Para um ser humano bom, apenas o bem
tem verdadeira relevância, tudo o mais é secundário. Mesmo o mal. Sobretudo o
mal.
Os seres humanos fortes apenas
reverenciam o bem: nunca tais seres aceitariam reverenciar o mal, o que seria
para eles duplamente blasfemo, humana e metafisicamente. Aqui, crentes e ateus
encontram-se: os crentes sabem que estão perante isso que, só, é Deus; os ateus
perante isso que, se não estivesse submetido ao tempo, seria Deus: o bem
absoluto e o absoluto da positividade de ser em cada coisa, também em cada ser
humano.
Os fracos, esses, prestam culto ao mal,
a ele se escravizam, precisamente porque são
fracos. Não há ateus do mal: todos os que dão prevalência ao mal,
imediatamente o adoram, assim se tornando crentes de e num falso deus que mais
não é do que não uma projecção, que nunca existe, mas a realização humana da
tendência parasita e tirânica que cada ser humano consigo transporta e que tão
bem simbolizada está no mito do cobarde falhanço ético de Adão e Eva: todos nós
em potência.
O fraco e cobarde, perante o mal que
existe no mundo, imediatamente pergunta «onde está Deus?» e compraz-se em tão
inteligente interrogação, por aí se quedando, muitas vezes a repetindo até à
náusea. O corajoso, imediata ou mediatamente – porque a sua atitude dá
trabalho, implica sempre mediações, algumas que têm de ser por si criadas –, faz algo para contrariar tal presença.
No fim desta liturgia, se ainda tiver forças para perguntar onde está Deus,
pode perceber que Deus, no seu caso, estava onde estava o seu próprio trabalho,
a sua própria acção.
No que diz respeito à questão do mal extremo
que foi operado pelos nazis contra todos os que, seguindo o exemplo de Hitler,
elegeram como seus inimigos,[1]
muitas vezes se pergunta também: «onde estava Deus?». Ora, a questão que se
deve suscitar não é essa, que supõe um agente longínquo ou que, pelo menos,
cuja presença mundana não é óbvia, mas esta outra: «onde estavam os seres
humanos quando tal aconteceu?».
Quando se diz que, depois de Auschwitz
(como se Auschwitz fosse único ou mesmo o pior dos campos de morte – o pior dos
campos foi Treblinka, onde todo o processo foi levado até ao fim, isto é, em
que houve um real triunfo de Hitler), já não se pode falar de isto e daquilo,
está-se perante precisamente uma posição de fracos, posição tipicamente
semelhante à dos que, tendo podido, na altura, sob alguma forma, fazer algo
para minorar ou aniquilar tal mal, não o
fizeram.
Este tipo de questionamento não é feito
pelos que lutaram precisamente em Treblinka e venceram ou no gueto de Varsóvia
e venceram, pois, mesmo tendo quase todos morrido, morreram com a dignidade humana posta no mais alto grau que pode
alguma vez atingir e, nisso e com isso, derrotaram
a besta do mal, as bestas que operaram o mal e as bestas, não menos
indignas ou culpadas, que nada fizeram para ajudar ao e no combate.
Aristides de Sousa Mendes, tendo ou não
perguntado em seu imperscrutável íntimo, onde estava Deus, esse Deus que fora
ensinado a adorar como o Deus do bem, não se contentou com a satisfação
psicológica e pseudo-intelectual da questão: no meio do barulho da guerra, bem
junto da sua frente, no local mais apetecido pelas tropas germânicas, pois era
onde estava o governo de França – o mesmo local de onde, nesse mesmo dia da
tomada de decisão, de Gaulle escapou, para continuar a luta junto do aliado
britânico –, Aristides soube honrar esse Deus de bem em que acreditava com o
único acto que faria honra a tal Deus, a tal crença, a tal crente: por todos os
meios humanamente decentes trabalhar para conseguir o maior bem possível, isto
é, salvar das garras da besta nazi o maior número possível de pessoas.
De
«pessoas»: eis o ponto
fundamental.
Aristides acreditava que estava a lidar
com pessoas, entes feitos à imagem e semelhança de Deus. Não interessava que
pessoas eram politicamente, exteriormente, pois interiormente todas, para
Aristides, eram criaturas de Deus, seus semelhantes por acto de amor, de
caridade extrema, de divina misericórdia. Se eram judeus ou algo qualquer de
diferente, tal não interessava. Os judeus não são mais ou menos humanos do que
quaisquer outros seres humanos, do que um arquiduque cristão ou do que um
magnata francês ateu, por exemplo. Todos são pessoas e todos merecem, porque são pessoas, ser salvas de um mal
que as transcende e que, por tal, nunca lhes deveria ter batido, de forma
alguma, à porta.
Os que Aristides salvou haviam sido
eleitos como inimigos pelos nazis. Não interessavam (e não interessam) as
razões de tal inimizade. Tal inimizade punha a vida de tais pessoas em risco,
sem que estas tivessem responsabilidade ou culpa alguma de tal. Eram, deste
ponto de vista, inocentes. Ora, um homem como Aristides, tendo em seu poder a
capacidade de salvar estes inocentes, nunca deixaria de o usar. Este homem
limitou-se a tornar-se no melhor homem possível que trazia em si como sua
possibilidade, na relação com o todo da possibilidade do real, que, agora, lhe
batia à porta, na forma da possibilidade de uma missão. Soube, como muito
poucos ao longo da história da humanidade, estar ao nível de tal tarefa.
Do lado dos que elegeram tais pessoas
como inimigas, no nível burocrático imediatamente inferior ao do próprio
Hitler, encontramos a pessoa de Heinrich Himmler, chefe máximo da SS, entre
outras atribuições do mais alto nível, responsável pela implementação e governo
dos campos de concentração e de extermínio e, em última análise, obreiro
fundamental da «solução final» quer para a «questão judaica» quer para todos os
que os senhores do Reich nazi haviam
elegido e constantemente elegiam como inimigos.
Um exemplo tristemente claro do modo
como estes inimigos eram eleitos pode ser encontrado nas memórias diarísticas
de Goebbels, mostrando como qualquer ser humano que não correspondesse ao que
os senhores do Reich queriam poderia
ser e era posto na lista dos inimigos, isto é, relembremos, daqueles a aniquilar. Numa conversa entre
Goebbels e Himmler, a propósito de um grupo chamado «Estudantes Internacionais
da Bíblia», que se recusava a empunhar armas: «[…] objectores ao serviço
militar que estão em idade de mobilização devem ser condenados à morte por
cobardia e deserção.» (parágrafo completo e sua tradução em nota).[2]
A propósito de uma «questão
secundária», certamente muito «primária» para os afectados, podemos perceber o
modo absolutamente tirânico como funcionava o nazismo: qualquer ser humano que
caísse sob a classificação de «indesejável» para o Reich ou para alguém no Reich
com poder para tal, era imediatamente posto como inimigo do Reich e ou internado sob a forma da escravatura
num campo de «trabalho» ou fisicamente eliminado, aniquilado como um perigo
para o mesmo Reich.
Este triste exemplo mostra como não se
tratava apenas de grandes grupos de seres humanos como os judeus ou os
comunistas ou os ciganos, os homossexuais, os resistentes políticos vários:
bastava ser-se possuidor de princípios contraditórios com o que os senhores do Reich consideravam ser os princípios
certos. Bastava ser-se um pacifista fundado na interpretação da Bíblia. De
notar que quer Himmler quer Goebbels, protagonistas desta conversa, tiveram
ambos educação cristã-católica, provavelmente não muito boa ou não muito bem
assimilada, se boa.
No entanto, o que se tem de perceber, é
que é precisamente a questão fundamental dos princípios que está aqui em causa
se se quiser mesmo perceber a acção quer de Himmler quer de Aristides de Sousa
Mendes. E princípios literalmente contraditórios, logo, necessariamente e
também literalmente antagónicos, no sentido de estarem necessariamente numa
luta de vida ou de morte. Cada um a seu modo, Himmler e Aristides o perceberam
e agiram segundo precisamente tais princípios.
Então, que princípios são esses?
Em primeiro lugar, há que situar a
questão no nível ontológico em que deve estar: não se trata de um conflito de
valores, como frequentemente se diz: não são os valores do nazismo contra os
valores do Ocidente variegadamente adjectivado. Não é uma questão meramente
cultural, mas diz respeito a isso sobre que se fundam as culturas, como Hitler
bem percebe no seu Mein Kampf. É uma
questão metafísica de princípios, que, antes de serem do tipo moral e político,
são do tipo onto-cósmico, isto é, estruturantes do próprio cosmos, do próprio
mundo.
O
mundo nazi e o mundo comum têm princípios fundamentais incomuns e
incompatíveis.
Poucos foram os que antes da guerra e
no início da guerra perceberam tal; entre eles, temos, como mais destacado,
Winston Churchill, que dedicou quase uma década a denunciar tais perversos
princípios, e Aristides de Sousa Mendes, que, sabendo o que tais princípios
significavam, agiu de modo a, já que não os podia combater directamente, combatê-los
indirectamente, sonegando as vítimas aos expectantes carrascos.
Aquilo a que Churchill chama «os
pilares de granito» do nazismo e que constituem o seu fundamento principial
pode ser resumido muito brevemente nos seguintes pontos:
A tese
principal de Mein Kampf é simples. O
homem é um animal lutador; assim sendo, a nação, sendo uma comunidade de
lutadores, é uma unidade de combate. Qualquer organismo vivo que cesse de lutar
pela sua existência está condenado à extinção. País ou nação que cessem de
lutar estão igualmente condenados. A capacidade de luta de uma raça depende da
sua pureza. Daqui, a necessidade de a libertar de conspurcações vindas do
exterior. A raça judaica, devido à sua universalidade, é, por necessidade,
pacifista e internacionalista. O pacifismo é o mais mortal dos pecados, pois
significa a rendição da raça na luta pela existência. O primeiro dever de
qualquer país é, assim, o de nacionalizar as massas. A inteligência, no caso do
indivíduo, não é de primeira importância; vontade e determinação são as
qualidades principais. O indivíduo que nasceu para comandar é mais valioso do
que os incontáveis milhares de naturezas subordinadas. Apenas a força bruta
pode assegurar a sobrevivência da raça; daqui, a necessidade de uma matriz
militar. A raça deve lutar; uma raça inactiva deve enferrujar e perecer. Se a
raça Alemã tivesse estado unida em devido tempo, já seria senhora do globo. O
novo Reich deve recolher no seu seio todos os elementos Alemães dispersos pela
Europa. Uma raça que sofreu a derrota pode ser salva através da restauração da
sua confiança em si própria. Acima de todas as coisas, o Exército deve ser
ensinado a acreditar na sua mesma invencibilidade. Para restaurar a nação
Alemã, o povo deve estar convencido de que a recuperação da liberdade pela
força das armas é possível. O princípio aristocrático é fundamentalmente
correcto. O intelectualismo é indesejável. O fim último da educação consiste em
produzir um Alemão que possa ser convertido, com um mínimo de treino, num
soldado. As grandes sublevações na história teriam sido impensáveis não fora a
força motriz das paixões fanáticas e histéricas. Nada poderia ter sido
efectuado pelas virtudes burguesas de paz e ordem. O mundo está presentemente a
mover-se no sentido de uma tal sublevação, e o novo Estado Alemão deve proceder
de modo a que a sua raça esteja pronta para as derradeiras e mais grandiosas
decisões sobre esta terra. A política externa deve ser totalmente sem
escrúpulos. Não é tarefa da diplomacia permitir que uma nação se afunde
heroicamente, mas, antes, proporcionar que possa prosperar e sobreviver. A
Inglaterra e a Itália são os dois únicos aliados possíveis para a Alemanha.
Nenhum país entra para uma aliança com um Estado cobardemente pacifista,
dirigido por democratas e Marxistas. Se a Alemanha não esgrimir em seu próprio
benefício, ninguém o fará por ela. As suas províncias perdidas não podem ser
recuperadas por meio de solenes apelos ao Céu ou de piedosas esperanças postas
na Liga das Nações, mas apenas através da força das armas. A Alemanha não deve
repetir o erro de lutar contra todos os seus inimigos ao mesmo tempo. Deve
isolar o mais perigoso e atacá-lo com todas as suas forças. O mundo só deixará
de ser anti-Alemão quando a Alemanha recuperar a igualdade de direitos e
retomar o seu lugar ao sol. Não deve haver qualquer sentimentalismo
relativamente à política externa da Alemanha. Atacar a França por causa de
razões puramente sentimentais seria uma tolice. Do que a Alemanha precisa é de
um aumento de território na Europa. A política colonial anterior à guerra foi
um erro e deve ser abandonada. A Alemanha deve procurar expandir-se para a
Rússia, especialmente para os Estados Bálticos. Nenhuma aliança com a Rússia
pode ser tolerada. Travar guerra em conjunto com a Rússia contra o Ocidente
seria criminoso, pois o objectivo dos Soviéticos é o triunfo do Judaísmo
internacional. Tais eram os “pilares de granito” da sua política.[3]
O que Hitler propõe e depois executa
sem vacilar, mesmo quando, para atingir o seu fim último, parece entrar em
compromissos que o afastam de tal fim, é uma recosmicização do mundo, passando
este a ser, a mais ou menos breve trecho, ou um Reich pleno, o seu Reich,
ou algo em que o Reich imperasse e o
restante servisse como coisa ancilar ou mesmo literalmente escrava.
Os fins são claros – eram muito claros
para Churchill, como se pode constatar – e os meios usados também. O que Hitler
e os seus milhões de subordinados fizeram foi pôr tais princípios em prática. O
que Himmler fez relativamente aos objectores de consciência acima aludidos foi
consequente com tais princípios: se se quer um povo acima de tudo lutador, como
é que se pode não eliminar quem se recuse a ser lutador, como, se tais entes se
querem realizar contraditoriamente aos princípios do Reich?
Assim, há que os matar. E Himmler,
coerente com tais princípios, matou-os, ou mandou-os matar, o que, para o nível
de poder que ocupava, é etiologicamente o mesmo.
Era este o “bem” que Himmler servia,
com o qual se comprometeu.
Outro bem era o servido pelo
compromisso de Aristides de Sousa Mendes: o
bem absoluto do direito a ser.
Pergunta-se: onde é que alguém vai
buscar a ideia de que tem o direito de dispor da vida e absoluto da existência
de outrem apenas porque, em última análise, assim o quer?
Note-se que, assumindo universalmente
este direito, se assume o poder, que é sempre real – isto é, eu posso sempre
eliminar outrem, a questão não é se posso, pois posso, mas se me compete, se
devo –, de vida e de morte sobre todos os que estão sob a nossa alçada física. E este ponto é não só muito importante
como verdadeiramente fulcral.
Os refugiados que afluíam a Bordéus,
nos dias do avanço fulminante dos exércitos nazis França dentro, fugiam porque
precisavam de estar fisicamente fora do
alcance dos nazis. De nada lhes serviria qualquer outra forma de
«distância», sempre metafórica quando comparada com o que é, nesta tipificação
de acção política, a mediação espacial a que a distância física corresponde. A
«distância jurídico-diplomática» de nada serviria se se fosse capturado e
fuzilado.
Não se pode é ser fuzilado ou submetido
a qualquer outra forma de morte ou de medida degradante se não se estiver
fisicamente presente onde tais acções são possíveis.
Pode, deste modo, compreender-se melhor
a efectividade da acção que Aristides de Sousa Mendes resolveu empreender: ao
fornecer os meios diplomáticos necessários às pessoas necessitadas permitia-lhe
o bem essencial que era a distância física relativamente aos prováveis
carrascos, que as aprisionariam, escravizariam e, em muitos casos, aniquilariam
tudo isto fisicamente.
Há
um realismo estrutural fundamental na acção de Aristides. Mas apenas um tal realismo
construtivo se poderia opor eficazmente ao realismo destrutivo dos que se
queriam desfazer de tudo o que não lhes caísse sob o seu favor.
Este favor, cuja razão fundamental é a
teoria recosmicizadora posta em Mein
Kampf, implica uma forma de selecção dos seres humanos viáveis e não
viáveis. O que se pretendia e que era necessário para a refundação do mundo
humano e do mundo como um todo era um controlo
absoluto do processo da vida. Na obra The
Nazi doctors,[4] podemos ler:
«Assim, para Hans Frank, jurista e Governador Geral da
Polónia durante a ocupação nazi, “os Judeus eram uma espécie inferior de vida,
um tipo de vérmina, que, através do contacto, infectava o povo Alemão com
doenças mortais.” Quando os Judeus na área que governava tinham sido mortos,
declarou que “agora, uma Europa doente iria de novo ficar saudável.”».
De notar que Franck, um dos
maiores assassinos da Segunda Grande Guerra, não apenas professava tal teoria
como a pôs em prática com resultados excelentes em termos nazis. O espaço vital
a Leste, o primeiro Lebensraum a
conquistar para os Alemães que correspondessem ao novo tipo biológico, era
imediatamente limpo dos elementos humanos indesejáveis assim que era
militarmente possuído. A única diferença residia em que, em certos sítios, por
conveniência industrial, alguns desses elementos, os economicamente viáveis em
termos energéticos, eram provisoriamente usados como peças da maquinaria
industrial, especialmente a militar, a fim de lhes retirar a energia restante
em benefício do Reich, antes de os
matar. Assim aconteceu sistematicamente no anexo industrial de Auschwitz,
chamado Birkenau. Mas assim não aconteceu em Treblinka que foi exclusivamente
um campo de morte acelerada. Este teria sido o padrão universal, não fossem as
necessidades energéticas em mão-de-obra da Alemanha, que usou não apenas estes
escravos, mas também pessoas de países conquistados forçadas a ir trabalhar em
empresas dedicadas ao esforço geral de guerra. Foram vários milhões. De notar,
ainda, que esse que foi o herói americano da conquista do espaço, Werner von
Braun, usou desta mão-de-obra escrava conscientemente nas fábricas de suas
armas V1 e V2. Ironias de uma história construída por seres humanos sem
vergonha.
O texto sobre a ambição biológica totalitária
do nazismo continua assim:
«Era uma religião da vontade – a vontade como “um princípio
metafísico omniabrangente” e o que os Nazis “queriam” era nada menos do que o
controlo total sobre a vida e a morte.».
Foi esta grandeza, positiva para os nazis,
negativa para a restante humanidade, que Churchill percebeu muito cedo, pela
leitura de Mein Kampf, e que muito
cedo começou a denunciar. Foi deste princípio “metafísico” perverso, sobre o
qual se construiu uma máquina de matança industrial gigantesca e
universalizável até que a tarefa estivesse universalmente pronta, que Aristides
de Sousa Mendes livrou os seres humanos que teve a decência de salvar,
precisamente em nome de outro princípio metafísico, o de que a vida transcende
todo o poder humano e assim deve continuar.
Mas a análise tem de prosseguir para
que se perceba o pormenor do que está em causa. Continua assim o texto que nos
serve aqui de guia:
«Embora esta perspectiva seja muitas vezes referenciada como
“darwinismo social”, aqui o termo aplica-se apenas de forma vaga, sobretudo ao
ênfase Nazi no que diz respeito à “luta” natural e à “sobrevivência dos mais
aptos”. De facto, o regime rejeitava muito do darwinismo; como a teoria da
evolução é mais ou menos democrática na sua suposição de um começo comum para
todas as raças, está, assim, em contradição com o princípio nazi de inerente
virtude racial dos arianos. Ainda mais específica da visão biomédica era a crua
imagética genética, combinada com ainda mais cruas visões eugénicas […]. Aqui,
Heinrich Himmler, como sumo-sacerdote, referiu-se à tarefa da chefia como sendo
“a do especialista em reprodução de plantas que, quando quer produzir uma nova
estirpe pura a partir de uma espécie que já tenha dado provas, mas que tenha
ficado exaurida por causa de muita reprodução cruzada, primeiro vai até ao
campo para eliminar as plantas indesejadas.”».
Encontramos, de novo, Herr Heinrich Himmler definindo
metaforicamente a metodologia que originou o método empregue ainda antes do
início do conflito bélico mundial, através de programas de selecção, primeiro
experimental, depois já em processo de aplicação industrial, de indesejados
para abate: deficientes vários, incluindo crianças ao cuidado do Estado Alemão.
Estas primeiras experiências revelaram-se algo desastradas, sendo os métodos
aplicados muito ineficientes em termos da quantidade de produção atingida, isto
é, do número de pessoas que conseguia efectivamente matar.
A solução final foi encontrada em
Auschwitz, através da combinação do método dos chuveiros, que vem das primeiras
experiências em hospitais, com a utilização de ácido prússico sólido: os
chuveiros serviam de engodo metafórico para atrair as pessoas de forma calma às
salas de morte, onde eram despejadas grandes quantidades de sais de ácido
prússico que, por sublimação, libertavam gás venenoso que, ao fim de pouco
tempo, conseguia matar cerca de duas mil a duas mil e quinhentas pessoas de
cada vez em cada sala, em excruciante agonia.
Foi para aqui que Heinrich Himmler as
mandou. Foi de um destino semelhante variegadamente que Aristides salvou cerca
de trinta mil. De facto, é esta a marca distintiva entre estes dois homens.
Mas a análise tem de continuar:
«O projecto Nazi, deste modo, não era assim tanto darwinista
ou darwinista social, mas uma visão de controlo absoluto sobre o [5]processo
evolucionário, sobre o futuro biológico humano. Fazendo um uso alargado do
termo darwiniano “selecção”, os Nazis procuraram tomar para si as funções da
natureza (selecção natural) e de Deus (o Senhor dá e o Senhor tira) na
orquestração das suas próprias “selecções”, a sua própria versão de evolução
humana.».
Pensamos que este trecho situa a
questão precisamente onde os nazis a situaram: o combate (Kampf) é um combate metafísico pelo estabelecimento de novos
princípios de enquadramento cosmológico. Assim, o nazismo e as suas grandes
intenções profundas não são propriamente uma ideologia, mas uma nova metafísica
transcendental, que supõe para sua implementação novas ética, política,
religião, ciência geral e ciências particulares. Uma nova biologia, não apenas
epistemológica, mas fundamentalmente ontológica, uma biologia com apoio
científico, médico (Mengele, etc.), capaz não apenas de proceder à
classificação ontológica do diverso dos seres humanos, como, segundo a
expressão de Himmler, de edificar uma nova produção de seres humanos – e outros
– que obedeçam aos desígnios onto-biológicos dos senhores do Reich. Um verdadeiro Brave new world.
Para tal, havia que substituir o papel
onto-gerador da natureza, através de processos genéticos inovadores, todos eles
apontados para formas eugénicas, aliás, sempre praticadas pela humanidade quer
ao nível da botânica quer da zoologia quer mesmo da biologia humana.
Desde que existe, o ser humano
seleccionou em seu benefício primeiro animais, depois plantas, quando se tornou
sedentário, e sempre seleccionou os seus semelhantes, deixando viver
preferencialmente uns e deixando morrer preferencialmente outros, através de
processos como o aborto ou a preferência dada aos que queria aquando de
acontecimentos excepcionais que implicavam escolher quem deixar morrer e quem
deixar viver. Tais práticas ainda hoje se verificam de modo universal, desde o
comum serviço de urgências hospitalar, aos campos de batalha, à própria
família.
A selecção artificial nazi, disfarçada
de selecção natural de tipo darwiniano, insere-se numa tradição provavelmente
tão antiga quanto a própria humanidade. O que faz do nazismo algo de tão
diferente é precisamente o que o trecho acabado de citar mostra: assumir ocupar
os lugares da natureza e de Deus concomitantemente, como se tal não fosse
apenas possível, mas absolutamente imperioso a fim de criar um novo mundo
universalmente dedicado à raça ariana.[6]
Ora, só entenderemos bem quer a acção
de Aristides de Sousa Mendes quer a sua grandeza própria, se deixarmos de nos
preocupar com as mesquinhas relações com os homens mesquinhos que o tentaram em
vão impedir – mesquinhos e impotentes perante tanta força anímica –, se nos
preocuparmos com perceber que o que estava em causa era precisamente um
confronto de princípios metafísicos.
Por um lado, pessoas de extracção
católica que, renegando os princípios fundamentais do cristianismo, resolvem
perverter as regras universais naturais e divinas em seu benefício próprio,
satisfazendo um desejo de poder digno do mais diabólico ente, esse que está
perante o abismo da sua pequenez e quer engrandecer-se parasitando o bem
alheio, destruindo, matando, roubando bens e bem em sentido metafísico.
Por outro lado, um outro católico que
soube ser fiel, tangente mesmo ao paradigma Job, aos princípios transcendentes
e transcendentais do cristianismo, segundo os quais todo o bem vem de Deus e a
ele pertence em última análise, mas, enquanto posto como bem das criaturas,
deve nelas ser respeitado, absolutamente. Mormente na criatura humana, toda ela (todas elas) criada à imagem e
semelhança de Deus. Não compete ao ser humano fazer de Deus ou de natureza:
compete-lhe zelar pelo bem da natureza, através da cultura, liturgia ao bem
mundano que é liturgia de louvor a Deus. Tal foi, muito simplesmente, como
compete ao que deveria ser o vulgar cristão, o que Aristides fez: um acto de
liturgia ao bem na forma do serviço ao bem de pessoas, quaisquer politicamente,
mas todas queridas por Deus, metafisicamente, assim, todas elas especiais.
Enquanto Himmler manda o seu hortelão
para o campo eliminar as ervas humanas daninhas, Aristides é o hortelão que, à
semelhança de Deus, cuida dos lírios do campo. E cuidar é permitir, em absoluto,
que se seja. Aristides foi a mediação com que Deus cuidou daqueles lírios do
campo.
Todos os que foram sacrificados não o
foram porque Deus não cuidou deles, como certa vulgata néscia quer impor, mas
porque não encontraram hortelão à altura, como um Aristides.
Por outro lado, muitas outras pessoas
fizeram este trabalho de misericórdia, salvando talvez milhões de pessoas,
certamente centenas de milhar. De muitas delas a história – isto é, a
historiografia – não guarda memória, mas Deus conhece a história toda, nos seus
imensos detalhes. E foi esta consciência da sua acção perante Deus que agonizou
Aristides antes da tomada de decisão. Esta tomada, percebeu que Deus estava com
ele e que, assim, de nada importava se tudo o resto não estivesse: perante o
absoluto do bem, o resto é nada.
Na obra The Nuremberg Trial, surge o seguinte discurso de Heinrich Himmler:
«A política Nazi no Este foi aquela expressa por Himmler aos
seus Generais SS [Himmler era o chefe máximo desta tropa paramilitar de elite,
nota nossa]: “Quer as nações vivam em prosperidade ou morram à fome só me
interessa porque precisamos delas como escravas para a nossa cultura… Se 10.000
fêmeas Russas caírem de exaustão enquanto estiverem a escavar uma trincheira
anti-tanque ou não, apenas me interessa no que diz respeito à conclusão da
trincheira anti-tanque em benefício da Alemanha.”».[7]
Esta citação reforça o sentido bem como
a radicalidade da atitude política dos oficiais supremos do Reich perante as pessoas e os povos e
nações que haviam escolhido como entidades a abater, a menor ou maior longo
prazo, tendo como único interesse o que consideravam ser o bem da «cultura»
alemã, isto é, no novo mundo que estavam a criar, quais deuses, a partir dos
novos princípios cosmológicos instituídos por Hitler.
O número «10.000», que tem um
significado clássico, pois corresponde à «miríade» helénica, e anda muito
próximo de uma unidade de conta militar fundamental como a «legião» ou a sua
moderna sucessora, a «divisão», significa, claro, um “grande número” sobretudo
se se pensar que tal número se refere, para nós, a pessoas. Mas, para os nazis,
tal número tinha apenas um significado técnico e económico, como se se
estivesse a discorrer sobre o número de pregos gastos a fazer uma cofragem para
um Bunker ou algo de semelhante.
Mais significativa se torna esta
aritmética, se pensarmos que, tendo cada típica câmara de gás lugar para cerca
de 2.500 pessoas de cada vez, 10.000 é o número de seres humanos que necessita
da utilização de quatro destas salas ou da utilização de uma destas salas
quatro vezes. Assim, percebe-se que o número 10.000 é quase insignificante
quando comparado com a generalidade do massacre operado segundo estes novos
princípios, que terá atingido números na ordem dos doze a treze milhões de
seres humanos, sendo cerca de metade judeus. Para já não falar de todos os que
foram massacrados pelo desenvolvimento normal da guerra provocada pelos mesmos,
às mãos deles e de seus aliados, incluindo, numa primeira fase, os próprios
soviéticos.
Se tivermos em conta que Aristides de
Sousa Mendes permitiu que cerca de 30.000 pessoas pudessem escapar a esta
sorte, podemos perceber que salvou três vezes o equivalente a estas 10.000
«fêmeas» sem importância humana para Himmler, assim ajudando, indirectamente,
mas também directamente, pois alguns retornaram para combater, a derrotar
Himmler e isso que representava.
As pessoas que Aristides de Sousa
Mendes salvou equivalem a doze fornadas de seres humanos em Birkenau ou em
Treblinka. É isto, em toda a sua crueldade e humana obscenidade, que está em
causa. Invocar coisas mesquinhas como interesses diplomáticos de países
cobardes, dirigidos por gente cobarde, situando-os ao mesmo nível, é escolher a
pequenez burguesa do vulgar Sancho Pança, renegando a grandeza, divinamente
louca, mas profundamente aristocrática do ponto de vista do que de melhor a
humanidade possui, da necessária caridade, a que nada deve fazer obstáculo. Mas
Aristides de Sousa Mendes era um aristocrata, não pelo factor «sangue», que
pouco conta, mas pelo factor «espírito», isso que sabe discernir o melhor bem
possível, que nunca passa por sacrificar inocentes, sacrifício que, em termos
cristãos, é pecado contra o Espírito.
Mas a cobardia dos que se opuseram a
Aristides necessita de um comentário um pouco mais aprofundado, até porque se
mantém nos dias de hoje, perante cenário geo-político universal em muito
semelhante.
A razão pela qual Portugal estava numa
situação humilhante enquanto país no meio da confusão dos anos trinta da
vigésima centúria devia-se ao facto de não possuir meios de defesa militar
integrados capazes. Tal inevitavelmente obriga qualquer país a ter de ceder
perante qualquer chantagem sobre si exercida. Se Churchill teve oportunidade de
não querer entender-se com Hitler, querendo este um entendimento, deveu-se ao
facto de a Grã-Bretanha, em parte ainda devido aos esforços do próprio
Churchill – alguns anteriores à Primeira Grande Guerra – no que dizia respeito
ao armamento e forças militares: sem a sua potentíssima Marinha, a Grã-Bretanha
teria tido de se inclinar perante o tirano nazi.
Ora, Portugal estava – como está hodiernamente –, num mundo sempre
ameaçado por guerras, guerras que não se convidam, mas que nos podem bater à
porta, ou mesmo entrar sem à porta bater, desarmado.
As suas forças armadas não passavam de um triste conjunto de marionetas para
desfilar perante governantes néscios e consequentemente incompetentes.
Se Portugal estivesse militarmente preparado
como, por exemplo, a Suíça, a sua posição teria sido muito diferente, não tendo
de assumir uma atitude cobarde e, com ela, tudo justificar, mesmo as mais
flagrantes faltas de sentido humanitário.
A acção de Aristides nunca teria
assustado os governantes de um país que estivesse em condições de se defender,
obrigação de todos os países. Quanto a meios económicos, só não existiam porque
ninguém se deu ao trabalho de fazer frutificar as muitas riquezas que o país
possuía, algumas delas aproveitadas pelos beligerantes. Mas a maior riqueza de
um país é sempre a sua inteligência, o que não abunda, salvo raras excepções,
geralmente na oligarquia que governa desde tempos imemoriais Portugal.
A coragem de homens e de mulheres da fibra
de Aristides de Sousa Mendes – relembremos, de entre milhares, muitos para
sempre desconhecidos, o já citado Churchill («we shall never surrender») e
Charles de Gaulle – foi imprescindível para derrotar a bem organizada máquina
de guerra e de extermínio nazi, cuja principal força residia em algo
perigosamente parecido com a coragem, a obstinação. E Himmler, a par com o
próprio Hitler, era um campeão da obstinação. O excerto seguinte, da lavra de
Martin Gilbert, ajuda-nos a perceber a determinação aplicada na matança dos
indesejados. O programa pseudo-científico de eliminação, através de uma «morte
misericordiosa», de tudo o que não tivesse puro sangue alemão, Programa Eutanásia, estava a fraquejar:
«Para Hitler e os Nazis, a palavra “Asiático” era sinónimo
de “bárbaro”. No entanto, no interior da Alemanha, havia muitas pessoas, com
médicos e sacerdotes entre elas, que tinham começado a caracterizar o próprio
programa de eutanásia Alemão como bárbaro. Alguns protestos escritos tinham
chegado junto de Hitler; outros tinham circulado clandestinamente. Vexado,
Heinrich Himmler disse ao Dr. Brack e ao Dr. Bouler a 19 de Dezembro [de 1941]:
“Se a Operação T4 [Eutanásia] tivesse sido confiada às SS, as coisas ter-se-iam
passado de modo diferente. Quando o Führer nos confia uma tarefa, sabemos como
lidar com ela correctamente, sem causar clamor inútil no povo.” Este “clamor
inútil” iria brevemente obrigar Hitler a abandonar o programa eutanásia, embora
não antes de cerca de 50.000 “deficientes”, incluindo vários milhares de
crianças, terem sido mortos. Mas Himmler e os seus homens SS iriam receber uma
nova “tarefa” para desempenhar ainda antes de meio ano ter passado.»[8]
Himmler dirigiu, com uma eficácia digna
das melhores organizações burocráticas, um conjunto de instrumentos policiais e
para-militares, a que estavam associadas empresas industriais e outros
colaboradores institucionais, que implementou aquilo que era a verdadeira
nazificação do mundo que – primeiro apenas as forças armadas regulares, depois
também as suas forças paramilitares – os enviados do Reich iam para este conquistando. A tarefa de Himmler era colossal,
digna de um demiurgo: transformar física e culturalmente todo o «espaço-vital»
que era posto sob a sua responsabilidade.
Lembremo-nos de que esteve muito
próximo de realizar na sua plenitude a primeira fase que consistia na limpeza
dos primeiros indesejados: judeus, ciganos, comunistas, homossexuais, etc. Em
Treblinka, tal foi mesmo conseguido, representando o maior triunfo nazi, de que
o nazismo poderá sempre gabar-se: este foi derrotado (provisoriamente, em
1945), mas isso que consideram ser a glória de Treblinka ninguém lho pode
tirar.
Sem a oposição de alguns heróis, como o
famoso Schindler, o triunfo teria sido muito mais amplo.
Ora, o que Aristides de Sousa Mendes
conseguiu, e com uma eficácia que não só não ficou atrás da alemã-nazi, mas que
a superou herculeamente, foi ter contribuído para a derrota provisória do
nazismo através do afastamento físico de trinta mil possíveis e muito provavelmente
certas vítimas.
Este deveria ter sido o procedimento
adoptado por todos os que estavam do lado da humana decência, pois, ao negar objectivamente os possíveis objectos da
acção de Himmler e seus émulos, estrategicamente estar-se-ia a antecipar uma vitória
fundamental do ponto de vista não apenas político, mas, sobretudo, no que diz
respeito aos princípios fundamentais pelos quais a humanidade se deve reger, se
quiser continuar a merecer o nome de humanidade.
A vitória de Aristides de Sousa Mendes
foi uma vitória segundo os princípios e uma vitória estratégica numa altura em
que os defensores da humana decência apenas somavam derrotas (situação que
durou até meados de 1942). Se salvar cerca de 300.000 combatentes uns dias
depois de Aristides ter salvo os seus 30.000 é considerado uma vitória
estratégica – que o é, embora pareça uma derrota –, então, que dizer da
retirada, não das praias de Dunquerque, mas das ruas de Bordéus e arredores?
Tudo pela acção não de uma força militar, mas de um só homem e de um punhado de
seus colaboradores. Mas tudo por causa da indefectível vontade de um só homem.
O que queremos deixar bem claro, de
novo, é que, para poder vencer homens perversos com o vigor anímico de um
Himmler ou de um Hitler, são necessários seres humanos com um vigor moral como
Aristides de Sousa Mendes: sozinhos são tão eficazes como um exército.
Terminamos com referência ao capítulo
da obra de Andrew Roberts The storm of
war. A new history
of the second world war, intitulado «The everlasting shame of mankind,
1939-1945»: «A eterna vergonha da humanidade».[9]
«Embora acaloradamente debatida pelos historiadores, a data
exacta em que Hitler ordenou a Heinrich Himmler que destruísse a raça Judaica
na Europa através do uso industrializado dos Verninchtungslager (campos de extermínio [nós preferiríamos “aniquilação”]
é, na realidade, quase imaterial. Hitler
tinha sempre sido, segundo a frase do historiador Ian Kershaw, “o supremo e
radical porta-voz de um imperativo ideológico” de destruir os Judeus. Uma
ameaça sem margem para erro tinha sido feita ainda antes do começo da guerra, a
30 de Janeiro de 1939, quando disse ao Reichstag: “No decurso da minha vida
tenho sido muitas vezes um profeta e tenho sido usualmente ridicularizado por
tal. Hoje, serei mais uma vez profeta; se os financeiros Judeus internacionais
dentro e fora da Europa conseguirem mais uma vez mergulhar o mundo numa guerra,
então, o resultado não será a Bolchevização da terra, e, assim, a vitória da
Judiaria, mas a aniquilação da raça Judaica na Europa!»[10]
Este trecho de discurso, que não é um
desabafo ou uma conversa de café, mas tem a formalidade de ser dirigido à
assembleia dos representantes do povo alemão, marca um ponto absolutamente
incontornável quanto à finalidade que Hitler tinha para os Judeus. Aliás, se
bem que improvável, não será despiciendo especular que o avanço prematuro para
a guerra, com a máquina militar alemã ainda muito frágil em comparação com o
que poderia ser dali a dois ou três anos, foi devido ao facto psicológico de
Hitler não querer ou mesmo poder esperar mais pelo momento em que pudesse pôr
em marcha a Vernichtung dos judeus.
Também é conhecido o modo ambíguo e
informal como Hitler dava ordens, muitas vezes expressando em voz alta perante
os seus homens-de-mão certos desejos, que estes, por vezes à compita,
procuravam executar o melhor possível, a fim de agradar ao seu amo e senhor. A
decisão do debate acalorado que Andrew Roberts menciona no trecho citado pode
ter passado por uma destas vocalizações informais. Mas, de facto, o tema é, no
seu pormenor, desinteressante.
O que interessa é que Himmler de algum
modo recebeu ordem ou uma forte sugestão de Hitler para avançar com o
extermínio industrial dos judeus e outros indesejados. De notar que, desde o
início da invasão da parte leste da Europa, já se usavam métodos de morte em
quantidades maciças, que eram caros, ineficazes e ocasionavam muitas baixas
psicológicas entre as tropas que os administravam. O processo de morte
industrial foi possível por causa da investigação levada a cabo em Auschwitz
velho pelo segundo comandante do campo, que teve a intuição de usar os tais
sais de cianeto de potássio utilizados para exterminar pragas de insectos de
forma industrial. Tal resultou, Himmler aprovou pessoalmente e os engenheiros
do Reich prepararam o resto.[11]
O que nos interessa aqui, depois desta
rápida contextualização, é perceber a relação entre o executor no campo e esse
a quem formalmente deve obedecer.
Ainda aqui, Himmler revela-se como um
simples executante das vontades do seu amo ou mesmo dono, sem outra dignidade
que não aquela emprestada pela posse do senhor relativamente ao escravo e
consequente recompensa, positiva ou negativa. Este altíssimo membro da
hierarquia da elite nazi nunca passou de um escravo, enquanto Hitler estava bem
firme no poder, tendo revelado a sua verdadeira natureza, precisamente de
escravo, quando, estando Hitler já sem real poder, tentou ficar com o lugar do
seu velho dono para si. Hitler, que era politicamente muito esperto, percebeu
bem quem o rodeava e nomeou formalmente um militar nazi da marinha para lhe
suceder, o que realmente aconteceu, tendo sido esse militar a responder perante
os Aliados como chefe máximo do Reich.[12]
Himmler, formal ou informalmente dada,
cumpriria qualquer ordem que o seu senhor lhe desse. Escravo real, portanto,
este homem que tratou milhões de seres humanos como escravos, muitos doa quais
se recusaram a sê-lo.
Situa-se nos antípodas éticos da acção
de Himmler, a acção de Aristides de Sousa Mendes, homem que se recusou a ser
escravo de uma razão de estado que condenava milhares de seres humanos a um
sofrimento imerecido e a uma morte certa, pois Hitler já tinha pronunciado o
discurso acima transcrito, que não era desconhecido dos meios diplomáticos. O
ser humano que abdica da sua condição de liberdade e de capacidade de bondade,
para lá de todas as condicionantes, quaisquer sejam, torna-se escravo. Foi
através desta operação de redução ética e ontológica da pessoa que os nazis
triunfaram sobre uma imensa mole de indesejados que não foi sequer capaz de
dizer não e activamente se empenhar em fazer valer tal não. Houve
honorabilíssimas excepções.
Aristides
é precisamente o paradigma incarnado da pessoa que se recusa a fazer o mal,
venha a ordem de onde vier.
Nada suplanta o sentido de dignidade
humana que tal pessoa em si transporta. Em termos cristãos, é a arquetípica
presença de Deus em nós, como mais profunda bondade de nós próprios e como raiz
de todo o nosso bem possível, como Agostinho já tarde descobriu. Em termos
laicos, é a presença comum no seio dos seres humanos de um sentido
antepredicativo de bondade, capaz de distinguir o bem do mal como
possibilidade, a menos que se tenha sido submetido a um processo perverso de
educação, a que invariavelmente os tiranos recorrem e a que Hitler recorreu.
Como cristão, em nome deste bem divino
em si presente e como forma de o não atraiçoar, tendo de escolher entre Deus e
um César qualquer, Aristides escolheu Deus. A ser-se servo, que se seja servo
do infinito Deus, não de um qualquer tiranete destinado como todos nós a acabar
mundanamente em podridão.
Mas a maior podridão é a espiritual,
como podemos verificar no relato que transcrevemos, ainda da mesma obra de
Andrews:
«Grande parte da tarefa fisicamente árdua de fazer funcionar
as câmaras de gás recaía sobre os ‘Sonderkommandos’
(unidades especiais), prisioneiros que também tinham de assumir o trabalho de
limpar e preparar as câmaras e os crematórios. […] Acalmavam os prisioneiros a
caminho da sala em que se despiam, frequentemente falando em Yiddish,
dizendo-lhes que lhes iria ser administrado um duche antes de se juntarem aos
grupos de trabalho e de serem reunidos com as famílias; conduziam os
prisioneiros nervosos, agitados ou suspeitos de serem ‘agitadores’ para fora do
campo de visão e de som e seguravam-nos por ambas as orelhas enquanto um homem
das SS os matava a tiro com uma pistola equipada com silenciador atrás dos
fornos crematórios.»[13]
Mais do que fazer ressaltar a maldade,
tão extrema que qualquer tentativa de desculpabilização é perversa, destes
seres humanos, que trocavam mais umas horas ou uns dias de vida por tão vil
tarefa, importa salientar a importância fundamental, vital mesmo, dos meios
usados na acção humana, em qualquer acção humana, mormente em acções com este
grau de gravidade.
Sem estes prisioneiros, judeus na sua
esmagadora maioria, não teria sido possível aos nazis um tão bom desempenho
industrial das suas fábricas de matança de seres humanos. Não só porque, como
já fora estudado pelos próprios especialistas, havia poucos homens capazes de
fazer serviços como o acabado de narrar sem que isso os afectasse profundamente,
mas também porque, sem este cooperadores-traidores, a mão de obra paramilitar
necessária seria em quantidade muito superior, retirando das frentes de
combate, cada vez mais carenciadas de recursos também humanos, efectivos
preciosos. A manha usada por estes prisioneiros traidores poupava milhares de
paramilitares SS a fim de serem usados nas campanhas, nas duas frentes.
Estes prisioneiros eram judeus que
serviram de carrascos a seus semelhantes, como meios auxiliadores de preparação
para a matança e como higienizadores do meio ambiente fabril de morte, assim se
prostituindo, até que sorte idêntica lhes batesse – e bateu – à porta. Assim se
prefere trocar a humana dignidade por uma mão-cheia de nada. Assim se dá de
mão-beijada o triunfo ao mal. E o mal só triunfa porque o mal é cada acto de
maldade que cada um de nós faz. Cada um destes prisioneiros é mal em acto e
como tal preferiu acabar os seus, assim malditos, dias.
Mais uma vez, o contraste com Aristides
de Sousa Mendes não poderia ser maior: este, mesmo sabendo que provavelmente o
esperaria, a si e à sua longuíssima família, uma vingança que o privaria de seu
único sustento, não hesitou em fazer o bem que de si a situação reclamava, após
ter tomado a decisão de salvar tais pessoas. Aristides não pegou nos que o
procuravam, enganando-os, segurando-os pelas orelhas enquanto a restante
diplomacia os condenava a tratamentos como os narrados. Não os conduziu à morte
como cordeiros enganados, antes dela os livrou como pessoas dignas, dignas da
sua própria humanidade, mas também dignas da humanidade de quem assim as
salvou. Quanto aos carrascos e às suas mesquinhas vinganças, já têm, nisso, a
sua recompensa, às suas próprias mãos.
A comparação da acção de Aristides de Sousa Mendes com a
acção de Himmler importa para se perceber, situando-se nos extremos de uma
linha de possibilidades éticas e políticas de acção, a grandeza de uma e de
outra. Quando comparada com a acção de Himmler, a de Aristides assume foros de
uma literalmente imensa grandeza ontológica positiva, enquanto a outra os
assume de uma literalmente imensa grandeza ontológica negativa. E ambas são
paradigmáticas do que é quer a possibilidade quer a realidade da bondade
humana, que oscila entre um extremo de positividade e um extremo de
negatividade.
Mas, sendo, assim paradigmáticas, a
comparação entre Aristides e Himmler acaba por ser demasiado boa para Himmler e
demasiado má para Aristides, pois, realmente, nunca devem tais figuras ser
comparadas, pois tal comparação implica alguma forma de comunidade de nível e
entre Aristides e Himmler só há uma comunidade, precisamente essa que Himmler
tentava desmentir, que é a mesma existente entre todas as pessoas: todas são
seres humanos. Mais nada é humanamente comum entre estes dois homens. A
comparação teve apenas uma função pedagógica e nela se cumpre.
Mas outra grandeza tem a comparação
entre Aristides de Sousa Mendes como paradigma e essoutro paradigma de
dignidade humana que é a construção poético-trágica de Sófocles, Antígona.
É com o paradigma Antígona que
Aristides deve ser comparado. Ambos cumpriram a sua humanidade – nisso perfeita
– no respeito pela absoluta dignidade humana, dando ao ser humano o que lhe é
devido, não segundo qualquer positiva lei humana – porque humana, sempre
falível, qualquer seja –, mas segundo princípios axiomáticos (não axiológicos)
sem o respeito dos quais a humanidade está perdida como propriamente
humanidade.
Na mais profunda morada ética que ergue
cada ser humano, aí, onde se descobre isso que serve de estrutura metafísica de
tudo e que faz de tudo um sempre periclitante cosmos, numa memória que é nossa
como nada mais é nosso, mas que nos transcende como todo o princípio transcende
o principiado, nele, no entanto se mantendo, Antígona e Aristides descobriram a
razão pela qual os actos que realizaram tinham de ser realizados, contra tudo o
que não respeitasse tais princípios.
O preço foi elevado: a morte da
divinamente inocente Antígona, no poema de Sófocles; a miséria e um
politicamente degradante caminho até à morte no caso de Aristides. Mas são os
Creontes que perdem, pois quem se lembra de Creonte senão por causa e através
da tragédia a que estupidamente condenou Antígona?
Assim para todas as bestas, assim para
todos os santos: cada um já tem, no que faz, a sua eterna recompensa.
No seio do povo cuja epopeia-padrão
começa com «as armas» e termina com «inveja»,[14]
ou seja, nascido de um povo que nasce com armas e morre com inveja, Aristides
de Sousa Mendes soube transcender «armas» e «inveja», construindo a paz e
morrendo pobre e humilde, apenas ambicionando não o invejável bem dos outros,
mas o divino céu por que sempre esperara.
Américo Pereira
[1]
«Inimigo», por definição, significa alguém que se quer eliminar, aniquilar,
matar. Não se deve confundir «inimigo» com «adversário»: a adversatividade
nunca implica a destruição do adversário, pelo contrário, não pode subsistir
sem que o adversário subsista. O inimigo nunca é, assim, um adversário, pois,
sendo a inimizade um caminho para a destruição do inimigo, e sendo o adversário
necessário como existente para que a adversatividade subsista, a eleição de
alguém como inimigo impede logicamente que este possa ser adversário. Por outro
lado, a relação de inimizade, se bem que implicando uma segunda pessoa, essa
que é eleita como inimigo, depende apenas do eleitor: basta eu eleger alguém
como inimigo para que a relação de inimizade passe a existir na sua plenitude.
Ao eleito, cabe, todavia, o direito de querer
não ser aniquilado, tudo fazendo para manter a sua vida, mesmo que, para
tal, tenha de matar esse que o elegeu como inimigo. No entanto, pode nunca
tomar esse que o elegeu a si como inimigo como seu inimigo. Não é apenas o meio
morte que conta, mas a morte como um fim:
quem elege alguém como inimigo usa a morte como um meio, mas quer a morte como
um fim; quem é eleito pode perfeitamente usar a morte como um meio de se livrar
de quem o quer matar, mas sem que esta seja a sua finalidade: esta consiste
apenas em livrar-se de uma finalidade que lhe foi imposta por alguém. Acabámos
de reflectir sobre a origem de todas as guerras.
[2] GOEBBELS Joseph, The
Goebbels diaries, translated and edited by Louis P. Lochner, London, Hamish
Hamilton, 1948, p. 333: «Himmler told me
something about a question that is rather secondary; namely, that of the
International Bible Students. These Bible Students are a queer mixture of
contemporaries living outside our time. Their refusal to bear arms is usually
not because of cowardice, but a matter of principle. That’s why Himmler rightly
takes this view: objectors to military service who are beyond draft age should
be put behind bars so that they cannot proselytise; objectors to military
service, however, who are of draft age, should be condemned to death for
cowardice and desertion. Some of them accept the death penalty with absolute
stoicism. The older Bible Students are giving an excellent account of
themselves in concentration camps and are exceptionally able and dependable
workers; they give us the least trouble of anybody there.»: «Himmler disse-me algo acerca de uma questão que é
bastante secundária, nomeadamente a dos Estudantes Internacionais da Bíblia. Estes
Estudantes da Bíblia são uma estranha mistura de contemporâneos que vivem fora
do nosso tempo. A sua recusa de empunhar armas não se deve usualmente a
cobardia, mas é uma questão de princípios. É esta a razão pela qual Himmler
acertadamente adopta este ponto de vista: objectores ao serviço militar que
estão para lá da idade de recrutamento devem ser postos atrás das grades de
modo a que não possam ter uma acção de proselitismo; no entanto, objectores ao
serviço militar que estão em idade de mobilização devem ser condenados à morte
por cobardia e deserção. Alguns aceitam a pena de morte com absoluto
estoicismo. Os Estudantes da Bíblia mais velhos estão a dar excelentes contas
de si próprios nos campos de concentração e são trabalhadores excepcionalmente
capazes e confiáveis; são aqueles que de todos os que lá estão causam menos
problemas.».
[3] «The main
thesis of Mein Kampf is simple. Man
is a fighting animal; therefore the nation, being a community of fighters, is a
fighting unit. Any living organism which ceases to fight for its existence is
doomed to extinction. A country or race which ceases to fight is equally
doomed. The fighting capacity of a race depends on its purity. Hence the need
for ridding it of foreign defilements. The Jewish race, owing to its
universality, is of necessity pacifist and internationalist. Pacifism is the
deadliest sin, for it means the surrender of the race in the fight for
existence. The first duty of every country is therefore to nationalise the
masses. Intelligence in the case of the individual is not of first importance;
will and determination are the prime qualities. The individual who is born to
command is more valuable than the countless thousands of subordinate natures.
Only brute force can ensure the survival of the race; hence the necessity for
military forms. The race must fight; a race that rests must rust and perish.
Had the German race been united in good time it would have been already master
of the globe. The new Reich must gather within its fold all the scattered
German elements in Europe. A race which has suffered defeat can be rescued by
restoring its self-confidence. Above all things the Army must be taught to
believe in its own invincibility. To restore the German nation the people must
be convinced that the recovery of freedom by force of arms is possible. The
aristocratic principle is fundamentally sound. Intellectualism is undesirable.
The ultimate aim of education is to produce a German who can be converted with
the minimum training into a soldier. The greatest upheavals in history would
have been unthinkable had it not been for the driving force of fanatical and
hysterical passions. Nothing could have been effected by the bourgeois virtues
of peace and order. The world is now moving towards such an upheaval, and the
new German State must see to it that the race is ready for the last and
greatest decisions on this earth. Foreign policy may be unscrupulous. It is not
the task of diplomacy to allow a nation to founder heroically, but rather to
see that it can prosper and survive. England and Italy are the only two
possible allies for Germany. No country will enter into an alliance with a
cowardly pacifist State run by democrats and Marxists. So long as Germany does
not fend for herself, nobody will fend for her. Her lost provinces cannot be
regained by solemn appeals to Heaven or by pious hopes in the League of
Nations, but only by force of arms. Germany must not repeat the mistake of
fighting all her enemies at once. She must single out the most dangerous and
attack him with all her forces. The world will only cease to be anti-German
when Germany recovers equality of rights and resumes her place in the sun.
There must be no sentimentality about Germany’s foreign policy. To attack
France for purely sentimental reasons would be foolish. What Germany needs is
increase of territory in Europe. Germany’s pre-war colonial policy was a
mistake and should be abandoned. Germany must look for expansion to Russia, and
especially to the Baltic States. No alliance with Russia can be tolerated. To wage
war together with Russia against the West would be criminal, for the aim of the
Soviets is the triumph of international Judaism. Such were the “granite pillars” of his policy.». CHURCHILL
Winston S., The Second World War,
vol. II, Boston, Houghton Mifflin Company, s. d., pp. 50-51 (trad. nossa).
[4] LIFTON Robert Jay, The Nazi doctors. Medical killing and the psychology of genocide,
s. l., Basic Books, 2000, pp. 16-17. Todos os trechos aqui citados nesta
sequência são cobertos por esta referência. O original será apresentado em nota
no final da última citação desta sequência.
[5] A
tradução destes trechos é da nossa responsabilidade. O original reza assim: «Thus, for Hans Frank, jurist
and General Governor of Poland during the Nazi occupation, “the Jews were a
lower species of life, a kind of vermin, which upon contact infected the German
people with deadly diseases.” When the Jews in the area he ruled had been
killed, he declared that “now a sick Europe would be healthy again.” It was a religion of the will – the will as “an
al-encompassing metaphysical principle”; and what the Nazis “willed” was nothing less than total control over life and death. While
this view is often referred to as “social Darwinism,” the term applies only
loosely, most to the Nazi stress on natural “struggle” and on “survival of the
fittest.” The regime actually rejected much of Darwinism; since evolutionary
theory is more or less democratic in its assumption of a common beginning for
all races, it is therefore at odds with the Nazi principle of inherent Aryan
racial virtue. Even more specific to the biomedical vision was the crude
genetic imagery, combined with still cruder eugenic visions (see pages 23-24).
Here Heinrich Himmler, as high priest, spoke of the leadership’s task as being “like
the plant-breeding specialist who, when he wants to breed a pure new strain
from a well-tried species that has been exhausted by too much cross-breeding,
first goes over the field to cull the unwanted plants.” The Nazi project then,
was not so much Darwinian or social Darwinist as a vision of absolute control
over the evolutionary process, over the biological human future. Making
widespread use of the Darwinian term “selection,” the Nazis sought to take over
the functions of nature (natural selection) and God (the Lord giveth and the
Lord taketh away) in orchestrating their own “selections,” their own version of
human evolution.»
[6]
Ironicamente, o seu triunfo teria sido a sua derradeira derrota, pois, ao
limitarem o tesouro genético humano passível de ser utilizado em precisamente
procriação cruzada, estariam a limitar a possibilidade de sobrevivência da
“espécie” ariana, pois, como se sabe, o estreitamento da base de riqueza
genotípica faz que os erros sempre presentes se fenotipifiquem com muito maior
probabilidade, o que, mais cedo ou mais tarde, arruína as hipóteses de
sobrevivência da espécie, exactamente porque se seleccionaram não os
“melhores”, mas os “piores”. Genotipicamente o melhor é a mais lata riqueza de
combinatórias possível, com todos os riscos associados, mas também com todas as
virtudes associadas. É claro que, uma vez percebido isto, o nazismo triunfante
entraria num processo claro de engenharia genética, com todos os riscos que tal
comporta. No limite, parece correcta a intuição metafórica de George Lucas, na
sua Guerra das estrelas, ao criar um
imenso exército de clones, supostamente perfeitamente adequados para as tarefas
suas relativas. O nazismo acabaria por fazer algo de semelhante e, assim, por
eliminação da diferença, eliminar-se-ia. A natureza e Deus – para quem nele
acredita – não precisam de ser ensinados por um nazi qualquer ou por outra
qualquer figura humana semelhante.
[7] TUSA Ann, TUSA John, The Nuremberg trial, New York, Atheneum, 1984, p. 167: «Nazi policy
in the East was that expressed by Himmler to his SS generals: “Whether the
other nations live in prosperity or starve to death interests me only in so far
as we need them as slaves for our culture… Whether 10,000 Russian females fall
down from exhaustion while digging an anti-tank ditch or not interests me only
in so far as the anti-tank ditch for Germany is finished.”».
[8] GILBERT Martin,
Second World War, London, Phoenix
Press, 2000, p. 147: «For Hitler and the Nazis, the word ‘Asiatic’ was
synonymous with ‘barbarian’. Yet inside Germany there were many people, doctors
and priests among them, who had begun to characterize Germany’s own euthanasia
programme as barbaric. Some written protests had reached Hitler; others had
been circulated clandestinely. Vexed, Heinrich Himmler told Dr Brack and Dr
Bouler on December 19. ‘If Operation T4 had been entrusted to the SS, things
would have happened differently. When the Führer entrusts us with a job, we
know how to deal with it correctly, without causing useless uproar among the
people.’ This ‘useless uproar’ was soon to force Hitler to abandon the
euthanasia programme, though not before as many as 50,000 ‘defectives’,
including several thousand children, had been put to death. But Himmler and his
SS men were to get another ‘job’ to do before half a year had passed.». Esta
nova tarefa será o extermínio sistemático dos judeus, isto é, a aplicação da
sempre desejada «solução final para a questão judaica».
[9]
Poderíamos ter optado pela tradução de «everlasting» por «perene», até porque a
parte do termo «lasting» remete para temporalidade, para duração. Mas a
vergonha refere-se a algo que transcende a pura temporalidade e ressoa para
além dela: o clamor por tais crimes – estes e todos os que os emulam, desde
sempre – é eterno. Se o mal é sempre a ausência de um bem possível e devido, o
mal organizado e realizado pelos nazis roça a substanciação da maldade,
conseguindo na prática uma “prova” de realidade maniqueia: afinal, com o
nazismo, parece haver mesmo um princípio substancial do mal. Felizmente, houve
quem se soubesse impor e impedir que tal prova maniqueia se desse, pois, para
se dar, tinha de se universalizar, como, aliás, Hitler queria. Mais um elemento
de engrandecimento para quem como Aristides a tal se opôs, precisamente em nome
de um Deus de bem, de que não há contrapartida possível.
[10] ROBERTS Andrew, The
storm of war. A new history of the second world war, London, Allen Lane,
Penguin Group, 2009, p. 219 (Citação retirada de KERSHAW Ian, Hitler, the Germans and the Final Solution,
2008, p. 104): «Although hotly
debated by historians, the exact date when Hitler ordered Heinrich Himmler to
destroy the Jewish race in Europe through the industrialized use of the Vernichtungslager (extermination camp)
is really almost immaterial. Hitler had always been, in the historian Ian
Kershaw’s phrase, ‘the supreme and radical spokesman of an ideological
imperative’ to destroy the Jews. An unmistakable threat had been made even
before the outbreak of war, on 30 January 1939, when he told the Reichtag: In
the course of my life I have very often been a prophet, and have usually been
ridiculed for it. Today I will once more be a prophet; if the international
Jewish financiers in and outside Europe succeed in plunging the nations once
more into a world war, then the result will not be the Bolshevization of the
earth, and thus the victory of Jewry, but the annihilation of the Jewish race in
Europe!». A razão pela qual preferimos «aniquilação» a «extermínio»
diz respeito à relação semântica dos termos com o que se passou realmente. Se
muita da propaganda, que reflectia o modo real como a elite nazi pensava
ontologicamente, reduzia os indesejados a «ratazanas» e «insectos», objectos
que habitualmente se exterminam, o modo como as «ratazanas humanas» e os
«insectos humanos» foram tratados releva mais de uma vontade de aniquilação, em que tudo é ontologicamente eliminado,
até que nada reste, nem a memória ou qualquer monumento historiográfico ou
físico, do que do extermínio, em que se quer matar, sem necessariamente
eliminar ontologicamente tudo: não é comum fazer a ratazanas e a baratas, por
exemplo, o que se fez aos indesejados. Nestes últimos casos, podemos até
empregar gatos e outros animais úteis para os matar e consumir, sem que com
isso se aniquilem até à última molécula. A matança dos indesejados foi uma
aniquilação total, que passou pela destruição total dos próprios campos que
tivessem levado a bom porto a tarefa, como Treblinka. De judeus e demais indesejados, nada, mas absolutamente nada deveria
restar. A haver um Deus, nem na sua memória metafísica lá deveria
permanecer qualquer vestígio ontológico de tal presença no ser. Hitler não foi
profeta, quis ser Deus e, se o fosse, assim faria.
[11]
Há uma magnífica narração deste processo, em toda a sua inane desumanidade, na
obra de REES Laurence, Auschwitz. The
Nazis & the ‘Final Solution’, London, BBC Books, 2005, obra que deve
ser lida na sua totalidade.
[12]
Trata-se do Grande Almirante Doenitz, responsável pela guerra submarina alemã,
único homem que Churchill verdadeiramente temeu do lado alemão durante toda a
guerra. Foi julgado em Nuremberga e condenado a pena de prisão, e, depois,
cumprida parte desta, libertado.
[13] ROBERTS Andrew, The
storm of war. A new history of the second world war, London, Allen Lane,
Penguin Group, 2009, pp. 229-230: «Much of the physically arduous task of
running the gas chambers fell to the Sonderkommandos
(special units), prisoners who also had to undertake the work of cleaning and
preparing the chambers and crematoria. […] They calmed the prisoners on the way
to the undressing room, often speaking in Yiddish, telling them they were going
to be given a shower before joining work details and being reunited with their
families; they led nervous, agitated or suspicious ‘trouble-makers’ out of
sight and earshot and held them by each ear as an SS man shot them with a
silencer-fitted handgun behind the crematoria».
[14] Os Lusíadas, de Luís de Camões, escritos
com finíssima ponderação vocabular, começam com o verso «As armas, e os barões
assinalados» e termina com o verso «Sem á dita de Achilles ter inveja».
Utilizámos a edição de Francisco Gomes de Amorim, de 1889, s. l., s. d..
Sem comentários:
Enviar um comentário