Pecado original

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sábado, 22 de agosto de 2026

Juan Ambrósio e o pontificado do cuidado

O legado do Papa Francisco como caminho ainda por cumprir

Ao refletir sobre o pontificado do Papa Francisco, Juan Ambrósio evita duas tentações frequentes: a de reduzir o Papa a uma figura mediática, feita de gestos simpáticos e frases memoráveis, e a de interpretar os seus doze anos à frente da Igreja apenas a partir das polémicas que suscitaram. Para o teólogo português, Francisco deve ser compreendido através da coerência profunda que liga os seus gestos, palavras, documentos e decisões pastorais.

Essa coerência pode resumir-se numa palavra: cuidado.

Na conferência realizada no Centro Comercial da Portela, disponível no YouTube, Juan Ambrósio apresentou o pontificado de Francisco não como um conjunto disperso de iniciativas, mas como uma visão articulada da Igreja, do ser humano e do mundo. É essa leitura que desenvolve também noutros textos e intervenções, chegando a propor a expressão «ecossistema de Francisco».

Um ecossistema é uma realidade na qual tudo se encontra relacionado. Nenhum elemento pode ser verdadeiramente compreendido de forma isolada. Assim acontece com o pensamento do Papa Francisco: a evangelização, a atenção aos pobres, o cuidado da criação, a fraternidade, a paz, a sinodalidade e a reforma da Igreja não são temas independentes. Pertencem a uma mesma maneira de compreender e viver o Evangelho.

Juan Ambrósio identifica três grandes documentos como pilares desse ecossistema: a Evangelii gaudium, a Laudato si’ e a Fratelli tutti. Correspondem, respetivamente, ao cuidado da Igreja, ao cuidado da casa comum e ao cuidado da humanidade. Não constituem três programas separados, mas três dimensões da mesma conversão cristã. Juan Ambrósio, «Notas para uma leitura do Ecossistema de Francisco»

Uma Igreja que parte das periferias

A Evangelii gaudium contém o programa fundamental do pontificado: a transformação de uma Igreja autorreferencial numa «Igreja em saída». Não se trata apenas de sair dos templos para realizar algumas atividades missionárias. Trata-se de uma mudança mais profunda na maneira de pensar a própria Igreja.

Juan Ambrósio chama a atenção para um dos aspetos mais exigentes deste pensamento. Normalmente, definimos a periferia a partir do centro: periférico é aquilo que está afastado do lugar principal. Francisco convida-nos a inverter esta perspetiva. A Igreja deve começar a olhar para o centro a partir das periferias.

Isso significa que os pobres, os migrantes, os doentes, os idosos, os presos, as famílias feridas e todos aqueles que vivem à margem não são apenas destinatários da ação caritativa da Igreja. São lugares a partir dos quais a Igreja pode escutar novamente o Evangelho e compreender melhor a sua própria missão.

A periferia deixa de ser somente o lugar ao qual a Igreja vai. Torna-se também o lugar a partir do qual a Igreja aprende a olhar.

Esta inversão explica muitas das resistências encontradas por Francisco. É relativamente fácil ajudar os pobres a partir do centro; muito mais difícil é aceitar que os pobres possam questionar o próprio centro. É mais cómodo praticar a beneficência do que permitir que o sofrimento dos outros transforme as nossas instituições, prioridades e estilos de vida.

O cuidado como categoria teológica

Juan Ambrósio considera que o pontificado de Francisco foi marcado pela «proximidade e presença», entendidas como formas concretas do cuidado. A missão de Pedro, nesta perspetiva, consiste em cuidar da Igreja, cuidar da casa comum e cuidar do ser humano — todos os dias e em todas as circunstâncias. Agência Ecclesia

O cuidado não é aqui uma atitude meramente sentimental. Possui densidade teológica. Cuidar significa reconhecer que a vida humana é recebida, frágil e dependente. Ninguém existe sozinho. A vida de cada um é sustentada pela vida dos outros, pelas comunidades a que pertence e pela criação que o acolhe.

Esta consciência combate uma das grandes ilusões do nosso tempo: a ideia de que o indivíduo é inteiramente autónomo, senhor absoluto de si mesmo e do mundo. Francisco recordou-nos, sobretudo durante a pandemia, que ninguém se salva sozinho. A fragilidade não é um acidente que ocasionalmente perturba a existência; faz parte da própria condição humana.

Cuidar é, por isso, mais do que proteger. É reconhecer a interdependência que nos constitui.

A Laudato si’: tudo está ligado

Na leitura de Juan Ambrósio, a Laudato si’ ocupa um lugar central no pontificado. A sua novidade não consiste apenas em introduzir a questão ambiental no magistério pontifício. Consiste sobretudo em propor uma ecologia integral.

A crise ecológica não pode ser separada das crises social, económica, cultural e espiritual. A destruição da natureza e o abandono dos pobres nascem frequentemente da mesma lógica: uma cultura do descarte que avalia tudo segundo a utilidade, a produtividade e o lucro.

A expressão «casa comum» indica que a Terra não é simplesmente uma reserva de recursos à nossa disposição. É o lugar da nossa existência partilhada, recebido como dom e confiado à nossa responsabilidade. Para Juan Ambrósio, o cuidado da casa comum torna-se mesmo um «lugar teológico»: um lugar onde pode acontecer o encontro com o mistério de Deus.

Consequentemente, a conversão ecológica não é um complemento facultativo da fé. A maneira como cuidamos — ou deixamos de cuidar — da criação torna-se um critério para avaliar a verdade da nossa opção cristã. Agência Ecclesia

Não se pode amar o Criador desprezando a criação, nem defender a dignidade humana enquanto se destroem as condições que tornam possível a vida.

A fraternidade como alternativa histórica

A Fratelli tutti amplia esta visão e coloca a fraternidade no centro da organização social e política. Francisco não apresenta a fraternidade como um sentimento vago de simpatia universal. Apresenta-a como uma alternativa à indiferença, ao individualismo, à polarização e à lógica permanente do inimigo.

Juan Ambrósio insiste que a comunidade cristã não existe para si própria. Existe ao serviço de um novo projeto de humanidade. Por isso, a Igreja não pode limitar-se a conservar as suas estruturas nem a proteger a sua presença social. Deve contribuir para construir uma sociedade em que ninguém seja considerado descartável.

Neste ponto, o pensamento de Francisco aproxima-se profundamente do Pensamento Social Cristão: a fé não pode permanecer fechada na consciência individual. Tem necessariamente consequências na economia, no trabalho, na política, na cultura e na forma como tratamos os mais vulneráveis.

A fraternidade é a tradução social do mandamento do amor.

Sinodalidade: mais do que um método

Outro elemento decisivo da leitura de Juan Ambrósio é a sinodalidade. Esta não deve ser confundida com uma técnica de organização de reuniões, nem com uma espécie de parlamentarização da Igreja. É uma maneira de ser Igreja.

Uma Igreja sinodal escuta antes de decidir, discerne antes de impor e reconhece que o Espírito Santo não fala apenas através dos centros institucionais. Fala também através da experiência do Povo de Deus, das comunidades, das famílias e daqueles que habitualmente não encontram espaço para fazer ouvir a sua voz.

A sinodalidade não elimina a autoridade. Obriga-a, porém, a regressar à sua raiz evangélica: autoridade como serviço, capacidade de escuta e responsabilidade pela comunhão. O poder deixa de ser entendido como domínio e passa a ser vivido como cuidado.

Talvez tenha sido esta uma das transformações mais profundas pretendidas por Francisco — e também uma das mais difíceis de concretizar. Alterar estruturas é difícil; transformar culturas e mentalidades é ainda mais difícil. Um sínodo pode terminar, mas a aprendizagem sinodal permanece necessariamente inacabada.

Um pontificado de processos

Francisco repetia que o tempo é superior ao espaço. Juan Ambrósio ajuda-nos a compreender o alcance desta afirmação: o Papa não procurou apenas ocupar posições ou obter resultados imediatos; procurou desencadear processos.

Muitos desses processos ficaram incompletos. A reforma da Cúria, a participação das mulheres, o combate aos abusos, a descentralização, o diálogo com as famílias feridas, a conversão ecológica e a prática efetiva da sinodalidade permanecem desafios abertos.

Mas um pontificado não deve ser avaliado apenas pelo número de problemas que resolveu. Deve também ser julgado pelas perguntas que deixou à Igreja e pelos caminhos que tornou possíveis.

Francisco não resolveu todas as tensões. Em certos momentos, a sua linguagem espontânea produziu ambiguidades e algumas expectativas excederam aquilo que efetivamente podia ou pretendia realizar. Porém, a fecundidade do seu pontificado talvez resida precisamente no facto de ter retirado muitas questões das margens e as ter colocado no centro da consciência eclesial.

A ternura como forma de força

Na reflexão de Juan Ambrósio existe, finalmente, uma gratidão pessoal. Gratidão pela humildade, pela audácia evangélica, pela esperança depositada nas periferias, pelo discernimento, pela confiança nos jovens e nas famílias, pelo amor à criação e pelo rosto misericordioso dado à fé.

A ternura, tão presente no vocabulário de Francisco, não significa fraqueza. É a força de quem se aproxima sem dominar, toca sem possuir e acompanha sem condenar antecipadamente. Num mundo fascinado pelo poder, pela velocidade e pela eficácia, a ternura torna-se uma forma de resistência espiritual.

O grande legado de Francisco talvez não seja uma teoria inteiramente nova, mas uma nova maneira de articular dimensões antigas e essenciais do cristianismo: Evangelho, misericórdia, justiça, fraternidade, criação e participação. Tudo está ligado porque toda a realidade é sustentada pelo mesmo amor criador.

Juan Ambrósio ajuda-nos, assim, a compreender que o pontificado terminou, mas o caminho permanece aberto. O «ecossistema de Francisco» não é um monumento destinado à contemplação nostálgica. É uma responsabilidade confiada à Igreja.

A melhor homenagem ao Papa Francisco não será repetir as suas frases, mas continuar os processos que iniciou: sair, escutar, discernir, cuidar e construir fraternidade. Porque o verdadeiro legado de um pontificado não se mede apenas pelo que ficou escrito nos documentos. Mede-se pela transformação que esses documentos conseguem realizar na vida dos cristãos, da Igreja e do mundo.

Francisco Vaz

22 de agosto de 2026

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