Não pode haver qualquer
forma de relativismo em ambiente cristão. Como Job, o cristão sabe que Deus é o
absoluto e não um absoluto metafísico qualquer, mas o absoluto do bem, isto é,
criador de toda a possibilidade e de todo o ser. Este bem é absoluto, pois de
nada depende senão de si próprio, é absoluto porque é o acto infinito que
infinitamente se opõe ao nada, único outro absoluto, apenas teoricamente
referenciável, mas só como absoluto da negação do absoluto positivo que é Deus.
Assim, e sem qualquer
forma de contradição, pois o nível em que se situa não é o mesmo, o cristão
vive concomitantemente do absoluto e na relação com ele e sabe que tudo o que
não é esse absoluto com ele se relaciona, pelo que, para além de Deus, tudo é relativo, precisamente relativo a Deus.
Mas, então, não há mesmo
uma qualquer forma de contradição neste discurso?
Não.
Muito antes do pensamento
de Einstein, já havia a consciência de uma relatividade fundamental no ser, a
relatividade que une necessariamente a criatura ao criador, sem que ligue
necessariamente o criador à criatura, pois o acto de criação é um dom – ele
também absoluto – que faz da criatura totalmente algo do criador, mas no absoluto de uma diferença que não anula o
próprio da criatura. Mas este e esta apenas são, são absolutamente apenas no e
pelo acto de criação.
Está, assim, presente em
cada criatura um absoluto, indelével, que é a marca activa do acto de Deus
nela. E é esta marca que é o garante de absolutidade do ser de cada entidade
criada. É este sentido desta marca activa que Job nunca perde, tendo perdido
tudo o mais; é este sentido que Agostinho descobre no mais profundo de seu ser,
que já não é o mero Agostinho, mas Deus nele. É este sentido da presença de um absoluto em nós que pode permitir que
a nossa visão do ser não seja marcada pelo relativismo.
Quando, entrando no
concreto da história contemporânea, tudo parecia perdido para o mundo livre, às
mãos de Hitler, e quase todos preferiam optar por ceder ao tirano, em troca de
uma qualquer mísera vida, Churchill, porque não tinha esquecido esta marca de
um absoluto que diferencia o ser humano e cada ser humano como algo que não
deve submissão senão ao criador, respondeu: «lutaremos até ao fim, nunca nos
renderemos». Um relativista ético e
político teria cedido. O relativismo ético e consequentemente político,
alicerçado num relativismo do ser, cede sempre, anulando, com essa cedência, o
específico próprio da humanidade.
Se se vive, e vive-se,
hodiernamente, um momento de relativismo de proproções tendencialmente
universais, sob todos os pontos de vista, é porque se perdeu o sentido da
presença deste absoluto, não num qualquer longínquo céu invisível, mas no mais
profundo de cada ser humano e de toda a realidade. Na base do relativismo, está
um ateísmo fundamental, que nega a realidade de qualquer fundamento ontológico
absoluto para o ser que, assim, nem ser é, apenas algo de oniricamente efémero,
dado que nem se pode dizer «absolutamente efémero».
O relativismo não é,
assim, uma fatalidade ou algo que surja desde fora da humanidade, mas resulta
da actividade mesma da própria humanidade, resulta de escolhas, de escolhas que
passam, logo num primeiro momento, pelo modo como queremos olhar para a
realidade, em seu todo.
Deste modo, o relativismo
não é uma condenação cultural ou civilizacional, mas pode e deve ser superado
através da atitude intelectual de cada ser humano, precisamente, e logo de
início, no modo como se relaciona com isso que é o seu acto próprio e isso que
é o acto do demais, de tudo o que o transcende.
Podemos perceber que,
pela negação do sentido do absoluto presente na experiência humana das coisas,
o relativismo nega o carácter objectivo do conhecimento dessas mesmas coisas,
como realidades próprias e irredutíveis, nega o carácter absoluto e universal
da verdade, deixando de haver ou de poder haver uma verdade, mesmo que apenas –
e é sempre assim – como finalidade última a atingir, ainda que infinitamente
longínqua, mas infinitamente possível, infinitamente convocante e motora.
Para o relativismo, tudo
existe, e apenas, em função do sujeito que conhece e julga e como resultado das
suas estruturas cognitivas, não passando a realidade de algo como um sonho
epistemologicamente fundado nas estruturas cognitivas, mas sem qualquer forma
substancial própria, pelo que pode ser administrado como um outro qualquer
sonho, com as consequências óbvias. Tal implica um radical subjectivismo, no
sentido mais forte do termo, em que a realidade nada mais é do que a
coincidência com a representação puramente subjectiva de cada possível e actual
sujeito cognitivo. Aquilo a que se chamava o mundo não passa de um eventual
acordo entre posições subjectivas, podendo mesmo ser ditado pela sujectividade
mais forte e poderosa, casos óbvios do comunismo e do nazismo, mas também do
liberalismo.
Deste modo, o que é
verdade para uns pode ser falso para outros, tudo dependendo do modo de ser das
diferentes subjectividades. Aos erros dos sentidos, de matriz cartesiana,
acrescentamos o efeito estrutural, mesmo material, da composição,
transcendental no dizer kantiano, do modo próprio de conhecer, não já, como em
Kant, da espécie humana como um todo uno, mas de cada sujeito individual, no
que é um atomismo de percepcionismo e de visões do real. Tal leva
necessariamente a que a ciência, em seu sentido objectivo, seja trocada pela
opinião, nova verdade, talvez caprichosa, a que cada indivíduo humano se sente
com direito, no tal mundo onírico, em que nada é objectivo e em que todos são
atómicos deuses de seu insubstantivo sonhado mundo.
Neste mundo, como é
evidente, não pode haver qualquer outro sentido de bem e mal que não o que
derive da axiomática ontológica, antropologicamente fundada, própria de cada
subjectividade: é bom o que eu disser que
é, conforme ao que eu quiser que seja. Se tiver poder para tal, posso impor
a todos esse mesmo paradigma, e mudá-lo a meu bel-prazer todos os dias ou todas
as horas, num sentido, assim extremo, de efemeridade.
Sendo este o paradigma
ontológico, antropológico, ético e político em que se vive, não admira, pois,
que o ambiente cosmológico seja relativista: não pode não ser de outra qualquer
forma. No seu extremo, levará à total anulação da mesma humanidade, pois, como
Platão muito bem e definitivamente viu logo no início da sua República, em seu «Livro I», se a tese
sofística de Trasímaco, campeão da tirania, vencer, será a humanidade como tal
que perecerá, anulada, no que de próprio seu tem, pela maldade do tirano, que tudo relativiza em seu
benefício, ocupando o lugar de Deus como absoluto como «o» absoluto.
Ora, tal não constitui
qualquer forma de condenação ou de fatalidade, como o mesmo Platão bem viu e
como, em ambiente religioso, podemos verificar na mensagem de Cristo, pois
apenas o Bem, Deus é merecedor da atenção como absoluto, fonte de todo o acto e
ser, infinitamente irradiando positividade ontológica, pura bondade, que
compete ao ser humano aceitar, ainda que tenha de tudo o mais prescindir, como
Job ou, na versão laica, como Sócrates de Atenas, que nunca vacilaram perante a
tentação idolátrica de trocar o seu Deus pelos senhores do momento.
A questão do relativismo
é a questão do absoluto e do sentido que cada pessoa descobre como sua mesma
vida e ser, nada mais havendo em sua própria pessoa do que isso mesmo, esse
«logos», que estava em seu mesmo início e há-de estar em seu fim,
absolutamente, fruto de cada acto, com seu absoluto de bem realizado, acto
sempre relativo a quem o praticou, mas sempre absoluto em sua mesma concretude
de novidade.
Assim, o relativismo
depende não de qualquer forma exterior de influência cultural – o que é uma
pobre desculpa –, mas de cada um de meus actos, e, se há um mundo em que o
relativismo parece triunfar, tal deve-se a
mim, que não combato esse mesmo mundo com o bem absoluto cuja possibilidade
Deus me deu para realizar como «bem meu de cada dia». Real «pão nosso de cada
dia», que Deus não nos dá como esmola de tirano a escravo, mas como
possibilidade de realização minha a partir de sua mesma infinita bondade, assim
eu queira beber o cálice que ninguém, nem Deus, pode por mim beber.
A causa do relativismo sou eu e só eu, quando não amo, isto é, quando não
quero e promovo o bem de tudo. O relativismo combate-se amando.
Américo Pereira
Junho de 2015
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