Pecado original

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segunda-feira, 22 de maio de 2017

A pessoa em contexto multicultural

Foram precisos muitos anos de sofrimento e de reflexão para que a humanidade fosse capaz de forjar uma noção de pessoa que coincidisse com isso que define o ser do que cada um de nós é, independentemente de tempo, local, particularidades culturais. A noção de pessoa é especial, pois, sendo, como toda a restante produção humana, cultura, em seu sentido mais profundo e forte – precisamente porque universal – é a única produção humana que verdadeiramente transcende a cultura como algo de sempre situado, afirmando, como afirma, uma realidade que ultrapassa toda a tópica cultural, histórica e de poder temporal.
A noção de pessoa, no sentido aqui trabalhado, não se identifica com isso que qualquer cultura, de entre os muitos milhares que já existiram, considera ser a sua definição de humanidade. Estas definições foram sempre uma forma negativa de definir o próprio humano. Tecnicamente designam-se como «etnocêntricas» e, como tal, negam a noção de pessoa, que é necessariamente algo de aplicável ao universo dos seres humanos de sempre, sem qualquer restrição possível.
As noções etnocêntricas de humanidade definem sempre o que é propriamente humano a partir do mito cosmogónico, cosmológico e antropogónico que as ergue como culturas. Fazem-no sempre por contraste com as mesmas categorias das outras culturas. Assim sendo, o que é propriamente humano segundo o mito da minha cultura não é o mesmo que define a humanidade de outra. Se partilhássemos tal definição, seríamos não duas culturas distintas, mas a mesma cultura. Para o bem e para o mal, de facto, a cultura define o que é a humanidade.
Este tipo de distinção mítico-cosmológica e mítico-antropológica fez a humanidade não tanto viver, mas sobreviver em regime de contraposição cultural. É no seio desta contraposição cultural que emergem as guerras em sentido clássico do termo: guerras entre povos. Todavia, estas guerras entre povos são sobretudo guerras entre cosmologias, como se pode verificar estudando os grandes mitos clássicos, mas também, contemporaneamente, algo como a obra O senhor dos anéis, de J. R. R. Tolkien. Aliás, nesta obra, a questão da multiculturalidade, aprofundada como questão de multi-pessoalidade, encontra-se presente de forma bastante evidente.
No entanto, não é em textos clássicos, mas no concreto da acção histórica que podemos encontrar o que foi incarnadamente e continua sendo teoricamente o exemplo mais cabal do que é grandeza e o poder de uma definição cultural situada do que é ser-se propriamente humano. Trata-se da doutrina nazi acerca da definição do verdadeiro ser humano. Winston Churchill resume assim o que colheu sobre a antropologia nazi em Mein Kampf:
A tese principal de Mein Kampf é simples. O homem é um animal lutador; assim sendo, a nação, sendo uma comunidade de lutadores, é uma unidade de combate. Qualquer organismo vivo que cesse de lutar pela sua existência está condenado à extinção. […] A capacidade de luta de uma raça depende da sua pureza. Daqui, a necessidade de a libertar de conspurcações vindas do exterior. A raça judaica, devido à sua universalidade, é, por necessidade, pacifista e internacionalista. […] A inteligência, no caso do indivíduo, não é de primeira importância; vontade e determinação são as qualidades principais. O indivíduo que nasceu para comandar é mais valioso do que os incontáveis milhares de naturezas subordinadas. Apenas a força bruta pode assegurar a sobrevivência da raça […]»[1]
O que Hitler designa como «raça» corresponde à sua definição de humanidade. Propositadamente não utilizamos, aqui, o termo «pessoa», pois pensamos que deve ser usado apenas na sua grandeza universal própria, que formas como a presente nazi negam.
Ora, tal significa que apenas os animais com aspecto humano que correspondam a esta definição são consideráveis e, assim, considerados como seres humanos. Os demais, desde que não cumpram tais requisitos, em sua especificação mais detalhada, que aqui não se menciona, não são seres humanos, são meros animais inumanos ou simples coisas e podem ser tratados como tal. Sabemos o que a história tem para nos dizer acerca da realidade logicamente subsequente implantada no terreno.[2]
Os «não-humanos», os «indesejados», deficientes vários – foi com estes e com o «Programa Eutanásia» que a efectivação da «raça eleita» começou –, judeus, homossexuais, comunistas, católicos insubmissos, eslavos, e muitas outras classes desclassificadas em sua humanidade, foram destinados ao extermínio mais ou menos próximo. O objectivo consistia em, no fim do processo, deixar no mundo nazi, que, neste fim dos tempos, se confundia com o mundo sem mais, apenas a humanidade que cumprisse os requisitos postos como definidores do propriamente novo humano.
Pela sua radicalidade, este é o exemplo mais extremo, até agora conhecido, do que é a realização de um programa cultural de construção de uma humanidade alternativa e artificial. No concreto, o que estas formas culturais, que são sempre muito fortes – porque são triunfantes –, realizam é uma literal reformulação cultural de isso que é a humanidade em sua dimensão natural.
Ora, esta dimensão natural é sempre diferenciada: nela cabem, por exemplo, todos os que os nazis consideravam como «indesejáveis». Por natureza, a humanidade, a concreta, é sempre um conjunto de indivíduos diferentes e irredutíveis em sua diferença.
Teorias como a teoria racial nazi vivem da afirmação da igualdade como bondade ontológica exclusiva. Ora, a igualdade anula a diferença e, assim, mata tudo o que é diferente.
É, aliás, esta diferença própria individual que faz deles entes distintos dos demais e que constitui isso que é a base ontológica da pessoa como pessoa.
A reformulação cultural tópica procura anular – preferencialmente – ou, pelo menos, esbater as diferenças, impondo ou tentando impor um mesmo padrão cultural modelador da individualidade, que, assim a modulando, assim a anula, impedindo a possibilidade de que surjam verdadeiras pessoas (é a imagem que encontramos, por exemplo, na figura do «exército de clones» já presente no primeiro episódio historicamente produzido de A guerra das estrelas).
Todavia, este modo redutor de pensar a humanidade, se encontra na acção nazi o seu paroxismo, não deixa de estar presente, prática e pragmaticamente, em todos os modos culturais em que haja uma qualquer forma de etnocentrismo: o nazismo é apenas a forma extrema de tal etnocentrismo. Mas não é a única.
Vejamos, então. No mais antigo grande texto que se conhece, a Epopeia de Gilgamesh, de início, a humanidade aparece dividida em duas, o próprio herói, Gilgamesh, e os outros, os fracos, os sem-maternidade-divina; depois surgem mais duas entidades com verdadeira grandeza humana, Enkidu e a Mulher que o desbestializa, para tudo terminar com a morte anunciada da humanidade, quando o herói que não queria morrer morre, afirmando, assim, a morte da humanidade. O que subsiste não é algo de propriamente humano, mas entidades que ficam muito aquém da definição antropológica inicial, assim paradigmática.
Com Job, a humanidade reduz-se a um único ser, também prototípico, mas de tal modo o é que apenas com Deus tem comunicação possível ao seu nível: a humanidade é uma relação – aqui ultrapessoal – entre o ser humano único e Deus. A universalização do humano irá ser, deste modo, uma tarefa longa e penosa, aliás, infindável.
Os longuíssimos anos da cultura e civilização egípcia são mostruário do que é a sobrevivência através da utilização de categorias etnocêntricas: o velho Egipto nunca assimilou verdadeiramente outras culturas, outras gentes, no que aqui nos interessa: eram estas quem tinha de se adaptar, vergar, reduzir ao padrão egípcio, a fim de poderem continuar. O exemplo dos, então, indomáveis hebreus é claríssimo: não se deixando reduzir, apenas a distância físico-geográfica serviu de solução – exílio de exílio de uma cultura e de um povo que, sem terra, sobreviveu, também etnocentricamente, habitando o mito informador da sua essência e substância cultural.
Os exemplos são em número imenso: Helenos e Troianos, Romanos e todos os outros, Brâmanes e todos os outros, Europeus caucasianos e todos os outros, etc. Mas também adeptos do Clube X e todos os outros, amantes exclusivos de Harleys e todos os outros, amantes exclusivos de música Rock e todos os outros.
A necessidade de dividir o conjunto dos entes com aparência humana em pelo menos dois grupos, o meu e o dos restantes, tem assumido característica de necessidade histórica. Parece, assim, que, historicamente, não é possível conceber e construir o que é próprio da humanidade sem que tenha de se usar um modo metodológico negativo, isto é, esse que consiste em afirmar o próprio apenas segundo a diferença, mas não a diferença na sua positividade ontológica, onto-antropogónica, como isso que ergue no que é propriamente como «pessoa» cada ser humano, mas como isso que, distinguindo paradigmas antropológicos, afirma a minha humanidade contra o que é, não a humanidade diferencial e diferente do outro, dos outros, todos, mas a negação de humanidade verdadeira – a minha –, que tal diferença constitui.
Antropologicamente, revela-se, assim, que a humanidade – e não se conhecem excepções a nível de povos-culturas – tem sido incapaz de erguer a sua entificação como ser humano individual, isto é, como pessoa – apesar de reflexões tão antigas como definitivas como Gilgamesh e Job – a partir de uma perspectiva ontológica positiva sobre o ser próprio ser, na grandeza ontológica própria que o constitui, atribuindo a real grandeza ontológica a tal ser em sua mesma diferença constitutiva. A tradição, nisto universal, na sua concretude (não nos estamos a referir à formação da noção e conceitos de «pessoa», algo que necessitaria de um estudo à parte, remetendo para a entrada «Pessoa» da Enciclopédia Logos), sempre definiu o próprio da humanidade e, assim, do ser humano como algo negativo, dado que é obtido não através da intuição da positividade ontológica própria sua, mas através do contraste com algo sempre tomado como antagónico.
Ora, este mesmo tipo de visão classificadora não se encontra apenas entre diferentes povos-culturas, mas, no seio de cada povo-cultura, em formas de diferenciação grupal tratadas segundo o mesmo modelo lógico.
Deste modo, também no seio de uma cultura entendida em seu sentido mais forte de configuradora de mundo, encontramos diferenciações de índole negativa: por exemplo, as diferenças de tipo sexual, mesmo sem entrar no que se considera ser «desvios» (precisamente «desvios» relativamente a quê?); as diferenças de fenotipia individual: uns mais escuros do que os outros, mais altos, mais belos – características umas aparentemente objectivas outras nem tanto, mas todas dependentes de padrões que de objectivo nada têm, salvo o seu carácter cultural-etnocêntrico; as diferenças de gosto: por que razão há uns tantos «esquisitos» que gostam de amarelo?
Os exemplos poderiam multiplicar-se. Se terminámos o parágrafo com um exemplo irónico e jocoso, tal não nos deve fazer perder a noção de que estamos sempre a lidar com actos culturais que não são sem consequências. Ora, estas consequências não são meramente culturais, num sentido teórico do termo, são, fundamentalmente, dramáticas, do ponto de vista antropológico, por vezes, e não raras, como no caso do nazismo e correlativos, antropologicamente trágicas.
O maior assassino de seres humanos, ao longo da história – e não há outra história senão a humana –, passe a prosopopeia, é o etnocentrismo. Não há guerra que nele, em última instância, não se baseie: se precisamos de algo que outro povo possui e se nele reconhecemos humanidade, negociamos com ele, não o atacamos para ficar com tal bem. Esta última acção só se desencadeia quando o perspectivamos como coisa boa para eliminar. O ser humano é precisamente isso que não se elimina, pois é o meu semelhante, esse que, comigo, constitui o meu povo. Quando quero eliminar um destes seres, por qualquer razão – e qualquer pode servir – começo por eliminar nele a pertença real ao meu povo, à humanidade propriamente dita; só depois, o elimino. Posso fazê-lo através de um processo legal, como Hitler fez com os indesejados, como se faz ao vulgar condenado à morte, que se destitui legalmente do direito à vida, sendo esta destituição o que o mata, não o carrasco, que se limita a concretizá-la, dado que a legislação ainda não mata directamente.
Legalmente também o posso fazer anulando arbitrariamente a continuidade onto-biológica do ser humano, processo que se pode desencadear desde o momento da efectiva união de gâmetas em perfeita diploidia até qualquer fase da sua vida.
Todas estas são formas legais de eliminação etnocêntrica do estatuto ontológico humano, algumas dando-se ao requinte de serem legalmente informadas.
Podemos, então, perceber que a questão da multiculturalidade é tão antiga quanto a própria humanidade e que as grandes questões que hodiernamente se apresentam são paradigmaticamente as mesmas de sempre: que é esta «coisa» que se me depara e que tem aspecto humano? Eis a grande questão que sempre se pôs e que continua a pôr-se hoje e se porá enquanto existir algo como a humanidade.
A diferença própria dos dias que vivemos consiste não na essência ou substância da questão, isto é, da existência de uma multiculturalidade, mas na sua dimensão e complexidade. No entanto, os princípios a respeitar são os mesmos: só há uma humanidade – Gilgamesh, Job, Moisés, Tutankamon, Penélope, Antígona, Sócrates, todos são seres humanos, todos semelhantemente humanos em suas diferenças próprias, todos com a mesma dignidade humana fundamental. Nenhum mais ou menos humano do que o outro.
Estas figuras são modelos para a compreensão do que está em causa: nas suas culturas, mas sempre para além das suas culturas, todos os seres humanos são irredutivelmente pessoas, todos têm como intrinsecamente próprio o direito à vida e, nesta, o direito a poder ser o melhor que lhes é possível, no seio de uma humanidade que toda goza de tais mesmos direitos. São estes os grandes direitos da pessoa, que fundamentam todos os outros, de que todos os outros, em absoluto, dependem, com o respeito pelos quais a humanidade pode não apenas ter futuro, mas ter um futuro digno de pessoas, não de bestas; sem o respeito pelos quais a humanidade se auto-condena ou a um futuro de bestialidade ou a futuro nenhum.
Américo Pereira
Julho 2016



[1] Tradução nossa de um trecho retirado de uma notável síntese dogmática que o governante e historiador britânico faz do essencial dos princípios nazis e que se pode encontrar em: CHURCHILL Winston S., The Second World War, vol. II, Boston, Houghton Mifflin Company, s. d., pp. 50-51.
[2] Neste momento, ano de 2016, a Europa passa por uma fase cultural e política de retoma desta doutrina. Tal retoma é pública e consentida, como nos tempos de Hitler.

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