Na sua Bula de proclamação do Jubileu
Extraordinário da Misericórdia, Misericordiae
vultus / O rosto da misericórdia, diz o Santo Padre, Papa Francisco, no
parágrafo 6.: «[…] a misericórdia divina não é, de modo algum, um sinal de
fraqueza, mas antes a qualidade da omnipotência de Deus» (p. 9).
Esta afirmação, espantosa pela sua
agudeza, resume tudo o que se pode intuir acerca da verdadeira magnitude do
poder de Deus. Pela negativa, desautoriza todas as interpretações, nomeadamente
de matriz nietzschiana, que fazem do amor, da graça, da caridade algo próprio
de fracos, de quem não é impiedoso apenas porque não dispõe da força natural
para o ser, porque é humanamente cobarde.
O próprio Cristo, à luz deste modo
ontologicamente perverso de ver a realidade do amor caritativo – e o amor é
todo caritativo ou não é amor –, não passa de um político falhado por ética e
vitalmente não ter tido a coragem de confrontar belicamente os romanos
opressores, disfarçando tal cobardia sob as vestes de uma amorosa dedicação ao
pacífico bem universal, mesmo o dos inimigos, algo de incompreensível para esta
posição, que se baseia em categorias puramente biológico-bestiais e que já se
encontrava presente no próprio tempo e lugar históricos de Cristo, na forma dos
revoltados de tipo terrorista contra o império de Roma sobre os povos por si
dominados.
Tal posição esquece todas as múltiplas
manifestações de força, de um outro nível e quilate, que Cristo realiza ao
longo da sua vida e de que nos ficaram registos historiográficos nos
Evangelhos. A força de Cristo é a força do espírito, feita de uma absoluta
unidade pessoal entre inteligência e vontade, sempre obedecendo ao princípio do melhor ontológico,
princípio que é o próprio usado pelo Deus Pai aquando da criação do mundo.
A força de Cristo é a força de Deus,
não num sentido ainda mágico segundo o qual o que fazia lhe vinha directamente
de Deus, nada mais sendo do que uma peça mecânica manuseada ao bel-prazer do
Pai, mas no sentido em que, pela absoluta exactidão da sua acção, só possível
através do uso perfeito da inteligência e da vontade em sinfónico uníssono, o
que necessita de uma força assertiva poderosíssima, virtualmente infinita, a
acção de Cristo é, assim, divina porque é tão perfeita quanto a de Deus, o Pai.
Mas é Deus, o Filho, quem é chamado à acção, à escolha, à dor e ao sofrimento,
sempre absolutamente próprios de quem com eles se faz coincidir, sempre
inalienáveis e, assim, criadores de humanidade, que, se perfeita como em
Cristo, é divindade.
Ora, tal é paradigmático para toda a
humanidade, pois Cristo é paradigma de e da humanidade, transcendentalmente,
sem limites de tempo ou lugar. Para a caridade em acto, não há blasfemas
tolices como «raças», «intocabilidades» várias, ou quaisquer outras, que sempre
insultam o que é próprio do ser humano, que, como percebemos, é, primeiramente,
próprio de Deus, do Deus-Cristo. Assim, toda a ofensa ao que em cada ser humano
constitui a sua perfeição, em acto ou possível, constitui uma ofensa contra
Cristo, contra Deus, venha de onde vier, seja feita por quem for.
Voltamos à sentença inicial, de
Francisco: a misericórdia é própria dos fortes porque é própria de Deus. Como
corolário, afirma-se que só é forte quem for misericordioso, que é forte como
Deus, em precisa analogia, quem, como Deus, for misericordioso, e apenas quando
for misericordioso.
A misericórdia é o acto litúrgico de
Deus para com o mundo. Liturgia primeira, pois coincide com o serviço primeiro
que é a própria criação do mundo. É aqui que se pode vir buscar a fundamental
ideia de que, irónica e paradoxalmente para quem pense de modo superficial,
Deus é verdadeiramente o servo dos servos, pois é esse que presta o primeiro
serviço de sempre, serviço que cria os servos, assim os servindo de forma
absoluta, ao dar-lhes o ser. Não é apenas Cristo que é o Servo, é já o Pai que
se relaciona com tudo como o servo, mas servo criador.
De facto, é no momento da criação que
se encontra a verdadeira inversão de todos os valores, porque Deus não opera
como um limitado imperador, mas como um grande Senhor que infinitamente serve
os servos. A relação com Deus é uma relação de simbiótico – sinontológico, mais
propriamente – serviço.
Ao serviço de Deus para com as
criaturas chama-se a Providência divina; ao serviço das criaturas para com o
criador chama-se adoração. E não há outras formas. Ambas são paradigmáticas.
A vida de Deus Pai, na relação com o
mundo, é uma vida de serviço; a vida do Filho segue e cumpre o paradigma.
E começa logo, na sua forma adulta,
como e com um acto de obediência.
Trata-se do estranho caso das «Bodas de
Caná».
Mas esta narrativa tem um fundamento
que se ancora no que de mais antigo há nesta tradição. Através da leitura do Génesis, logo no seu início, aquando da
narração da criação, podemos perceber que o que Deus quer com tal acto não é
uma qualquer forma de exibicionismo emanatista ou de narcisismo especular –
criando seres que o incensem para seu especial e divino gozo –, mas o modo
único de fazer participar da sua grandeza a algo possuidor de alteridade: este
algo é a criação, no sentido de o criado.
O mundo é um divino dom de
possibilidade de divinização: inicialmente, em acto, bom como Deus, mas não de
forma mecânica, podendo assumir divergir da finalidade inicial de tal dom. No
entanto, toda a criação isenta de poder de escolha cumpre sempre na perfeição a
possibilidade inicial: tudo se cumpre no melhor do que pode ser: mesmo que seja
uma supernova, mesmo que seja um maremoto. Tudo isto é sempre perfeito como
acto natural que é. Nunca se pode dizer de uma supernova que poderia ser melhor
ou pior. O mesmo de um maremoto. Considerações deste jaez são meramente
projecções néscias da humana falta de inteligência sobre a essência e
substância do criado.
Mesmo para os entes dotados de
capacidade de escolha Deus quis o melhor: e o melhor não é amar – se tal fosse ou
for de modo automático –, mas poder amar.
E tais seres são precisamente «os que podem amar». Mais nenhum pode.
«Poder amar» em termos lógicos, para
poder ser, tem de ter como, não contrapartida, mas como sua forma negativa de
possibilidade – sendo, no entanto, o mesmo em termos de real possibilidade
lógica e ontológica – «poder não-amar». É o caso quer dos anjos quer do casal
prototípico inicial.
Todos são perfeitos nas suas
possibilidades. Todos passíveis de absoluta perfeição teleológica precisamente
porque são capazes de imperfeição autonomamente eleita. Assim também toda a
humanidade. Assim também, para que possa ser perfeita, a humanidade de Cristo.
Por isso, pode Cristo ser sujeito a testes e a tentações. Sem a perfeição da
possibilidade da imperfeição, tal não faria qualquer sentido e todas as
narrativas crítico-cairóticas de momentos da vida de Cristo seriam pura e
simplesmente mentiras, blasfemas, portanto.
Como para os míticos Adão, Eva e Job,
com destinos radicalmente diferentes os dois primeiros na relação com o terceiro,
fazendo deste o verdadeiro Adão, pois pessoa perfeita, isto é, pessoa, sem
mais, também para os históricos Maria e Emmanuel a perfeição é um dom de
possibilidade humana e a perfeição final uma realização pessoal a partir desse mesmo
dom, que inclui a sempre presente habitação divina no mais fundo de cada um,
como Agostinho tardou a perceber e nós dificilmente percebemos como verdadeiro
pão-nosso-de-cada-dia. De novo, a Providência. Fiel a nós que lhe somos
raramente fiéis.
Nas «Bodas de Caná» revela-se a
essência da misericordiosa obediência bem como isso de fundamental sobre que
assenta e que é a humana autoridade, alicerçada sobre a fidelidade ao amor de
Deus. Tal significa que o fundamento da autoridade e da força que representa,
ostenta e aplica é, ainda, a própria misericórdia criadora de Deus, a sua
providencial caridade sempre em acto na criação. Mais uma vez, se pode perceber
o quanto o Papa Francisco tem razão.
A narrativa das «Bodas de Caná»
permite-nos encontrar paradigmas de interpretação e de acção para a questão da
misericórdia e da obediência segundo a misericórdia em, pelo menos, seis áreas
ético-políticas:
Na família.
Na política/sociedade.
Na educação.
Na religião (fé, ecumenismo,
inter-religiões).
Na ecologia.
Na promoção da Paz, alicerçada na
dignidade ontológica humana.
Comecemos pela própria narrativa em
causa:
Convidados para um casamento, Maria e
Jesus aceitam o convite e comparecem. Tal aceitação implica imediatamente que,
de entre um conjunto infinito de possibilidades colaterais, foi a ida à Boda
que foi eleita. Esta eleição determina que tudo o mais deixasse de ser feito e
de poder ser feito e que isso que foi escolhido entre em acto. Esta entrada em
acto carrega consigo uma infinidade de possibilidades. Ora, quer para Maria
quer para Cristo, existindo, como para qualquer outro ser humano, estas
infinitas possibilidades, a sua condição de paradigmas de humana
perfectibilidade implica que apenas as precisamente correctas sejam eleitas.
Sempre. Neste caso também. Só assim se cumprem no seu melhor possível – nós
também, mas nós não somos paradigmas –, só assim poderão ser dignos do que quer
o Pai da criação quer a criação esperam deles.
Compete-lhes, então, escolher sempre
perfeitamente. Esta perfeição tem de ser atingida a partir da sua condição
puramente humana, em Maria, também perfeitamente humana – isto é, capaz de não
escolher o melhor – em Cristo. É sempre uma perfeição possível actualizável no
seio de uma humanidade que, para poder ser humanidade, é perfeita também como possibilidade de imperfeição.
E é com esta possibilidade que a
narrativa vai jogar. Diria o crente: que Deus vai jogar.
Que sucede?
Num mundo que não é mágico, quer dizer,
em que tudo acontece sempre e só através
de mediações, nada acontece sem estas. Por outro lado, num mundo que, sendo
imenso, não é infinito em acto, tudo é finito, tudo começa e acaba.[1]
Tudo o que constitui a mundaneidade da Boda é, assim, finito: o número dos
noivos, dos convivas, a quantidade de comida e de bebida.
A certa altura, o vinho ali disponível,
esgota-se. Ora, o vinho, como mediação festiva, é instrumento litúrgico
integrante deste acto de consagração do casal, acto sagrado. À festa, faz falta
a presença do vinho. O melhor bem possível da festa passa por poder contar com
a presença do vinho.[2] Como tal,
nada a pode substituir (isto aponta para a imprescindibilidade de cada coisa
que é, como bem e apenas como bem).
Maria, com a sua fina inteligência – a
mesma que permitiu o seu assentimento voluntário ao pedido de servir de
mediação à incarnação do Verbo –, percebe o que se passa e a ameaça que pesa
sobre a perfeição ontológica do acto sacramental em curso.
É que arruinar a festa é arruinar a
sacralidade do acto. Essencialmente, tal acto é o que for a sua exacta
sacralidade: esta reside sempre no nível de perfeição ontológica em causa. Por
isso se pode dizer que Deus é absolutamente sagrado. Ser-se sagrado, é
participar-se da sacralidade de Deus. Neste caso, da sacralidade da festa, em
seu nível de perfeição.
Assim, há que repor a perfeição
litúrgica do acto no nível em que deve estar. Para isso, é preciso que se
encontre forma de tornar presente mais vinho, com a maior brevidade possível.
É neste ponto que as questões da
misericórdia, da obediência e da autoridade se manifestam, manifestando, na
sequência da acção de Cristo, a sua mesma divindade, consubstanciada na sua
misericórdia, na sua obediência.
Perfeita misericórdia, porque age em
conformidade com o melhor bem possível para aquela possibilidade, sendo isso e
apenas isso que se espera de Deus; obediência perfeita, pois, prescindindo do
que seria uma manifestação espúria e tirânica de poder, Cristo não impõe a sua
vontade, antes segue o que a vontade de Maria lhe manifesta da inteligência
topológica e cairótica de Maria acerca do absoluto do bem a realizar (absoluto
que é sempre marca providencial do criador no seio da criatura).
A obediência é perfeita não porque siga
sem mais a vontade da Mãe; não porque proceda caprichosamente de um deus; mas
porque, precisamente, acolhe como sua
a intuição da melhor bondade ontológica possível intuída por Maria. É perfeita porque obedece ao melhor possível.
Se não obedecesse a este melhor possível, não seria perfeita, não poderia ser
divina.
Não se é Deus porque sim, irracionalmente,
é-se Deus porque se é infinitamente bom, mesmo quando a inteligência finita o
não percebe. Mas é para que este abismo intransponível pela simples
inteligência possa ser transposto pela pessoa como um todo que existe a fé,
forma hiperbólica da inteligência, que vê, ainda que imperfeitamente, o que a
inteligência não pode ver. Vê porque é um acto não da inteligência, mas da
pessoa como um todo, que inclui o querer. E nada se pode ver sem que se queira ver. A fé é sempre o rasgo
fulgurante da pessoa que imediatamente antecipa o acto da pura inteligência,
que, em acto, deste modo, dispensa a fé: perante Deus, já não há que querer
vê-lo ou, então, não se está «perante Deus».
A autoridade na relação com o melhor
bem ontologicamente possível, na Boda, pertence a Maria e é a essa autoridade
que há que obedecer. Cristo faz o que lhe compete, obedece. O que, até então,
não era o «seu tempo», o seu «kairos», passa, então, a ser o seu tempo, o seu
«kairos».
Mais uma vez, Maria dá Jesus à luz;
mais uma vez, Maria é custódia e porta para o esplendor do Filho.
Mas é-o na perfeita obediência a Deus,
que lhe solicitou que fosse precisamente a mediação para a manifestação de
Jesus. Cristo obedece à Mãe, que obedece a Deus, que não propriamente obedece,
mas é, permanece sempre, fiel à vocação de bem e à promessa de bem com que fez
acompanhar tal vocação.
Ora, ao obedecer directamente à Mãe,
Cristo, indirectamente, obedece fielmente ao Pai.
Por outro lado, é notável que o primeiro
acto público de Jesus seja um acto de misericórdia e de misericórdia que
implica um momento de recriação, aliás, operado em total gratuidade. O milagre,
a transubstanciação da água em vinho dá-se por meio de um acto discreto, como
se se quisesse dizer que a intervenção de Deus é algo que, alterando o pormenor
da criação, nela se não faz notar mais do que o que esse ínfimo toque operou.
No entanto, as consequências são infinitas.
Esta infinitude das consequências dos
actos, mormente de algo tão melindroso como o milagre, implica que este último
tenha em si apenas virtualidades de bem ou a suas consequências desmentiriam a
bondade do motor da intervenção.
Mais do que apontar para uma especial
bondade do milagre, tal aponta para uma especial «miraculosidade» do comum dos
actos. Como?
É que, se cada acto – e todos os actos
– forem tão perfeitos em sua virtude como o acto do milagre, então, tudo corre
bem, sempre. É o desvio a este sentido miraculoso de graça e de bondade do acto
isso que nos é contado no mito de Adão, Eva e da serpentina criatura. E,
depois, Caim, e, depois, eu: sim, eu, sobretudo eu, não sobretudo tu.
Mas o acto de obediência de Cristo a
sua Mãe tem um outro significado muito profundo: é que não se destinou a
corrigir qualquer forma de pecado, apenas uma falha técnica, sem denotação ou
conotação moral.
Faltou o vinho. No mundo finito, como
já percebemos, tal acontece. Não é moralmente bem ou mal algum. Não é o mesmo
que se dizer que alguém fez de modo a que o vinho faltasse. Isso já seria da
ordem do mal em acto. Mas não é isso que sucede, não é a um acto de maldade que
Cristo acorre, apenas a um simples acontecimento natural, decorrente da
estrutura mundana, estrutura que santamente o Pai fizera.
E, sim, poder faltar vinho é possível e
em si não tem mal algum.
Não confundir com as consequências
sacro-litúrgicas acima trabalhadas. Cristo não começa por resgatar um pecado,
mas por emendar uma falha técnica naturalíssima.
A sua vida pública começa com um acto
de acréscimo de bem a um bem já existente. Tal marca a vida pública de Cristo
não como algo de dependente da negatividade para poder operar – o que seria
blasfemo mesmo num rudimentar deus pagão vário –, mas como algo de dependente
de uma dinâmica e cinese de graça salvífica, de salvação por dom, de salvação
como excesso de amor, que recebe o nome de misericórdia. É por misericórdia positiva que Deus cria o mundo e que Cristo o recria.
Deus é excesso de bem e de mais nada do
que de esse bem necessita para actuar. Deus é a misericórdia de Deus; a
misericórdia de Deus é Deus. Só assim se pode minimamente vislumbrar o que
possa ser o infinito amor da pericorese trinitária, infinita graça
misericordiosa, em que todas as pessoas são infinito enlevo umas das outras.
No entanto, quem muito humanamente ama
sabe, através do sabor profundo do mais íntimo de tal amor, o que tal enlevo é,
finitamente. Bastaria encontrar um algoritmo infinito para tal sabor, passe a
ironia.
Mas, repetimos, quem ama sabe bem do
que aqui se trata. Quem não ama experimente amar, pois tal é ontologicamente
muito saudável: amando, quando damos por nós, estamos a ser coisas divinas.
As
bodas de Caná definem, assim, o padrão do que é a relação profunda entre a
misericórdia e a obediência.
Vamos, agora, aplicar tal matriz aos
domínios da vida humana anteriormente listados.
Na família, a misericórdia confunde-se com o cerne essencial
e substancial do que a constitui. Uma família não é redutível a um agregado de
seres humanos que partilham espaços e tempos, sem mais. Também não é uma mera
relação política exterior entre pessoas, que se processe de um modo analogável
a uma partida de bilhar. O vínculo que constitui a família também não é do
âmbito do psicológico, que é meramente passional ou, se activo, se dá puramente
através de formas de reactividade. Havendo – e há – acção não reactiva,
abandonamos o domínio psicológico e passamos a situar-nos em campo espiritual.
Ora, é precisamente no fórum do
espiritual que a família se constitui, como, precisamente, acto de amor
recíproco entre duas ou mais pessoas. Este acto é um acto de misericórdia, pois
implica que quem o pratica ponha todo o seu beneplácito nesse ou nesses que
ama. Tal amor, porque respeita o bem possível do outro, em cada iteração, cria
o outro na forma da abertura ontológica
de possibilidades de ser, de bem ontologicamente entendido. Esta é a
definição máxima de misericórdia, mesmo quando aplicada a pretexto negativo
como é o caso da narrativa do «Filho pródigo».
Nesta, o amor misericordioso do pai
permite a vida do filho perdido não apenas como forma de sobrevivência límbica
ou purgatória, mas como presença plena junto do seio do pai, assim, vida plena,
pleno bem, plena graça, plena misericórdia.
Perfeita, mesmo que impassível de
compreensão para quem não tem grandeza de alma suficiente para perceber que
tudo só está bem quando todos os elementos estão tão bem quanto podem estar,
não quanto merecem estar.
A superioridade da misericórdia sobre a
vulgar justiça consiste em exceder caritativamente a normalidade da ordem
mundana, por mais finitamente perfeita que seja, através de um acto que não se
limita a encher a taça do bem, a extravasa infinitamente, sem que qualquer gota
se perca. E tal ou se percebe ou não se percebe. Para perceber, é preciso ter
uma taça que aceite ser infinitamente excedida pela graça de Deus, sem que tal
me faça sentir inferiorizado. Na verdade, eu não sou e nunca serei Deus. À
parte isso, e num contexto diferente, «tenho em mim todos os sonhos do mundo», como
diz o Poeta.[3]
A autoridade na família, como em todos
os outros «topoi» depende sempre da grandeza da misericórdia em acto, pelo que
o que acabou de ser dito é válido para todos os outros âmbitos aqui
trabalhados.
Na vida política, a misericórdia é
raríssima e, quando existe, é geralmente entendida negativamente como algo de
reactivo, que se consubstancia num acto de poder de alguém mais perfeito sobre
alguém mais imperfeito. É, aliás, este o modelo teológico durante muito tempo prevalecente,
que mais não faz do que seguir o regime projectivo do humano sobre o divino.
Ora, o que é necessário na e para a
vida política é a metamorfose da acção política de uma agência interesseira e
onfalocêntrica-individualista para uma forma de agir em que se privilegie o dom,
melhor, em que o dom não seja privilégio, mas regra comum. E este dom é,
matricialmente, misericordioso, ao modo da relação criadora de Deus com o mundo
que cria.
A perene outorga ao outro da
possibilidade de consumação do seu melhor possível é um acto de misericórdia,
pois tem o bem do outro como o centro único do enlevo agencial. É este o modo
único de Deus como criador, mas também de Deus como pericorese trinitária. É
este o modelo, único como tal, mas infinitamente pleno de possibilidades de
concretização em pormenor, que pode permitir a «cidade de Deus», que é um
modelo inspirador, sempre, nunca um limite, pois os limites não são atingíveis
e a cidade de Deus pode ser construída, assim a prototipicamente mesma
misericórdia com que Cristo amou o mundo seja politicamente praticada pelo
universo dos seres humanos.
E aqui jaz a dificuldade: é que tem
mesmo de ser pelo universo. Basta que um não colabore neste sentido para que a
cidade de Deus seja impassível de concretização. Tem sido este o rumo da construção
da história, que não passa do campo dramático e trágico da humana infernalidade
constituída precisamente pela sua incapacidade de funcionar segundo a lógica da
positiva misericórdia. Tem sido a misericórdia negativa a prestar o cuidado
extremo que, muitas vezes, tem evitado o colapso do mundo humano. Mas a que
preço.
O modelo cristão de tal cura
misericordiosa é precisamente a Páscoa de Jesus: diagnóstico, terapia e
salvação do paciente. Como modelo, tem de ser iterado por todos ou, nisto a
tradição é diamantinamente clara e dura, no limite, a alternativa é o destino
de Sodoma e Gomorra, vítimas de uma liturgia de auto-destruição.
Politicamente, só deveria ter
autoridade quem exerce misericórdia. Não é este o caso, embora, novamente, a
figura de Cristo seja modelar, pois é por meio da sua misericórdia que a sua
autoridade se impõe. Lembre-se o caso do possível apedrejamento da mulher
pecadora e como serve de paradigma quer de acto de misericórdia negativa, na
dependência do pecado, quer de misericórdia positiva, na forma do «vai e não
voltes a pecar», de denúncia de ausência de qualquer forma de misericórdia por
parte dos voluntários lapidadores.
Para
o cristão, apenas a pessoa misericordiosa merece ter autoridade e apenas o
poder político desta merece ser respeitado. Assim se eliminariam definitivamente os tiranos, pois
ninguém lhes obedeceria.
Na educação, sub-conjunto activo do
mundo político, aplica-se à misericórdia tudo o que ficou estabelecido para a
política em geral. No entanto, na relação entre esse que procura provocar o
acto de inteligência num outro ser humano, não como mera passividade adjudicada
uma faculdade humana hipostasiada, mas como acto pleno da pessoa, esse que
permitiu a Arquimedes o seu «Eureka», manifestação da alegria não apenas da
descoberta, mas do crescimento lógico-espiritual da pessoa, a misericórdia
assume uma especial relação com a virtude da paciência, impossível sem a
associação a uma temporalidade administrativa elástica, que permita que o labor
do mestre se faça segundo a taxa de apreensibilidade do discípulo, não segundo
protocolos néscios mal-pensados por não menos néscios servitas dos senhores do
momento.
Assim, a misericórdia é em si mesma um
acto de pedagogia, esse que permite ao discípulo saborear a maravilha do novo
descoberto, mas também a angústia de isso que se quer descobrir e ainda não
encontra, na pessoa que busca, a fertilidade de um húmus cuja receptividade não
é violentável, por mais metodologias que se inventem. A pedagogia ou é um acto
de amor ou é um acto de tirania. Geralmente, com a complacência de muitos, é um
acto de tirania.
É este sentido tirânico do acto
pedagógico sem a misericórdia do saborear do «logos» das coisas que torna
impossível uma real autoridade na escola, seja a que nível for. Os discípulos
serão tudo menos estúpidos e sabem bem quando são amados pelo e no acto
pedagógico. Aliás, por definição, até etimológica, o acto pedagógico é sempre
um acto de amor, um acto de misericórdia positiva, pois corresponde
literalmente ao encaminhar os passos próprios da criança por quem já tem o
sabor do caminho, mas não pode caminhar pela criança, podendo, no entanto,
ajudá-la no trabalho de saber «ler os sinais», da colheita do sentido,
significado grande de «logos», de «legein», de «ler», de inteligir. A pedagogia
é a misericordiosa liturgia à pessoa na forma da sua inteligência global: da
pele ao espírito, que é a pele dos anjos.
À religião, que é essencialmente um
acto político, pois é sempre uma relação interpessoal ou implica sempre
relações interpessoais entre crentes, tudo o que ficou estabelecido sobre a
política é-lhe aplicável.
No que diz respeito ao laço fundamental
que é o da fé, o paradigma primeiro, não no tempo narrativo, mas segundo a
lógica substancial, é a acção protagonizada por Job. O drama de Job dá-se entre
dois momentos de misericórdia de Deus, ambos de misericórdia positiva:
inicialmente, Deus manifesta o seu olhar misericordioso puro sobre Job, como
tinha feito no fim de cada dia da criação, como afirmação precisamente do que é
a misericórdia positiva de Deus como modelo de glória, de que o mundo, puro,
participa naquele momento; no fim, quando Job acaba de passar todos os testes
de fidelidade, ao cobri-lo, ainda mundanamente, com uma pletora de bens, imagem
do que é a misericórdia celeste, em que o bem único é o próprio amor de Deus,
directamente saboreado, sem mediações, como Paulo tão bem percebe.
Este é o modelo de misericórdia fundamental: olhar tudo com
um olhar semelhante ao olhar de Deus.
No entanto, durante as provações de
Job, manifesta-se isso que é a imagem real do inferno não-mítico, isto é, a
absoluta falta de misericórdia de todos os outros seres humanos. É aqui e não
em Sartre que encontramos a ideia de que «o inferno são os outros». E a obra Job bem nos prova que assim é.
O que esta obra nos mostra é que a
diferença absoluta entre certos seres humanos e Deus é a ausência absoluta de
misericórdia. Mas também nos prova que alguns, Job neste caso, são tão grandes
que, quando Deus se manifesta, também ele, sem misericórdia, há quem se lembre
da misericórdia do Deus misericordioso e lhe seja fiel. E, então, Deus, que fez
o ser humano para a misericórdia, manifesta toda a sua misericórdia,
infinitamente.
Assim se estabelece o padrão de misericórdia
para a religião. Qualquer seja a religião, se não seguir este padrão, não
merece ser e, mais cedo ou mais tarde, porque, no limite, contribuirá para a
extinção da humanidade, com esta se extinguirá.
Aqui e apenas aqui reside toda a
autoridade da religião.
É, assim, necessário que a misericórdia
seja o motor das relações quer a nível ecuménico quer a nível inter-religioso.
Mesmo a questão das relativas autoridades só faz sentido se isso que é a
autoridade com que cada tendência ou religião se apresenta no fórum dialogante
for fundado na misericórdia. Só através de uma misericórdia positiva é possível
entrar em diálogo que tenha como finalidade o bem dos crentes, pois apenas o
enlevo pelo seu bem implica tal finalidade. Não se trata do enlevo próprio
pelos crentes de cada entidade religiosa, mas do enlevo amoroso por todos. Na
falta deste enlevo, não é possível mais do que uma troca vazia de palavras ou,
quando muito, de um acordo de tipo diplomático, sempre superficial e
essencialmente grosseiro ainda que subtil na forma exterior. Forma interior não
tem, pois essa seria a misericórdia.
Em termos ecológicos, a misericórdia
alicerça-se precisamente no acto da criação, que é esse que estabelece
literalmente o âmbito ontológico do «oikos» universal. «Literal», porquê?
Porque a ecologia é literalmente, em sua mesma essência, não o moderno «estudo
do ambiente ou dos ecossistemas», mas o «logos tes oikias», o sentido que Deus
imprimiu à criação. A «oikia», a «casa» é a mesma criação como um todo, que
inclui o próprio ser humano, parte do «logos oikético» universal.
O modo como o ser humano deve habitar,
não «a» criação, não «com a» criação, mas «como criação» é o mesmo modo
misericordioso como Deus agiu ao criar. A acção do ser humano, num sentido
ecológico que se universaliza e assume todas as valências da acção humana, ou é
uma acção de amor misericordioso para com a criação ou é, mais cedo ou mais
tarde, um acto de suicídio. As consequências da não obediência a este princípio
estão manifestamente em forma ambiencial em todo o nosso redor.
A autoridade, aqui, é a autoridade
lógica, isto é, que respeita o sentido amoroso da criação. Amar a criação como
Deus a ama, mantendo-a na sua possível perfeição infinitamente variável,
infinitamente aperfeiçoável, pois a criação é, imediatamente, vocação de e para
a salvação.
Mais uma vez, não há autoridade senão a
que compete ao e deriva do «logos» divino, seja de forma directa na palavra e
restante acção de Deus, por exemplo, em Cristo, seja, indirectamente, na
presença, sempre sacramental da caridade, pois a caridade é sempre sacramento,
nas próprias criaturas.
Deus é caridade e a caridade é a
misericórdia em acto que a cada instante nos poupa ao nada. É este o acto de
misericórdia por excelência. Não perceber isto em termos teológicos é não
perceber bem coisa alguma mais e estar-se sempre em perigo de cair em posições
maniqueias.
A terrível mania maniqueia, que habita
o ser humano e que este persiste em alimentar como alguém que alimenta um
cancro que o vai consumir, fundada na humana impotência de ser o melhor que é
possível a cada um, ilusoriamente mitigada através de uma luta entre mim, deus
do bem e Deus, o deus do mal, é a fonte de todas as guerras.
E é-o porque é a fonte de toda a falta
de misericórdia. Esta é própria dos fortes. Um cobarde nunca é misericordioso,
por definição, pois, se fosse forte o suficiente para se alçar ao nível que
Cristo paradigmatiza como «amor ao inimigo» (que, imediatamente, destrói não o
outro, mas a inimizade para com ele), logo deixaria de ser cobarde. Força e
cobardia são incompatíveis.
E o maniqueísmo é a doutrina dos
cobardes, dos que não conseguem aguentar a angústia da infinita distância
ontológica actual entre o que são, o que Deus é e, pior, o que eles próprios
podem ser. A sua impotência em ser Deus ou em ser o melhor possível próprio é
reformada, transubstanciada em negativa divindade hipostasiada, deus dos
falhados, explicação metafísica para toda a incapacidade ontológica de tais
seres humanos.
Na base da guerra está sempre um olhar
maniqueu, que perspectiva o outro sempre como um mal relativo ao meu bem,
alguém cuja existência, como deus de mal, obstaculiza a minha existência como
deus do bem. Como tal, para que a minha divindade própria possa florescer, há
que eliminar a ameaça, eliminando-a a ela própria ou eliminando o que lhe
permite ser.
Temos, assim, o padrão da guerra como
atentado contra a possibilidade do outro.
Apenas o olhar misericordioso de um
Deus sem oposto ou contraditório, na plenitude do seu poder positivo, isto é,
ontologicamente, de bem, pode, amando inequívoca e indefectivelmente, evitar a
guerra, ou, havida esta, eliminá-la, precisamente transformando as espadas em
arados. O símbolo é evidente.
Apenas as pessoas de paz têm autoridade
para falar da paz. Apenas os que praticam a paz podem servir de cordeiro
expiatório, de dons de misericórdia, actos que instalam a paz.
Mais uma vez, Cristo – mas também sua
Mãe – se revela como o modelo perfeito de tal liturgia. «Da paz, em paz, para a
paz», poderia ser o lema de Maria, ventre da paz.
Por isso, pode Maria, Mãe da paz, que é
suprema harmonia e misericórdia, ter autoridade sobre o Filho em Caná. É o
«Logos» que nela e por ela, mas como ela, fala, como se dissesse: «Manuel, é
dever de um Deus ser sempre misericordioso. É preciso mais vinho». E o vinho,
misericordiosamente, aconteceu.
Américo Pereira
Abril 2016
[1] A
questão põe-se para o próprio mundo como um todo: começou, logo, é finito,
logo, pode acabar. Em termos da metafísica cristã, só não acaba enquanto Deus o
não quer.
[2]
Não se põe, aqui, a questão de um eventual uso abusivo do vinho. Esta questão
será pertinente num outro âmbito, por exemplo, ético ou psicológico, também
político, mas não neste âmbito que é ontológico puro.
[3] PESSOA
Fernando, Poesias de Álvaro de Campos,
Lisboa, Ática, 1980, Poema «Tabacaria», p. 252.
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