived at Pearl Harbor on Christmas morning 1941.”
Interview with Rear Admiral William Waldo Drake, USNR (Ret.) By Etta-Belle Kitchen
Date: 15 June 1969 Place: 37 S . L a Seuda, California
O testemunho de Drake é particularmente relevante porque descreve o primeiro contacto da Frota do Pacífico com Chester Nimitz após o desastre de Pearl Harbor. Mais do que um simples episódio de transição de comando, revela as qualidades que fizeram de Nimitz um dos maiores líderes militares do século XX.
O que impressiona não é apenas a serenidade de Nimitz, mas a forma como compreendeu a dimensão humana da crise. Quando chegou a Pearl Harbor na manhã de Natal de 1941, encontrou uma esquadra traumatizada, uma cadeia de comando abalada e uma nação que acabara de sofrer a maior derrota naval da sua história. Em momentos semelhantes, muitos comandantes poderiam ter procurado culpados ou iniciado uma profunda reorganização para afirmar autoridade. Nimitz fez exatamente o contrário.
Ao reunir o estado-maior na antiga sala de trabalho do Almirante Kimmel, transmitiu imediatamente confiança. O facto de ter referido que apoiara a nomeação do Vice-Almirante William S. Pye para o cargo demonstrava humildade e ausência de ambição pessoal. Ao afirmar que não haveria mudanças no estado-maior e que tinha plena confiança nos seus subordinados, estava a enviar uma mensagem fundamental: a derrota não era consequência da incompetência daqueles homens, mas de circunstâncias extraordinárias de guerra.
Esta atitude revela uma das suas maiores virtudes: a capacidade de restaurar a confiança antes de restaurar o poder militar. Nimitz compreendia que navios podiam ser construídos e aviões substituídos, mas a confiança perdida numa organização era muito mais difícil de recuperar.
O testemunho também confirma outro traço característico do seu comando: a paciência estratégica associada a uma visão ofensiva. Embora os Estados Unidos enfrentassem uma enorme escassez de meios e tivessem pela frente as vastidões do Pacífico, Nimitz recusou qualquer postura defensiva passiva. Desde os primeiros dias procurou convencer os seus comandantes de que a única forma de vencer seria recuperar a iniciativa. Esta ideia tornar-se-ia o fundamento de toda a campanha do Pacífico, desde as incursões iniciais dos porta-aviões até à vitória na Batalha de Midway apenas seis meses depois.
Sob o ponto de vista da liderança, este episódio ilustra um princípio frequentemente esquecido: os grandes chefes não lideram apenas através de ordens, mas sobretudo através da criação de confiança. Nimitz não inspirou a esquadra com discursos grandiosos ou gestos teatrais. Fê-lo pela calma, pela modéstia, pela capacidade de ouvir e pela convicção serena de que a vitória era possível.
Talvez por isso, quando Drake afirma que Nimitz convenceu todos “em poucos minutos” da sua capacidade para os conduzir para fora do deserto, esteja a descrever algo raro na história militar: o momento em que uma organização derrotada encontrou não apenas um comandante, mas um verdadeiro líder.
Como o próprio Chester W. Nimitz viria a demonstrar ao longo da guerra, a liderança não consiste em impor confiança aos outros; consiste em inspirá-la. E foi precisamente isso que aconteceu naquela manhã de Natal de 1941, em Pearl Harbor.
Francisco Vaz
4 de junho de 2026
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