Pecado original

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segunda-feira, 22 de maio de 2017

Verdade e justiça como pressupostos do perdão nas parábolas da misericórdia

«Então, Pedro aproximou-se e perguntou-lhe: Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes? Jesus respondeu: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete» (Mt 18, 21-22).
Jesus proclamou sempre o perdão de Deus e simultaneamente indicou a exigência do perdão recíproco como condição para o obter; Aliás, na oração que nos deixou ensinou a rezar: «Perdoa as nossas ofensas, como nós perdoámos a quem nos tem ofendido» (Mt 6, 12). Isto quer dizer que Jesus põe nas nossas mãos a medida com que seremos julgados por Deus. De facto, a parábola do servo insensível, que nos é relatada em Mateus 18, 23-34, punido por causa da sua dureza de coração, manifestada contra um seu semelhante, ensina-nos que aqueles que não estão dispostos a perdoar se excluem a si próprios, por isso mesmo, do perdão divino: «Assim procederá convosco meu Pai celestial, se cada um de vós não perdoar do fundo do coração a seu irmão» (Mt, 18, 35).
Diz-nos o Papa João Paulo II, na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1997 que o perdão, enquanto ato de amor, tem exigências intrínsecas; a primeira dessas exigências é a verdade, sendo que a verdade absoluta nos é revelada no Filho encarnado. Ora, isto implica imediatamente que todos os homens são chamados a viver na verdade e, por isso mesmo, o perdão, longe de excluir a busca da verdade, exige-a. Por essa razão, a corrupção, a manipulação ideológica e, em geral, a mentira, são, na sua essência, contrárias à verdade, agridem os fundamentos da convivência e minam a possibilidade de relações sociais pacíficas.
Outro pressuposto essencial do perdão é a justiça, que tem o seu critério último no desígnio de amor e de misericórdia que Deus tem sobre a humanidade. O perdão não elimina nem diminui a exigência da reparação, que é própria da justiça, mas pretende reintegrar quer as pessoas e os grupos na sociedade, quer os Estados na comunidade das nações. Assim sendo, nenhuma punição pode mortificar a dignidade inalienável de quem praticou o mal, de modo que a porta para o arrependimento e a reabilitação deve ficar sempre aberta.
 O amor divino é, assim, o fundamento da reconciliação a que somos chamados: «É ele quem perdoa as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades. É ele quem resgata a tua vida do túmulo, e te enche de graça e de ternura. […] Não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos castigou segundo as nossas culpas.» (Sal. 103-102, 3-4, 10).
De facto, nunca foi o pecado que escandalizou Jesus Cristo. Muito pelo contrário. Teve sempre um coração aberto para com os pecadores e arrependidos. Mas nunca o teve para os fariseus hipócritas, que se gabavam de não ter pecados, ao contrário dos publicanos arrependidos (Lc 18, 9-14).

A grande alegria do perdão, oferecido e aceite, cura feridas de outro modo insanáveis, restabelece o inter-relacionamento e radica-o no amor inexaurível de Deus.
Francisco Vaz
Março 2016

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