Pecado original

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segunda-feira, 22 de maio de 2017

Absoluto verde -Reflexão acerca da radicalidade do presente na obra Viagens na minha terra, de Almeida Garrett

Li pela primeira vez esta encantadora obra há mais de trinta anos, inicialmente obrigado, por motivos e imperativos escolares. Comecei contrariado, continuei deliciado e terminei – coisa rara em mim – satisfeito. Não cabe aqui abundar sobre razões, nem talvez me lembre já delas, interessa outrossim lembrar que, durante todos estes anos nunca me esqueci das histórias desta história, dos personagens e sobretudo desse hino à beleza em carne feita prosa, feita poesia, que são os olhos de Joaninha, de um inadjectivável absoluto verde.
Que melhor pretexto para escrevinhar umas prosaicas linhas, que melhor lenitivo e auxílio posso querer a não ser estes olhos? Mas olhos são matéria de poeta e tu és um mero aprendiz de filósofo — diz-me esta coisa algures interior e incómoda que é a consciência — escreve antes sobre os frades e os barões, sobre as velhinhas que também vendem bem nos dias que correm; olhos, quem é que quer ver isso? Ver perturba, aliena das finalidades mais prementes, é cansativo e, se há muita luz, pode mesmo traumatizar os olhos e impedir a capacidade ordinária, comum, socialmente aceitável e benéfica de ver com aceitável normalidade.
Olhos — que tema! Não há neles coisa alguma de novo que ver; basta o que já foi visto e está consagrado. Para que queres ver mais? Assim, como está, está bem! Com tanto querer ver, ainda ficas cego; ganha correcção política e escreve sobre as velhinhas.
Assim discorreu esta prudente e minha consciência. Mas como não quis ver as suas razões, resolvi-me a olhar as personagens das Viagens sob este ponto de vista: da visão e da cegueira ou da não-visão.
Neste nosso scherzo (que mais não é este textinho), como em tudo — literal e dramaticamente tudo — na vida o que está em jogo é a nossa visão: a nossa visão do texto — dos textos —; a nossa visão que temos ao ter, ao experimentar aquela visão; o modo como vemos isso integrar-se na vida, na nossa nossa e na nossa em comunicação com as outras — que também são nossas, por essa mesma comunicação —, o modo como, como um todo, vemos a vida. A visão que vai estar aqui em causa não é só a de Garrett, nem sobretudo a de Garrett, mas a nossa; a parte de visão e a parte de não-visão – usemos o termo tão temido –, de cegueira que é a nossa. Vejamos pois.
A velha é a única personagem que é fisicamente cega – cegou-a o excesso de uma dor sem alívio possível ou com único possível alívio exactamente nessa cegueira que, arrancando a alma sofredora ao convívio com a luz, como que a arranca também, em parte, ao estigma que a fere. Mas, se a cegueira física pode, de algum modo, aliviar a dor de quem já não suporta ver o mundo, na sua mácula, parece não ter liberto a velha para outra qualquer, diferente, alternativa visão, pois o seu universo interior fervilha de sombras de fantasmas, cinzentos sobre cinzento, formas móveis de escuridão, onde nem a brilhante luz da presença de Joaninha parece ter qualquer efeito substancial em termos de advento de claridade, de afastamento das trevas. Uma cegueira que não pode ver ou não quer ver, que parece negar a evidência de uma luz tão próxima e potencialmente tão eficaz.
Quer com isto dizer-se que a cegueira física — exterior — da velha não criou espaço para o surgimento de uma outra visão, sem olhos de carne, mas com vistas para o amor, a bondade, a esperança: presentes, próximos, incarnados em Joaninha. É assim, interiormente, que a velha é profundamente cega, pois não vê a riqueza do amor de Joaninha — este pela sua abundância, se recebesse o acolhimento que merecia, ofereceria uma re-criação do universo interior da velha, o que nunca chega a acontecer. Se o amor pode operar milagres junto daqueles que ainda estão vivos, nesta nossa dimensão humana, nada pode fazer pelos mortos e a velha estava, de facto, já morta: morta porque a vida não é o operar mais ou menos orgânico, organizado, de isto a que chamamos ser humano.
Perante a presença amorosa de Joaninha a avó não bebia dessa presença, não a aproveitava para viver, para viver esse amor e com esse amor, mas para nesse amor encontrar energias para voltar ao passado, à fonte da sua dor, dor que hipostasiou e com cujo culto substituiu a própria vida. Os olhos da velha estavam inexoravelmente fascinados pelo cadáver da sua dor, a sua visão transformada numa arqueologia idólatra do sofrimento. Incapaz de ver o presente, incapaz de colher os frutos da dadivosidade da neta, incapaz de retribuir, acolhendo-o profundamente, o humaníssimo e imprescindível apoio cordial que lhe era dado.
Presa ao passado, presa à dor que é sempre passado porque é no presente apenas visão, imagem, a velha não é uma cega profetiza, é apenas a que não vê, é apenas um símbolo vivo da morte que tarda. Os olhos da velha são os olhos da morte.

Parecida com a cegueira da velha é a do frade. Também este vive com os olhos postos no passado. Vê e não vê, compreende e não compreende que o que foi é irreversível, que a vida passada só se redime deixando de o ser, deixando de se centrar no passado e centrando-se no que existe unicamente: o presente. É em acto diferente, no presente, que é o lugar da diferença, que a vida pode negar positivamente o que foi, sendo diferente, sendo melhor, sendo boa.
Mas não, não é isto que vê o frade; não é isto que o frade vê. O presente é Joaninha, a luz dos seus olhos, a esperança da sua luz, que em verde se dá, o calor do seu amor. O frade nada disto vê, cego pela dor e pelo ódio que ocupam todo o seu campo visual, toda a sua vida, todo o seu ser. A Joana, nem parece vê-la. Ignora-a. Despreza a possibilidade da salvação; nega a bondade, renega a beleza, foge da graça e como que acaricia a desgraça. Assim, não sendo fisicamente cego, vê como se o fosse, olha as coisas como se fossem como são no universo interior da velha, variação, aqui, em tons de negro, num cenário cósmico de negrume: nada tem encanto, nada é bom, toda a cor fenece por detrás deste manto de azedume, desta visão voluntariamente toldada pelo apego à irrealidade do passado.
Se o presente político lhe dá razão para não mudar o olhar, pois continua o doloroso passado; se o presente religioso, no que tem de ligação ao político, também não apresenta motivos de alegria, o contacto emocional, vivencial tão próximo com a doçura paradigmatizada em Joaninha deveria provocar uma conversão daquela alma, estivesse esta aberta à conversão, estivesse esta atenta a algo que não aos ídolos da sua dor e do seu ódio, quisesse esta ver. Mas não queria. Há no frade uma profunda hipocrisia de um homem que mexe muito, mas para nada; que é cadáver e que mente ao remexer-se para afirmar o contrário — mas que gosta de ser cadáver e que o sabe: é o cadáver do cadáver — a velha morta, elevada ao quadrado da potência, multiplicado pela hipocrisia. Mais um que perdeu a graça de poder viver, mais um que desviou os olhos de Joaninha, da graça, da salvação.

Carlos, esse tem olhos, bons olhos mesmo, olhos esclarecidos, olhos inteligentes, olhos viajados e arejados, olhos poliglotas, olhos maravilhosamente dotados e que poderiam dar uma visibilidade quase divina. Mas Carlos também não quer ver. Percebeu, sofrendo por isso, o quão perigoso e doloroso era fixar o olhar no passado — bons exemplos disso havia por perto — preferiu fixar o seu olhar no futuro. Está salvo! — pensar-se-á. Só aparentemente e só exteriormente. Se, de facto, Carlos acaba fisicamente vivo — e não só vivo, mas baronizado, que é uma forma «burguesa» de se estar vivo — acaba sobretudo interiormente morto — o barão é uma forma polida e perfumada do famoso cadáver adiado — pois o seu olhar, de tanto fugir à possibilidade de ver o passado — e à dor decorrente dessa visão — e de tanto se refugiar no futuro, no futuro o mais insubstante possível, também ele não esteve no único momento denso da vida, o presente.
A velha e o frade alienaram as suas vidas no passado, na insubstância hipócrita do passado. Carlos alienou a sua vida na hipócrita insubstância do futuro, perdendo a única realidade: a presente. Por isso não foi capaz de amar Laura, Júlia, Georgina, Soledade ou Joaninha. Nunca era aquela mulher presente que ele queria, era uma imagem insubstante qualquer algures no futuro, algo que não pudesse ter presente, para não poder ter passado, para que ele não pudesse vir a sofrer: tudo menos sofrer, tudo menos passar pelo martírio da velha ou do frade – mais vale fingir viver no futuro, sempre inadequado, sempre, por isso mesmo, seguro.
Às duas cegueiras anteriores, às duas mortes anteriores, vem juntar-se esta nova; à hipocrisia de uma vida polarizada num passado junta-se a hipocrisia de uma vida polarizada no futuro. Rigorosamente, se os dois velhos são cadáveres adiados, Carlos é um cadáver antecipado.

Georgina, essa vê. Vê com uma amplitude total e uma nitidez terrível. Vê o passado, vê o futuro — mais do que entre-ver, vê — e vê o presente; e como vê o presente, no presente que é, pode pôr o passado no seu lugar e pode como que adivinhar o futuro presente, já presente no presente. Ela mesmo se define como aquela que tem olhos de lince, olhos de lince porque ama e, acrescente-se, ama porque vê o presente, porque olha o que está, o que é: não hipostasia em analepse ou em prolepse, não se refugia hipócrita e cobardemente no passado ou no futuro, não ama em memória ou em sonho, não ama em imagem, porque não vive em imagem, vive onde está, vive o que é; vê onde está, vê o que é. Por isso, vê Joaninha e o amor que dela irradia: é a única que é capaz de perceber a luz verde que brota daqueles olhos-faróis, é a única que, por isso, não naufraga, não foge — cede o lugar, cede-o vendo-se cedendo-o e assumindo essa cedência. Mas vendo-se assim e sofrendo, não erige esse sofrimento em ídolo de autocomplacência, pelo contrário, alegra-se com a possibilidade da alegria dos outros e, feito isto, retira-se, não como traidor humilhado pela vitória alheia, mas como herói ignoto que sabe cumprida a sua tarefa.
O olhar de Georgina volta-se para dentro, mas para um interior que o sofrimento não enegreceu, antes purificou para morada da alegria, essa que tudo vê e tudo ama. Freira, vivendo nos antípodas espirituais de frei Dinis, Georgina é a única que sai vivendo, vivente, viva destas Viagens, pois é a única que, podendo, aceita ver a vida e aceita viver a vida.

Joaninha. Bendita a pena que a criou — é necessário possuir-se uma finíssima sensibilidade para produzir tão gentil, amável e simples, tão perfeita — criatura. Mas Garrett foi cruel. Criou-a perfeita, mas impossível de viver: e teve, breve, de a matar. Nem outra poderia ter sido a sorte de Joaninha: ela que paradigmaticamente é a vista, a visão, o olhar na sua excelência, o ver na sua magnitude e os olhos na sua transcendente beleza, ela não poderia viver: pois esta vista não era vista, não havia no mundo olhos que a vissem, veres que a vissem, espaço para existir.
Há aqui algo de profundamente perverso, diabólico: o modelo da visão, a visão como estar vivo presente no presente, esse modelo não tem lugar, ninguém o vê, ninguém lhe dá um espaço no presente, não tem presente possível. Vimos já que nem a velha, nem o frade, nem Carlos viam Joaninha — a única excepção não conta, pois Georgina como que vê ao modo dos anjos, sem carne —, isto é, todos aqueles que eram tudo para Joaninha não tinham verdadeiramente espaço para ela. E se ela tinha que dar! Toda se resume a uma irradiação de bondade — simbolizada nos olhos verdes que iluminam —, toda se desfaz em amor, mas amor sem eco verdadeiro, amor sem eco presente, amor sem recipiente possível.
Como um olhar sem espelho que lhe devolva o verde que irradia, assim os circunstantes a quem dava o seu amor o não recebiam: os seus raios quentes e tão doces perdiam-se na voragem do passado dos velhos e do futuro de Carlos. Nenhum deles tinha presente onde acolher o amor de Joaninha, nenhum deles tinha vida ali, naquele momento, onde pudesse ficar retido algo desse amor. Tudo se perdeu na incomunicação de presenças não-presentes, de vidas diferidas de olhos que não viam. Ao não a verem, os olhos dos velhos e os olhos de Carlos condenam Joaninha à morte: pois se a vida dela era aquela dádiva de amor, que mais fazer, como existir?; só restava desistir. E desistiu.
Se os velhos são dois cadáveres adiados e Carlos um cadáver antecipado, Joaninha é o cadáver impossível e no entanto acontecido. Se aqueles viveram por defeito a vida, Joaninha morreu por excesso de vida. Ironicamente, a vida que lhe sobrava a ela era a que faltava aos outros, só que estes não o perceberam e, assim, mataram tudo. Há quem chame a esta cegueira o destino.

Garrett finge não ver o que de importante nos dá na construção destas figuras e das suas relações e digo finge porque o mais importante aparece submerso por um imenso lastro de erudição, comentários, preocupações políticas ou culturais. No fim de contas, a história de tantos e tão importantes olhares aparece apenas como um componente ligeiro, no meio de tantos outros, com que Garrett compõe as Viagens. Mas o que seriam as Viagens sem esta historieta de olhares? Não é pois possível pensar que Garrett possa entrar no rol dos sem-visão, ao lado dos velhos ou de Carlos: a sua preocupação é nitidamente com o presente, do qual pressente a importância e a profundidade e, assim, é um pouco à imagem de Georgina. Não podendo pessoalmente retirar-se do século, é no entanto patente a angústia de quem sente o momento em que está, de quem o vive, mas não consegue partilhar esse sentimento, essa vida com outros presentes fisicamente, mas ausentes espiritualmente.
É pois esta a obra, necessariamente póstuma, de um homem que via e via que via, mas via também que os seus olhos, verdes de esperança – de direito – não tinham espelho que os reflectisse. A angústia que nas aparentemente leves páginas das Viagens me é dada ler é a angústia de quem não quer sofrer o mesmo destino de Joaninha, de quem tem para dar aos outros, de quem pode indicar caminhos novos, porque vê diferente, mas que não é ouvido, porque os homens não têm ouvidos para ele, mas que não é visto porque os homens olham e não o vêem.
Joaninha é a alma das Viagens, não porque seja uma figura romântica bem conseguida, terna e doce, mas porque na sua morte trágica personifica a morte daquilo que nunca deveria morrer: a pura bondade possível ao ser humano, morta às mãos deste.
Eis um testamento imortal de Garrett. Eis o espelho do nosso desengano.

Américo Pereira

2015

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