Quando
recebi o amável e muito desafiante convite do Senhor Professor Doutor Carlos
Morujão para intervir neste tão oportuno Congresso Internacional,
interroguei-me, preocupado, sobre como poderia a minha longa carreira de
Marinheiro Militar ajudar-me a ser útil aos propósitos dos nossos paineis ,
subordinados ao tema “Para um Mundo Melhor na Política e na Economia”. De
facto, a minha formação fora da esfera militar é naturalmente generalista, o que
me coloca em dificuldade perante um tão sabiamente escolhido conjunto de
oradores aqui presente.
Por
isso, resolvi, como é bom hábito dos marinheiros, definir o ponto de partida
com exactidão e traçar o rumo para o de chegada. E, naturalmente, esse ponto de
começo foi, nesta navegação, reler a fresca, de cinco séculos, obra “Utopia” ou
“A Melhor Forma de Governo” de Tomás Morus e meditar sobre ela.
Confesso
que foi uma meditação que me deu ânimo para a primeira singradura, isto é, para
o percurso entre o ponto de partida e o ponto ao meio dia seguinte.
Isso
aconteceu não por a obra ter dado muito realce à figura de um marinheiro
português, Rafael Hitlodeu, vindo da ilha muito distante da Utopia, mas porque
notei no extraordinário texto de Morus uma atenção muito marcante com
requisitos essenciais, diria básicos, “para um mundo melhor na política e
economia”, ou seja, o tema de que estamos a tratar.
É
um foco que surge ainda incipiente no Livro I, num considerado “terceiro
debate,” e que é depois ampliado no Livro II. Estou, naturalmente, a falar
daquilo que o Autor intitulou “Coisas de Guerra”.
Na
verdade, a questão da possível ausência de paz e de segurança (diríamos hoje)
constituiu uma grande preocupação para Morus que trata o tema de uma forma
naturalmente profunda e com uma frescura que ainda hoje se sente nos pensamentos
que passou a escrito. Há como que uma intemporalidade nesses legados, a lembrarem-me
outros autores, como Sun Tzu, ou o Padre Fernando de Oliveira e a sua “Arte da
Guerra do Mar”, também do século XVI.
Para
mim, estava determinado o primeiro ponto ao meio dia. As singraduras seguintes,
entre os sucessivos pontos ao meio dia, passaram a estar delineadas no meu
pensamento. E quais são elas?
Chegado
aqui, abandono a metáfora da linguagem de marinheiro, apesar de nos
encontrarmos a bordo da extraordinária “Nau do Saber” que é a Universidade
Católica, e passo para a terra muito firme das convicções de Morus sobre o
problema da guerra e também para uma chamada de atenção, muito séria, que
gostava de vos fazer relativa à gigantesca catástrofe que pode constituir uma
guerra nos nossos dias.
Começo
por afirmar o que certamente todos assumem como óbvio: que é condição
necessária, essencial mesmo, para um mundo melhor na política e na economia que
se verifique uma total inexistência de guerra ou, ainda mais explicitamente,
que haja segurança, entendida esta como a ausência de riscos e de ameaças para
as sociedades humanas, incluindo os seus bens e o meio ambiente.
Na
verdade, a instabilidade e os danos provocados por riscos, ameaças e conflitos
são incompatíveis com o desenvolvimento económico e com a harmonia entre
pessoas, entre grupos humanos e entre nações. Constituem mesmo a negação da
felicidade e da dignidade humanas.
É,
seguramente, por isso que Morus dedica uma parte da sua obra aos problemas da
guerra e das situações da sua legitimidade, começando pela referência à
tolerância apenas daquelas que podemos chamar de justas. O debate no Livro I em
que Rafael, o tal imaginário marinheiro português, condena a política de
conquista, a partir de um cenário criado na Corte de França, constitui a
primeira aproximação ao tema, quando procura teorizar sobre a legitimidade da
guerra, perante as consequências dela derivadas.
“Rafael
condena a política da conquista e apresenta como modelo os Acorianos que
convencem o seu rei a manter-se nos limites do seu país” e, depois de enumerar
as desgraças consequentes da guerra, dá o conselho: “...havia o rei de
dedicar-se ao reino de seus pais, criar nele a maior prosperidade possível,
torná-lo o mais florescente de todos, ter amor pelos seus... e deixar os outros
reinos prosperarem...”.
Trata-se
de uma muito nítida declaração de incentivo à não agressão e à concentração de
todas as energias na melhoria das condições de vida do próprio reino.
Este
debate do Livro I termina com uma mensagem de pessimismo. A de que as ideias
tão sensatas de Rafael não foram acolhidas.
No
Livro II o Autor teoriza sobre a guerra e dedica-lhe um capítulo onde começa
por declarar a sua oposição aos conflitos, a não ser em caso de defesa. Para
esta, assume a preparação dos homens e até das mulheres “para protegerem as
suas fronteiras ou para escorraçarem os inimigos que tenham invadido os
territórios dos aliados, ou bem assim, quando levados por sentimento de
comiseração, se propõem libertar da servidão e do jugo de qualquer tirano algum
povo oprimido pela tirania, fazendo-o, aliás, por filantropia”.
É
uma linha de pensamento da doutrina tradicional que assenta em Santo Agostinho,
mas que me merece um comentário de conselho cautelar, pensando nos dias de
hoje.
Na
verdade, a ideia de libertar povos oprimidos pela tirania, através da guerra
material, pode constituir um grande perigo, por vezes um erro mesmo, se não
estiver devidamente acautelado o estabelecimento da paz, a implementar após a
mudança política. Nos nossos dias, é disso exemplo, entre outros, a tentativa
de derrube do presidente sírio que conduziu a uma situação de instabilidade com
um rol imenso de vítimas (meio milhão?) que ainda não parou de aumentar.
De
certa forma, também, e para referir só mais um caso, relembro que os apoiantes,
pela violência, da independência precoce dos territórios ultramarinos
portugueses contribuíram para a instabilidade e para sangrentas guerras civis
pós independência, com a consequência de milhões de mortos e as dificuldades de
vida que se têm mantido por várias décadas.
Mas,
voltando a Morus e ao capítulo “Coisas de Guerra”, saliento que refere um
impressionante leque de conceitos que vão desde questões éticas, hoje
reconhecidas e adoptadas em convenções, como as de Genebra, até aspectos tácticos
e também psicológicos, envolvendo o que hoje chamamos de guerra psicológica.
Por
todo o texto perpassa a ideia de oposição à guerra, a não ser em caso de
defesa. Para a sua condução alude, com muita clareza, ao uso da inteligência em
vez da força para repor direitos violados e restaurar a paz justa, por exemplo
através de métodos psicológicos, como os de aliciamento dos inimigos, criação
de terror, despertar querelas dinásticas, promessa de recompensas, etc.. De
certa forma, na mesma linha, estimula a utilização de aliados e de soldados desertores
do inimigo.
Em
toda a obra se depreende o princípio da valorização da vida, condenando os
massacres propícios sobretudo aos vitoriosos, prendendo e não executando os
criminosos de guerra, respeitando escrupulosamente as tréguas estabelecidas com
os inimigos, mesmo quando se verifiquem provocações, poupando as gentes que não
pegaram em armas, gratificando quem de direito e, ainda, reparando os danos da
guerra.
Curiosamente,
muitos destes princípios caracterizaram a acção dos nossos Lusos antepassados logo
na reconquista cristã do território de Portugal, em que era prática corrente,
após a tomada de uma fortaleza, afastar a população moura para as cercanias sem
a hostilizar, como, por exemplo, aconteceu em Lisboa, dando origem aos saloios
(originários de Salé).
De
forma mais claramente humana, foi, geralmente, o nosso relacionamento com as
populações com que tivemos encontros culturais, como tão tocantemente é
descrito por Pêro Vaz de Caminha na carta que escreve ao rei sobre a chegada
dos navegadores de Pedro Álvares Cabral ao Brasil. O relacionamento com a
população local (alcunhada de índios) foi, nessa altura, extremamente
cauteloso, carinhoso mesmo.
Na
parte da obra de Morus a que me estou a referir é também feita inteligente
alusão ao moral das forças, às tácticas escolhidas e à adequação do armamento a
cada situação.
Admiravelmente,
é tratado o restabelecimento da paz e as regras para estabilização das zonas
envolvidas e dos humanos, seus habitantes.
Interpreto
que existe em todos estes pensamentos uma muito comovente intenção de reduzir
as consequências da guerra, já que também é perceptível a visão da
impossibilidade de anular completamente tal flagelo no universo humano.
É
uma conclusão que retiro desta leitura, que procurei também enquadrar no
ambiente bélico vivido nos tempos de Morus e que certamente muito o terá
impressionado.
De facto, e apenas em termos muito
sintéticos, nos finais do séc XV e na transição para o seguinte, assistiu-se a
uma rapidíssima e intensa mudança tecnológica na chamada arte da guerra, com o
consequente aumento da violência, dos espaços envolvidos e do número de vítimas.
O Homem que, durante milénios, tinha contado apenas com o poder destruidor da
força dos seus músculos e dos de alguns animais (cavalo, elefante, camelo,
etc.), começou, nos finais do século XIV, na Europa, a usar a energia da
pólvora negra, descoberta na China cinco séculos antes, mas mantida em estado
dormente. O quase inviolável castelo do senhor feudal foi destruído pelo
canhão, usando a potência da “nova” mistura negra.
A
Idade Média, segundo alguns pensadores, termina com este evento, mas também com
a era da evolução tecnológica rápida que se inicia com a viagem de Vasco da
Gama (contemporâneo de Morus), conforme opinião do Prof. Daniel Boorstin, no
seu maravilhoso livro “The Discoverers”. O Homem passa a contar com um poder
muito maior e com a capacidade de o levar cada vez mais longe. Se for usado
para o bem, a dignidade do Homem sai elevada, mas o oposto também pode
acontecer. E é muito curioso que Morus tenha reflectido com muita atenção sobre
as descobertas portuguesas em plena fase de expansão, percebendo, certamente,
que podiam contribuir para a divulgação da palavra de Deus, se fossem bem
aproveitadas, mas que também poderiam ter um sentido inverso.
Se
tentarmos, agora, alargar essas preocupações de Morus até aos nossos dias, não
me restam dúvidas de que é pertinente fazê-lo. Na verdade, o desenvolvimento
tecnológico de que Morus se apercebeu nunca parou de crescer e, até, tem
acontecido a um ritmo cada vez mais intenso. A energia utilizável exterior aos
músculos animais, que na altura tinha apenas passado para a mistura física da
pólvora negra, salta, no século XIX, para a transformação química de moléculas
com a obtenção de muito mais poderosos explosivos, que contaram, entre outros
com o grande contributo de Alfredo Nobel. A dinamite, a partir da
trinitroglicerina, o trinitrotolueno (TNT), as pólvoras nitroglicéricas e
nitrocelulósicas, etc. constituem apenas alguns exemplos de produtos explosivos
intensamente usados até aos nossos dias e com a capacidade da libertação muito
rápida de quantidades de energia incomparavelmente maiores do que as dos
produtos anteriores. De forma paralela, apareceram as máquinas de combustão interna
e externa aplicáveis aos transportes terrestres, marítimos e aéreos.
A
guerra aumenta exponencialmente de violência e passa, facilmente, a poder ter
lugar cada vez mais longe dos centros de decisão. O poder do Estado passa a
poder aplicar-se a muito maiores distâncias, com muito mais capacidade
destruidora e com consequências terríveis.
Tenho,
na memória, para vos dar um exemplo que vivi pessoalmente, o horroroso poder
destruidor de uma pequena porção de explosivo químico. Cerca de 100 g de TNT de
uma mina antipessoal soviética, na Guiné, cortaram um pé e metade da perna a um
fuzileiro naval, meu companheiro. No mesmo conflito, testemunhei o afundamento de
um navio nosso, a lança de desembarque média 302, construída em ferro, com
tiros de granadas da mesma proveniência, que não continham, cada uma, mais do
que meio quilo daquele alto explosivo, ou de outro semelhante.
Nas
duas guerras mundiais que explodiram na Europa, as maiores bombas aéreas que
arrasaram cidades e mataram milhões de pessoas teriam, as maiores, algumas (2,3),
centenas de quilos de explosivos químicos de moléculas complexas, como TNT,
RDX, PETN, etc.). Mais recentemente, em 1982, o míssil Exocet, e foi apenas um,
que afundou o “destroyer” britânico “Sheffield” no conflito das Falklands, não
teria mais do que o equivalente a 150 quilos de TNT.
Contudo,
ainda antes do final da Segunda Guerra Mundial, o Homem tinha sido capaz de dar
o salto para outro patamar, ainda muito mais alto, da energia destruidora,
conseguindo passar da transformação de moléculas, para a manipulação de átomos,
cisão ou fusão.
A
cisão em cadeia de átomos de metais pesados, como U235, liberta quantidades de
energia incomensuravelmente maiores. A prova foi a bomba de U235 lançada sobre
Hiroshima no que constituiu, praticamente, o final da Segunda Guerra Mundial. A
sua potência é estimada em, pasme-se, 22 mil toneladas de TNT. A de Nagasaki,
usando 60 quilos de Plutónio, também de cisão, demonstrou dispor de potência
semelhante. Os seus quatro efeitos: onda de sopro, onda de calor, impulso
electromagnético e irradiações (alfa, beta e gama), mataram, cada uma delas,
mais de 100 mil pessoas e destruíram a quase totalidade das cidades alvo.
É
aterrador que, em pouco tempo, se tenha passado de armas com escassas centenas
de quilos de explosivos para outras com poder destruidor equivalente a dezenas
de milhares de toneladas de TNT. E o pior é que esse crescimento não parou.
De
facto, além da cisão do átomo de metais muito densos, descobriu-se ainda que,
da fusão de átomos leves, como os de hidrogénio, seria possível obter energia
em quantidades incomensuravelmente maiores com as chamadas reacções termonucleares,
ou bombas de hidrogénio.
Existem, hoje, no mundo muitos milhares
de ogivas nucleares com potências aterradoras. Por exemplo, há mísseis lançáveis
de submarinos ou de bases em terra com potências destruidoras equivalentes, apenas
cada um, da ordem das duas centenas de “Hiroshimas”.
Interrogo-me
sobre o que poderá acontecer à Humanidade e também ao giroscópio, chamado
Planeta Terra, se essas armas termonucleares forem usadas. E aqui, já não
estaremos perante questões de natureza económica, mas sim de sobrevivência de
vastos grupos humanos, quando não mesmo de toda a humanidade…
Tomás
Morus, certamente, que hoje estaria ainda muito mais preocupado com a guerra e
faria reflexões seguramente ainda mais intensamente sábias de alerta para tão
tremendo pavor. Cabe-nos, seguindo o seu avisado conselho, reflectir sobre o
problema e sobre os comportamentos que devemos adoptar para difundir e seguir
as suas ideias, adaptadas ao quadro de situação actual.
E
a importância da reflexão aumenta ainda mais se pensarmos que houve homens que
nem sequer precisaram da energia dos átomos para liquidarem milhões de seres
humanos, como aconteceu em Auschwitz, Dachau, nas estepes siberianas, etc.
Por
isso, considero muito relevante e altruísta o exemplo da Universidade Católica
Portuguesa de relembrar a extraordinária obra “Utopia” e de promover a iniciativa
que estamos a viver de reflexão sobre as suas várias dimensões. Espero que seja
uma acção que frutifique e que contribua para um universo menos perigoso e mais
respeitador da dignidade e da vida humana.
Que
São Tomás Morus nos ajude a seguir, com ventos favoráveis, o rumo certo dessa
rota e nos proteja dos escolhos que possa conter.
São os desejos sinceros de um velho
marinheiro que viveu a guerra!!!
25/11/2016
Nuno
Vieira Matias
Alm
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