Pecado original

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segunda-feira, 22 de maio de 2017

Relativismo

Não pode haver qualquer forma de relativismo em ambiente cristão. Como Job, o cristão sabe que Deus é o absoluto e não um absoluto metafísico qualquer, mas o absoluto do bem, isto é, criador de toda a possibilidade e de todo o ser. Este bem é absoluto, pois de nada depende senão de si próprio, é absoluto porque é o acto infinito que infinitamente se opõe ao nada, único outro absoluto, apenas teoricamente referenciável, mas só como absoluto da negação do absoluto positivo que é Deus.
Assim, e sem qualquer forma de contradição, pois o nível em que se situa não é o mesmo, o cristão vive concomitantemente do absoluto e na relação com ele e sabe que tudo o que não é esse absoluto com ele se relaciona, pelo que, para além de Deus, tudo é relativo, precisamente relativo a Deus.
Mas, então, não há mesmo uma qualquer forma de contradição neste discurso?
Não.
Muito antes do pensamento de Einstein, já havia a consciência de uma relatividade fundamental no ser, a relatividade que une necessariamente a criatura ao criador, sem que ligue necessariamente o criador à criatura, pois o acto de criação é um dom – ele também absoluto – que faz da criatura totalmente algo do criador, mas no absoluto de uma diferença que não anula o próprio da criatura. Mas este e esta apenas são, são absolutamente apenas no e pelo acto de criação.
Está, assim, presente em cada criatura um absoluto, indelével, que é a marca activa do acto de Deus nela. E é esta marca que é o garante de absolutidade do ser de cada entidade criada. É este sentido desta marca activa que Job nunca perde, tendo perdido tudo o mais; é este sentido que Agostinho descobre no mais profundo de seu ser, que já não é o mero Agostinho, mas Deus nele. É este sentido da presença de um absoluto em nós que pode permitir que a nossa visão do ser não seja marcada pelo relativismo.
Quando, entrando no concreto da história contemporânea, tudo parecia perdido para o mundo livre, às mãos de Hitler, e quase todos preferiam optar por ceder ao tirano, em troca de uma qualquer mísera vida, Churchill, porque não tinha esquecido esta marca de um absoluto que diferencia o ser humano e cada ser humano como algo que não deve submissão senão ao criador, respondeu: «lutaremos até ao fim, nunca nos renderemos». Um relativista ético e político teria cedido. O relativismo ético e consequentemente político, alicerçado num relativismo do ser, cede sempre, anulando, com essa cedência, o específico próprio da humanidade.
Se se vive, e vive-se, hodiernamente, um momento de relativismo de proproções tendencialmente universais, sob todos os pontos de vista, é porque se perdeu o sentido da presença deste absoluto, não num qualquer longínquo céu invisível, mas no mais profundo de cada ser humano e de toda a realidade. Na base do relativismo, está um ateísmo fundamental, que nega a realidade de qualquer fundamento ontológico absoluto para o ser que, assim, nem ser é, apenas algo de oniricamente efémero, dado que nem se pode dizer «absolutamente efémero».
O relativismo não é, assim, uma fatalidade ou algo que surja desde fora da humanidade, mas resulta da actividade mesma da própria humanidade, resulta de escolhas, de escolhas que passam, logo num primeiro momento, pelo modo como queremos olhar para a realidade, em seu todo.
Deste modo, o relativismo não é uma condenação cultural ou civilizacional, mas pode e deve ser superado através da atitude intelectual de cada ser humano, precisamente, e logo de início, no modo como se relaciona com isso que é o seu acto próprio e isso que é o acto do demais, de tudo o que o transcende.
Podemos perceber que, pela negação do sentido do absoluto presente na experiência humana das coisas, o relativismo nega o carácter objectivo do conhecimento dessas mesmas coisas, como realidades próprias e irredutíveis, nega o carácter absoluto e universal da verdade, deixando de haver ou de poder haver uma verdade, mesmo que apenas – e é sempre assim – como finalidade última a atingir, ainda que infinitamente longínqua, mas infinitamente possível, infinitamente convocante e motora.
Para o relativismo, tudo existe, e apenas, em função do sujeito que conhece e julga e como resultado das suas estruturas cognitivas, não passando a realidade de algo como um sonho epistemologicamente fundado nas estruturas cognitivas, mas sem qualquer forma substancial própria, pelo que pode ser administrado como um outro qualquer sonho, com as consequências óbvias. Tal implica um radical subjectivismo, no sentido mais forte do termo, em que a realidade nada mais é do que a coincidência com a representação puramente subjectiva de cada possível e actual sujeito cognitivo. Aquilo a que se chamava o mundo não passa de um eventual acordo entre posições subjectivas, podendo mesmo ser ditado pela sujectividade mais forte e poderosa, casos óbvios do comunismo e do nazismo, mas também do liberalismo.
Deste modo, o que é verdade para uns pode ser falso para outros, tudo dependendo do modo de ser das diferentes subjectividades. Aos erros dos sentidos, de matriz cartesiana, acrescentamos o efeito estrutural, mesmo material, da composição, transcendental no dizer kantiano, do modo próprio de conhecer, não já, como em Kant, da espécie humana como um todo uno, mas de cada sujeito individual, no que é um atomismo de percepcionismo e de visões do real. Tal leva necessariamente a que a ciência, em seu sentido objectivo, seja trocada pela opinião, nova verdade, talvez caprichosa, a que cada indivíduo humano se sente com direito, no tal mundo onírico, em que nada é objectivo e em que todos são atómicos deuses de seu insubstantivo sonhado mundo.
Neste mundo, como é evidente, não pode haver qualquer outro sentido de bem e mal que não o que derive da axiomática ontológica, antropologicamente fundada, própria de cada subjectividade: é bom o que eu disser que é, conforme ao que eu quiser que seja. Se tiver poder para tal, posso impor a todos esse mesmo paradigma, e mudá-lo a meu bel-prazer todos os dias ou todas as horas, num sentido, assim extremo, de efemeridade.
Sendo este o paradigma ontológico, antropológico, ético e político em que se vive, não admira, pois, que o ambiente cosmológico seja relativista: não pode não ser de outra qualquer forma. No seu extremo, levará à total anulação da mesma humanidade, pois, como Platão muito bem e definitivamente viu logo no início da sua República, em seu «Livro I», se a tese sofística de Trasímaco, campeão da tirania, vencer, será a humanidade como tal que perecerá, anulada, no que de próprio seu tem, pela maldade do tirano, que tudo relativiza em seu benefício, ocupando o lugar de Deus como absoluto como «o» absoluto.
Ora, tal não constitui qualquer forma de condenação ou de fatalidade, como o mesmo Platão bem viu e como, em ambiente religioso, podemos verificar na mensagem de Cristo, pois apenas o Bem, Deus é merecedor da atenção como absoluto, fonte de todo o acto e ser, infinitamente irradiando positividade ontológica, pura bondade, que compete ao ser humano aceitar, ainda que tenha de tudo o mais prescindir, como Job ou, na versão laica, como Sócrates de Atenas, que nunca vacilaram perante a tentação idolátrica de trocar o seu Deus pelos senhores do momento.
A questão do relativismo é a questão do absoluto e do sentido que cada pessoa descobre como sua mesma vida e ser, nada mais havendo em sua própria pessoa do que isso mesmo, esse «logos», que estava em seu mesmo início e há-de estar em seu fim, absolutamente, fruto de cada acto, com seu absoluto de bem realizado, acto sempre relativo a quem o praticou, mas sempre absoluto em sua mesma concretude de novidade.
Assim, o relativismo depende não de qualquer forma exterior de influência cultural – o que é uma pobre desculpa –, mas de cada um de meus actos, e, se há um mundo em que o relativismo parece triunfar, tal deve-se a mim, que não combato esse mesmo mundo com o bem absoluto cuja possibilidade Deus me deu para realizar como «bem meu de cada dia». Real «pão nosso de cada dia», que Deus não nos dá como esmola de tirano a escravo, mas como possibilidade de realização minha a partir de sua mesma infinita bondade, assim eu queira beber o cálice que ninguém, nem Deus, pode por mim beber.
A causa do relativismo sou eu e só eu, quando não amo, isto é, quando não quero e promovo o bem de tudo. O relativismo combate-se amando.

Américo Pereira
Junho de 2015



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