Pecado original

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sábado, 22 de agosto de 2026

Quando os justos morrem

A tragédia na A1 e o sentido cristão da esperança

A morte trágica de dois jovens militares na A1, quando regressavam depois de terem cumprido o seu dever, coloca-nos perante uma das perguntas mais antigas e difíceis da humanidade: porque morrem aqueles que praticam o bem?

É também a pergunta do Livro de Job.

Job era um homem justo e, apesar disso, perdeu os bens, os filhos e a saúde. Os seus amigos procuraram uma explicação simples: se sofre, alguma coisa terá feito para merecer o sofrimento. Mas Job recusa essa aritmética moral. A Bíblia ensina-nos assim uma primeira verdade fundamental: o sofrimento não é necessariamente castigo e a prosperidade não é necessariamente recompensa.

Os justos também sofrem. Os injustos também prosperam. A vida humana não funciona segundo uma contabilidade imediata de prémios e castigos.

Cristo leva esta revelação ainda mais longe. Quando lhe falam dos homens mortos pela queda da torre de Siloé, Jesus pergunta se seriam mais culpados do que os outros. E responde claramente: «Não» (Lc 13,4-5).

A tragédia não constitui, portanto, um julgamento moral sobre quem morre.

E há uma razão ainda mais profunda. No centro do cristianismo encontramos precisamente um inocente que sofre. Cristo, o Justo, é traído, condenado e crucificado. Se a morte fosse necessariamente o castigo dos maus, o próprio Calvário seria incompreensível.

Mas então por que permite Deus que os justos morram?

O cristianismo não nos oferece uma explicação fácil. Vivemos num mundo onde existem a fragilidade do corpo, os acidentes, a doença, as forças da natureza, o erro e a liberdade humana. A fé não transforma o crente num ser invulnerável.

Também devemos ter cuidado com uma frase tantas vezes repetida perante uma tragédia: «Foi vontade de Deus.» Não sabemos isso. Job ensina precisamente a humildade perante aquilo que não conseguimos compreender.

O que o cristianismo afirma é outra coisa.

Afirma que a morte não tem a última palavra.

Aqui está a diferença entre Job e Cristo. Job pergunta por que sofre o justo. Cristo entra Ele próprio no sofrimento do justo. Na Cruz chega mesmo a clamar: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» E é precisamente depois da Cruz que surge a Ressurreição.

Por isso, perante estes jovens, talvez devamos reformular a pergunta.

Em vez de perguntarmos apenas:

«Se fizeram o bem, porque morreram?»

podemos perguntar:

«Pode a morte apagar o bem que fizeram?»

A resposta cristã é: não.

O bem não é um contrato de seguro contra a morte. Não praticamos o bem para comprar a Deus mais anos de vida. Praticamos o bem porque o bem participa daquilo que dá sentido à própria existência.

Santo Agostinho ajuda-nos a compreender isto ao ensinar que o mal não possui existência autónoma: é privatio boni, privação do bem. O mal destrói, diminui, corrompe. O bem, pelo contrário, está ligado ao ser, à vida, à verdade e ao amor.

É por isso que a morte de alguém que praticava o bem nos revolta tão profundamente. Sentimos dentro de nós que não deveria terminar assim.

E, paradoxalmente, o cristianismo responde:

Não termina assim.

Não sabemos por que razão dois jovens morreram numa estrada enquanto tantos outros continuam a sua viagem. Não sabemos por que morre cedo uma pessoa generosa enquanto outra, talvez profundamente injusta, chega à velhice. A Bíblia nunca nos forneceu essa contabilidade da Providência.

Deu-nos algo maior: a esperança.

A esperança cristã não consiste em acreditar que nada de mau nos acontecerá. Consiste em acreditar que nenhuma coisa má — nem sequer a morte — poderá destruir definitivamente o bem.

É por isso que São Paulo pode desafiar aquilo que aparentemente ninguém consegue vencer:

«Onde está, ó morte, a tua vitória?» (1 Cor 15,55).

Perante uma tragédia como a da A1, podemos chorar, revoltar-nos e perguntar «porquê?». Job também perguntou. Cristo também conheceu a angústia.

A fé começa talvez quando, não encontrando resposta para todos os nossos porquês, conseguimos ainda dizer:

não compreendo porque morreram; mas acredito que o bem que fizeram não morreu com eles.

Essa é a esperança cristã.

Francisco Vaz

22 de agosto de 2026


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