Considerações iniciais
Esta reflexão acerca da técnica na sua relação com o trabalho, funcionará
segundo uma perspectiva epistemológica em que se privilegia a forma crítica,
cobrindo os âmbitos da acção humana em seu sentido produtivo e criador, o que
designaremos como «poiético», poético. Será, assim, uma reflexão acerca da
poiética humana. Mas como esta poiética não é passível de ser desligada quer de
uma ética quer de uma política quer, ainda, de uma ontologia humana, isto é, de
uma antropologia, e de uma ontologia geral cosmológica, todas estas dimensões
irão estar presentes, manifesta ou supostamente, nesta nossa reflexão.
As coisas especificamente humanas e apenas humanas da «poiética», «técnica»
e «trabalho», não são, de modo algum, pensáveis de forma isolada, como se estas
especialidades da acção humana geral – que subsume a pragmática poiética –
subsistissem de forma absolutamente autónoma. Assim, a inserção do ser humano
como ente técnico e como ente que trabalha terá de começar com a sua relação
com o mundo em que está, com todas as dimensões desse mundo. Ora, no que diz
respeito às questões relativas à técnica e ao trabalho, a presença do ser
humano no seio de uma materialidade omni-envolvente é de radical importância e,
como tal, não pode deixar de ser pensada.
Por exemplo, a realidade económica da técnica e do trabalho não é
minimamente compreensível se não se pensar exaustivamente a relação de técnica
e trabalho com o mundo físico. Disciplinas como a economia, o direito, a
ciência política, mesmo a sociologia e a própria psicologia nunca entenderão as
respectivas valências próprias quando aplicadas ao estudo de técnica e trabalho
se não compreenderem a importância que a radicação do ser humano no seio da
mundanidade física tem para o aparecimento da técnica e do trabalho.
Deste modo, a reflexão acerca do trabalho e da técnica impõe-se
epistemologicamente como um lugar de pensamento transdisciplinar, em que todas
as perspectivas sobre estas duas dimensões do acto humano podem ser chamadas a
colaborar. Nenhuma delas pode, no entanto, ser privilegiada, o privilégio cabe
à própria atitude heurística e crítica da filosofia, que deve ponderar acerca
do que é isso que constitui a essência e substância quer de «técnica» quer de
«trabalho», em todas as suas dimensões e na sua, como perceberemos, necessária
relação.
Iremos também perceber que estes dois modos de acção do ser humano são de
tal forma importantes que, de certo ponto de vista, podem mesmo ser
confundidos, pela positiva e pela negativa, com o que a mesma acção humana é ou
pode ser. Esta sobreposição ou confusão pode resultar em perigosíssimas
reduções, que ameaçam aniquilar a própria humanidade ou, no mínimo, reduzi-la a
um estatuto de escravatura. Mas, bem entendidas, estas duas dimensões podem, na
sua grandeza propriamente humana, ajudar a um entendimento mais correcto do que
é a condição humana como coisa com necessária dimensão material, impedindo que
se caia na tentação não menos potencialmente danosa de formas de angelismo ou
de pseudo-humanidades desencarnadas, formas outras de aniquilação da mesma
humanidade.
A reflexão sobre a técnica e o trabalho pode parecer uma tarefa serena e
sem prospectivas de polémica: nada mais errado, pense-se no que tem sido o
panorama reflexivo acerca destes temas desde que Platão o inaugurou
cientificamente na sua Politeia. Já
aqui, a questão da divisão do trabalho conduz a conclusões que são tudo menos
de aceitação pacífica, levando mesmo o Autor a propostas algo bizarras, mas que
procuravam eliminar certos perigos do que considerava serem formas tradicionais
ilógicas de governo precisamente da técnica e do trabalho. De uma forma
inusitada, esta mesma reflexão implicou que Platão reconhecesse às então
ignoradas mulheres potencialidades humanas e políticas semelhantes às dos
homens, numa intuição durante muito tempo escandalosa e que permaneceu, mesmo
tendo sido publicada («Livro V» da República),
ignorada perto de 2400 anos.
Mas pense-se também no que foi e continua sendo a segregação segundo o sexo
a que se pertence baseada na técnica e no trabalho, e é a triste história de
uma humanidade incapaz de se pensar substantivamente, preferindo
auto-catalogar-se e diferenciar-se segundo características adjectivas, menores.
Pense-se no que foi, desde tempos imemoriais, a divisão política entre
senhores e escravos, baseada na divisão do trabalho e das suas mediações;
divisão que persiste hodiernamente.
Pense-se também no que foi o abuso esclavagista operado aproveitando o
surgimento de novas técnicas e tecnologias, sempre, mas sobretudo, de forma
esmagadora, por causa dos números envolvidos, aquando do desenvolvimento da
máquina a vapor.
E pense-se, por fim, no que foi a reacção marxista e pós-marxista a este
mesmo movimento esclavagista, com todas as consequências positivas e negativas
que acarretou.
Pense-se, noutro âmbito, mais profundo, porque diz respeito à própria
possibilidade de definição actual de cada ser humano e da humanidade como um
todo, no que é o entendimento do trabalho como algo de não apenas penoso num
sentido físico, mas penoso num sentido moral, como posto na condenação ao
trabalho do casal mítico primitivo Adão e Eva.
O «suor do rosto» deixa de ser apenas a manifestação física, perfeitamente
inocente, do esforço necessário para poder operar com massas sujeitas a um
campo gravitacional qualquer, no caso, o do nosso planeta Terra e seus corpos
maciços vizinhos, para passar a ser um castigo imposto porque houve uma falta
propositada.
O mais estranho, do ponto de vista que aqui nos interessa, é pensar que
esta falta que, neste mito, nos condena a uma pena escusada, segundo o próprio
mito, é nada mais do que uma falta ou falha técnica: o personagem de
determinada história não foi capaz de cumprir o regulamento técnico que
permitia viver precisamente sem trabalhar. Uma questão de falta de
inteligência: diriam, e bem, Sócrates e Platão (Aristóteles nunca entenderia…).
Ironia à parte, podemos perceber que a ligação entre trabalho e técnica e a
questão da sua necessidade e de sua ligação necessária não é historicamente
óbvia, se bem que essencialmente o seja. Iremos procurar esclarecer estas
relações e procurar provar que o trabalho, em sua maior profundidade de
constituinte antropológico, não é mais do que uma necessidade humana, sem
conotação moral própria incoativa, mas que tem toda a importância na definição
moral e política assim que passa a acto.
Ao considerarmos os termos «técnica» e «trabalho» temos de ter em
consideração algo que é incontornável, objectivamente incontornável, e que é a
necessária dimensão física das realidades a que se referem. Se, por um lado,
técnica e trabalho são, fundamentalmente, realidades humanas e impassíveis de
ser pensadas na sua plenitude semântica sem a referência necessária à sua
relação ontológica com a própria humanidade, por outro lado, desta mesma
humanidade faz parte uma também necessária dimensão física.
Pode mesmo haver quem postule que o todo da realidade nada mais é do que
pura física, nada mais havendo do que formas diferenciadas de física, tudo
sendo a estas redutível e, em última análise, redutível a algo de «material».
Assim, a própria humanidade mais não seria do que uma realidade puramente
física, uma especial, mas ainda assim apenas física, forma de o real físico se
dar. No entanto, provar este postulado ou um que o negue, implica operar a um
nível lógico, puramente lógico e não-material,
nível que ainda não teve cabal explicação do ponto de vista puramente
físico, não se podendo saber, a priori,
se alguma vez tal acontecerá: teria de ser possível, e de se ter transformado
já esta mesma possibilidade em realidade, demonstrar apodicticamente que o
âmbito da lógica humana, em seu sentido mais vasto, mais não é do que uma forma
de física. Tal está por fazer.
Assim sendo, a reflexão sobre o que é a física, a técnica que nela se apoia
e o trabalho que a ambas necessariamente recorre é fruto de algo que ainda não
foi reduzido etiologicamente ao físico, algo a que se pode chamar «espírito
humano», «logos humano».
É este logos humano que permite o
acesso ao próprio horizonte ontológico de isso que tal mesma capacidade humana
denomina como «física», «técnica» e «trabalho» e mesmo «matéria». Sem a
operação do espírito, a mais simples ou frustre possibilidade de referência,
por exemplo a «física», seria impossível. Deste modo, há uma anterioridade
lógica do espírito humano relativamente ao físico, pois, como algo de presente
na forma de sentido, o físico depende da existência do espírito. Sem este
último, nunca se saberia se haveria física ou coisa alguma. Mas há, por via da
anterioridade lógica do espírito, a necessidade de uma anterioridade ontológica
do espírito, a menos que a anterioridade lógica que permite o acto da presença
do sentido, qualquer seja, remeta para um nada de si próprio, o que é
manifestamente absurdo.
Não vamos entrar nas polémicas entre idealismos e realismos e formas híbridas,
porque não é este o lugar epistemológico para o fazer, mas temos de assentar
que há algo, que constitui um absoluto de sentido – de etiologia funda
possivelmente não apreensível –, que sustenta a presença de isso a que se chama
«o físico», mas também «a técnica» e «o trabalho». Este algo semântico
fundamental é o próprio ser humano
como lugar lógico da presença do
sentido que o constitui, precisamente como unidade de sentido. Nós somos isso
em que «física», «técnica» e «trabalho» surgem na forma de actos de sentido.
É sobre o conteúdo destes actos de sentido, no mundo semântico próprio que
constituem, que vamos agora reflectir tendo em conta a dimensão física das
realidades que aqui nos ocupam.
O que é o «físico»?
O termo «físico» e o termo «física» têm a sua origem no termo grego
«physis», que tradicionalmente se traduz por «natureza», mas que tem um sentido
muito mais profundo, sentido, aliás, que permite perceber a dimensão
fundamental do que a natureza é, não apenas para os antigos gregos, mas em sua
mesma grandeza ontológica própria. «Physis» diz respeito ao verbo «phyo»,
«phyein», que quer dizer «brotar», «nascer», «fazer nascer», «crescer», «fazer
crescer».
Tal significa que «physis» é o que «brota», o que «nasce», o que «cresce».
Este sentido etimológico remete o natural e a natureza para um dinamismo e uma
cinética que são a matriz ontológica fundamental do ser como coisa natural: o
poder de movimento e o próprio movimento. Natureza
é fundamentalmente movimento. Estamos habituados a pensar que natureza é
ausência de movimento, fixidez: pois é precisamente o contrário. E este sentido
dinâmico-cinético de natureza é determinante para que se possa perceber o que
está profundamente em causa na técnica e no trabalho.
Técnica e trabalho, como partes integrantes da natureza neste sentido, são
especiais formas de movimento, de movimento com uma dimensão natural, dimensão
que diz respeito ao movimento e seu possível domínio, portanto, à relação entre
isso que é sujeito de técnica e de trabalho, que é o sujeito de técnica e de trabalho, e os movimentos objectivos a
que tal sujeito se dedica, através de formas próprias de movimento que passam
por movimentos em sua mesma interioridade semântica – sua esfera propriamente
ética – e terminam eventualmente em movimentos físicos, que se inscrevem,
construindo-a, na esfera do político.
Podemos, já, perceber, depois desta breve reflexão inicial, que, na
sequência da natureza própria do que é ser-se humano, há um âmbito ético e um
âmbito político necessariamente associados a técnica e trabalho.
O que ficou estabelecido anteriormente implica, por exemplo, que quer o
âmbito da técnica quer o âmbito do trabalho estejam submetidos a condicionantes
necessários e necessitantes imediatamente postos pela sua radicação física.
Técnica e trabalho não podem, jamais podem, eximir-se ao que são os princípios
naturais que regem o movimento da e na natureza: por exemplo, não é possível
exercer-se qualquer movimento técnico sem que sejam respeitados os princípios
naturais gravíticos ou inerciais em geral. Por mais subtis que sejam a técnica
ou a arte (a arte é um subconjunto da técnica), não é possível exercê-las sem
respeitar a gravidade.
Este respeito tem implicações importantíssimas no próprio desenvolvimento
da técnica, pois, no que constitui o movimento dialéctico entre a finalidade do
acto técnico e a possibilidade mediacional de sua execução, surge toda a
evolução a que chamamos cultura,
sobretudo na sua componente civilizacional. Exemplo maior é o caso da
finalidade humana de voar como as aves,[1]
impossível de se concretizar ao modo de um Ícaro, porque a sua técnica não
respeita os princípios da física, da gravidade, da sustentação aerodinâmica,
etc., mas concretizável e concretizada pela máquina voadora dos irmãos Wright,
cuja técnica de concepção e de construção respeita tais mesmos princípios, o
que fez com que tal máquina pudesse voar e voasse mesmo, abrindo todo um
universo técnico de possibilidades éticas e políticas, verdadeiramente
revolucionando a vida humana e, com ela e por meio da sua acção e do seu
trabalho, toda a vida ecossistémica do planeta Terra. Tal é a importância da
técnica, na sua dimensão física e de necessário coadjuvante físico do ser
humano.
Este caso é bem esclarecedor quanto ao poder realmente ontológico da
técnica, pois o novo mundo de possibilidades radicalmente novas que a aviação
consigo trouxe implica a modificação da realidade mundana de forma que
interessa a própria ontologia: desde a possibilidade de levar a guerra de forma maciça a populações civis a
distâncias antes impossíveis (evidência que teve no bombardeamento de Guernica
a sua prova cabal inicial), à aplicação no âmbito do desenvolvimento de novos
métodos de agricultura industrial dependentes da intervenção de aeronaves – e
os exemplos poderiam multiplicar-se de forma imparável –, a possibilidade de
uso da aviação modificou o ser da
realidade do mundo concreto em que a humanidade vive, desde que os irmãos
Wright efectivaram o seu primeiro voo.
Mas este importante e determinante exemplo serve ainda para mostrar uma
outra realidade fundamental, a saber, a da relação entre técnica e trabalho:
para poder produzir – mais literalmente, criar, pois trata-se de introduzir no
ser algo de nunca antes nele existente – o avião, teve este par de irmãos de trabalhar,
e muito, de não apenas empregar uma técnica que já possuíam, mas de inventar
toda uma nova técnica – é esta invenção que constitui a tecnologia –, invenção
que implicou trabalho, mas trabalho que apenas foi passível de ser prosseguido
porque houve uma técnica que foi sendo por ele produzida.
Assim, percebe-se, a partir deste exemplo, que há uma necessária dialéctica
entre trabalho e técnica, dependendo sempre um da outra e esta daquele: não há
ou pode haver trabalho em seu sentido humano sem uma técnica qualquer que lhe
sirva de suporte, mas também não pode haver uma técnica qualquer sem que haja
trabalho que permita a sua criação e aplicação.
Deste modo, podemos dizer que a técnica é sempre o produto ou o veículo do
trabalho ou ambos e que o trabalho é a técnica em acto quer mediacional quer de
efectividade. A tecnologia é a técnica na sua vertente teórica, isto é, como sentido teórico quer mediacional quer
efectivo da técnica. Aquilo a que habitualmente se chama «tecnologia» mais não
é do que o trabalho mediacional da técnica na sua forma teórica pura.
Por muitos desprezado, o âmbito da técnica e do trabalho a ela associado
reveste, assim, uma importância fundamental quer para a construção daquilo a
que se chama a civilização quer da cultura quer da própria realidade
antropológica, indissociável destas duas realidades. Ainda neste âmbito, que é
o âmbito próprio da vida concreta dos seres humanos, a técnica e o trabalho
apresentam uma característica fundamental: é que demonstram imediatamente e sem
possibilidade de desmentido quer formal quer material que a vida humana e a sua
inserção no mundo não é mágica, isto é, sem mediações operativas, mas
precisamente anti-mágica, pois não há e não pode haver qualquer efeito sem que
haja uma qualquer forma de trabalho e de técnica a ele associada.
É esta a grande lição, mitos à parte, da expulsão do Paraíso de Adão e Eva,
para um mundo, que é o real, em que nada se consegue sem uma qualquer forma de
esforço, que é o trabalho, acompanhado sempre por uma qualquer forma de
capacidade operativa, prática e pragmática, que é a técnica. Técnica e trabalho
são, assim, como acabou de ser demonstrado, estruturantes do ser próprio dos
entes humanos, cuja existência é impossível sem estas duas possibilidades
activas. Possibilidades activas que constituem os seus instrumentos
inalienáveis de criação de isso a que se chama o mundo humano, por oposição ao
que fosse um mundo totalmente não-humano, realidade que nem sequer podemos
imaginar ou pensar de qualquer outro modo.
Esta importância percebe-se melhor se meditarmos mais uma vez no exemplo do
voo: ao ser humano não é possível voar como
a outros seres, como algumas aves, por exemplo, apenas cair, impelido pela
força de atracção gravítica de corpos muito mais maciços, como o Planeta Terra
(ou micro-voar quando corre). Tudo isto obedece ao paradigma dos princípios
universais da física. Mas, pode voar de forma artificial, quer dizer, através
de técnica e trabalho, se, através da acção técnica e trabalho necessário
correspondente, respeitar aquele mesmo
paradigma físico.
Voar, é, assim, no âmbito técnico e laboral, na sua relação com o paradigma
principial físico, natural, mas já num outro sentido, no sentido em que é
natural ao ser humano poder respeitar e efectivamente respeitar os princípios
motores da física, assim criando um
prolongamento da física independente da humanidade, na forma de uma nova
física, síntese entre os princípios físicos incoativos e a técnica e o trabalho
humano, que constitui uma física dependente do ser humano.
Neste sentido, a aviação e muitas outras actividades humanas também são prolongamentos naturais da física na
forma da cultura e da civilização, actos imensos de uma humanidade cuja
natureza física consiste em poder reinventar através do trabalho e da técnica,
o próprio universo.
O que é fisicamente «trabalho»?
Fisicamente, «trabalho» é uma grandeza que se expressa pela fórmula W=Fd
cos θ. «W»
significa «trabalho», «F» significa «força» medida em Joules (J), «d» significa
distância percorrida pelo corpo medida em metros (m) e «cos θ»
significa o co-seno do ângulo existente entre a direcção do movimento e a da
força aplicada. O trabalho é a medida de energia transmitida de um sistema para
o outro e que provoca o movimento de um corpo. O trabalho realizado por unidade
de tempo recebe a designação de potência.
Muitas ilações podem ser retiradas destes breves, mas importantíssimos
dados. Apenas retiraremos algumas, que nos parecem mais pertinentes para a
finalidade da reflexão que estamos a fazer.
Assim, podemos perceber que a fórmula física relativa ao trabalho implica
imediatamente que não pode haver qualquer forma de trabalho sem que haja o
exercício de uma força qualquer, o que implica, por sua vez, que todo o
trabalho implique esforço físico: não é possível exercer qualquer forma de
trabalho sem que o corpo humano exerça uma qualquer forma de movimento, acto que
implica transferência de energia deste mesmo corpo como sistema físico, para um
qualquer (ou quaisquer) outro sistema físico. Pode ser o saco que se transporta
de um sítio da fábrica para um outro, a batida na tecla do computador, o
complexo movimento exigido pela fala de quem discursa, o movimento
físico-químico interno ao corpo do “puro” pensador.
Daqui se retira que não há qualquer actividade humana que não seja uma
qualquer forma de trabalho físico. Mesmo a pura contemplação do mais puro
“espiritual” é uma forma de trabalho no sentido físico. Mesmo isso a que
chamamos ócio ou lazer, querendo contrapô-lo ao trabalho, é, ainda, uma forma
de trabalho em sentido físico, embora o não seja em sentido ético e político.
Um outro significado que aqui nos importa relativamente à fórmula W=Fd cos θ diz
respeito à necessidade de haver uma qualquer forma de movimento para que haja
trabalho. Se repararmos bem, e porque a fórmula é toda ela multiplicativa, se a
deslocação for 0 (zero) o trabalho realizado será nulo, isto é, não há trabalho
algum realizado. Este movimento pode ser tanto de nível macroscópico e externo,
como se percebe pelo exemplo do saco transportado ou da tecla percutida, mas
pode ser também microscópico e puramente interno ao sistema-corpo do agente,
como no caso do contemplativo e do movimento apenas interior ao seu cérebro e
restante corpo (caso meramente ficcional e irrealizável pragmaticamente, pois
há sempre mais algo que se movimenta).
Ora, isto tem um significado importante em termos éticos e políticos, pois,
para que haja trabalho, tem de haver sempre movimento, isto é, tem de haver
sempre uma qualquer iniciativa do agente-corpo-sistema humano em trabalho.
Apenas no caso de um cadáver humano pode haver trabalho puramente passivo,
pois, podendo haver movimento, este não depende de algo propriamente humano no
sistema em consideração, mas de acções sofridas pelo cadáver, algo apenas
material, neste sentido físico aqui em causa. Esta necessidade física de
movimento implica, assim, que o agente humano, para que trabalhe, tenha sempre
de se movimentar, isto é, de agir: o trabalho humano é sempre da ordem da
acção.
A fórmula W=Fd cos θ implica, ainda, o exercício de uma força: se esta
for nula, também não há trabalho. Em termos do trabalho em seu sentido humano,
implica que o ser humano disponha de uma grandeza «força» que se define
fisicamente como qualquer acção ou influência que modifique o estado de
movimento de um corpo, produzindo uma aceleração de qualquer tipo. Deste modo,
podemos perceber que o ser humano possui esta capacidade de alterar o estado de
movimento de corpos: a começar pelo seu próprio, mas também de qualquer outro,
de forma directa, por contacto imediato, ou de forma indirecta, por contacto
mediado por outros corpos ou formas de energia.
A expressão popular «estou sem forças» é bem esclarecedora quanto ao
entendimento próprio que qualquer ser humano tem desta sua capacidade: estar
sem forças é, muitas vezes, sentir-se incapaz de sequer mover o seu próprio
corpo ou outros corpos quaisquer. Poder trabalhar, para o ser humano, quer no
sentido físico estrito quer no sentido antropológico, ético e político, implica
possuir esta capacidade de modificar o estado de movimento de algo, implica,
assim, ser capaz de exercer uma força. Tal implica que o sistema que é o corpo
humano possua energia (aqui sinónimo imediato de força) que tal permita. Por
sua vez, esta necessidade implica que a pessoa em causa esteja devidamente
nutrida, exercitada, saudável. As implicações políticas e económicas desta valência
energética são incontornáveis: não é simplesmente possível exigir que alguém
trabalhe se não for possuidor da energia/força necessária para produzir a
modificação no estado de movimento do seu objecto. A triste recordação do que
se passou em lugares como os campos de concentração ou as fábricas dos tempos
da chamada primeira revolução industrial é bem esclarecedora desta realidade
necessária.
W=Fd cos θ, na relação com o tempo gasto para obter tal
trabalho, grandeza que é a potência, implica que tem de haver um governo quer
da força empregue quer da própria relação angular, para uma mesma distância.
Conforme as circunstâncias – virtualmente infinitamente variáveis – o governo
da força e do ângulo irão determinar a potência usada para um mesmo tempo. Tal
tem implicações fundamentais quer para o desenvolvimento de soluções técnicas
que possam ajudar a manipular tais parâmetros quer para as condições de
trabalho dos seres humanos implicados. Por exemplo, posso obrigar alguém a usar
de uma quantidade de força prejudicial à sua saúde para, num mesmo tempo, obter
uma potência maior. Mas também posso, para evitar ter de usar seres humanos –
mais periclitantes e eventualmente mais dispendiosos –, produzir máquinas que
alterem o uso da força, permitindo intensidades de força impossíveis para os
seres humanos e que aumentam a potência disponível de uma forma que torna
irrelevante a presença humana neste âmbito, criando desemprego.
Estes breves apontamentos permitem-nos perceber a incontornabilidade da
matriz física presente na realidade trabalho quer entendida como algo de
meramente físico quer como algo de propriamente antropológico: a realidade
antropológica do trabalho não pode ser alienada da sua realidade física
fundamental. Não são totalmente sobreponíveis, mas compartilham um fundo basal
que não pode ser alienado. Desrespeitar esta comum realidade é alicerçar toda a
reflexão sobre o trabalho em seu sentido antropológico em fundamentos irreais,
tendo como consequência a incompreensão do que está em causa no trabalho humano
precisamente como trabalho, isto é, como expressão incarnada da possibilidade
de acção auto-criadora e hétero-criadora do ser humano.
Toda a técnica, que é em sua totalidade produto dos seres humanos, tem como
função integrar-se nesta dimensão física do trabalho, pois, não fora esta
dimensão de necessidade de exercer influência sobre o estado de movimento dos
corpos, não haveria qualquer necessidade de algo como isso a que chamamos
«técnica»: no mundo da pura lógica e da pura matemática, os movimentos, sendo
todos puramente lógicos, isto é, não-materiais, não necessitam, enquanto tais,
de «trabalho» ou de «técnica» próprios (atenção: não confundir com o acesso
pensante a este mesmo universo lógico por parte do ser humano, que necessita de
trabalho e de técnica). Tudo o mais é físico e implica formas de energia, de
movimento e de trabalho em sentido físico.
Técnica e trabalho, sempre em associação com o modo físico próprio quer do
ser humano quer do restante da realidade, constituem a mediação poética através
da qual a humanidade se constrói, como poema único de si própria, de que é
irredutível autor, eticamente, através da acção de cada pessoa, politicamente,
através desta mesma acção universalmente integrada.
Outubro de 2015
Américo Pereira
[1] Dizemos «como as aves», pois de cada
vez que corremos, ao haver um breve momento em que ambos os pés estão sem
contacto com o chão, estão estes a voar fisicamente, e nós com eles. O ser
humano, quando corre, voa, ainda que por brevíssimo momento e espaço. Mas voa.
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