Pecado original

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sábado, 22 de agosto de 2026

Ileana Cotrubas — quando cantar é dizer a verdade

Homenagem a uma das grandes vozes do século XX

Morreu Ileana Cotrubas. Tinha 87 anos. Com ela desaparece não apenas uma das grandes sopranos da segunda metade do século XX, mas uma certa maneira de compreender a ópera: cantar não como exibição da voz, mas como procura da verdade humana através da música.

Talvez seja essa a palavra que melhor define Cotrubas: verdade.

A Ópera Estatal de Viena, ao evocar a sua memória, encontrou uma formulação particularmente feliz: Cotrubas não procurava uma perfeição exterior, lisa e impecável; procurava antes a «verdade artística» no canto e na representação. Por isso, uma simples frase podia transformar-se, na sua voz, num acontecimento dramático. (upstream.wiener-staatsoper.at)

É uma distinção importante.

Há cantores que admiramos pela voz. Outros pela técnica. Outros ainda pela potência, pela extensão ou pela facilidade com que vencem as dificuldades de uma partitura. Cotrubas possuía naturalmente uma técnica extraordinária, mas, quando a ouvimos, rapidamente deixamos de pensar nela.

Porque começamos a ver a personagem.

Quando canta Mimì, aparece Mimì.

Quando canta Gilda, aparece Gilda.

E quando canta Violetta, acontece algo ainda mais raro: diante de nós está uma mulher que ama, hesita, sofre, renuncia e morre.

É talvez por isso que a sua Violetta permanece como uma das grandes interpretações de La traviata do século XX. A gravação dirigida por Carlos Kleiber, com Plácido Domingo e Sherrill Milnes, tornou-se uma referência da discografia verdiana. A própria Ópera de Viena recorda particularmente a leitura da carta de Germont e aquele terrível «È tardi!» do último ato, no qual Cotrubas consegue condensar a consciência de que já é demasiado tarde. (upstream.wiener-staatsoper.at)

Não é apenas belo.

É verdadeiro.

E talvez aqui esteja o segredo da grande interpretação musical. A técnica torna-se tão perfeita que acaba por desaparecer. Já não ouvimos uma soprano demonstrando como se canta Verdi. Ouvimos Violetta descobrir que vai morrer.

Foi também essa capacidade dramática que tornou Cotrubas extraordinária como Mimì. Em 1975, aconteceu um episódio quase lendário: Mirella Freni adoeceu antes de uma representação de La bohème no Scala de Milão. Cotrubas foi chamada à última hora, viajou para Milão e chegou ao teatro praticamente em cima do início do espetáculo. Cantou Mimì ao lado de Luciano Pavarotti. A noite ajudou a consolidar definitivamente a sua carreira internacional. (El País)

Mas existe outra dimensão da sua personalidade que merece ser recordada.

Ileana Cotrubas sabia dizer não.

Num mundo artístico onde tantas vezes se confunde modernidade com provocação e originalidade com desconstrução, Cotrubas defendia que o cantor não podia transformar-se num simples instrumento da vontade do encenador.

Em 1981 entrou em conflito com uma produção de La traviata no Metropolitan Opera de Nova Iorque e abandonou os ensaios por discordar profundamente da conceção cénica. Não se tratava simplesmente de temperamento de diva. Era uma posição sobre a própria natureza da ópera: o intérprete também é responsável pela verdade da obra que transmite. (El País)

A mesma coerência ajuda a compreender outra decisão rara.

Retirou-se dos palcos em 1990, com apenas 51 anos, quando ainda conservava as suas capacidades. Depois dedicou-se ao ensino e às masterclasses, transmitindo a novas gerações aquilo que considerava essencial no canto. (Bachtrack)

E aquilo que defendia parece hoje quase uma advertência.

Preocupava-a que os jovens cantores se transformassem em máquinas tecnicamente perfeitas. A técnica era indispensável, evidentemente, mas não podia substituir a imaginação, a sensibilidade e a inteligência musical. (El País)

Talvez seja precisamente isso que Ramon Gener procura explicar quando nos ensina a escutar ópera: por detrás das notas existem pessoas; por detrás da técnica existe uma história; e por detrás da história encontram-se aquelas experiências fundamentais que atravessam todos os séculos — o amor, o medo, o desejo, a esperança, a renúncia e a morte.

Por isso Cotrubas continua tão moderna.

Não porque procurasse modernizar Verdi, Mozart ou Puccini, mas porque compreendia algo muito mais profundo: uma obra verdadeiramente grande não precisa de ser atualizada para falar ao homem contemporâneo. Precisa de ser compreendida.

E interpretada com verdade.

Talvez por isso seja inevitável compará-la com Maria Callas. Não para decidir qual foi maior — exercício quase sempre inútil —, mas porque ambas compreenderam que a ópera começa precisamente onde termina a simples beleza vocal.

Callas fazia-nos compreender tragicamente Violetta.

Cotrubas fazia-nos sofrer com ela.

Quando chegamos ao último ato de La traviata, já pouco importa a soprano, a técnica ou mesmo o teatro. Há apenas uma mulher diante da morte que, por um instante, acredita recuperar as forças.

E nós sabemos que não.

É um dos milagres de Verdi: durante alguns segundos a música oferece esperança precisamente quando já não existe esperança humana.

Depois Violetta morre.

Mas a música continua.

Também agora Ileana Cotrubas morreu. Ficam as gravações, as imagens, a sua Violetta, a sua Mimì, a sua Gilda, a sua Susanna, a sua Tatiana. Fica Carlos Kleiber levantando a batuta e aquela voz frágil e luminosa começando novamente a cantar.

E compreendemos então uma das misteriosas vitórias da arte sobre o tempo.

A cantora morre.
A voz permanece.

E, cada vez que alguém voltar a colocar aquela Traviata e ouvir Ileana Cotrubas dizer as primeiras palavras de Violetta, por algumas horas acontecerá novamente o impossível:

ela estará viva.

Francisco Vaz

22 de agosto de 2026


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