Ao
lermos ou consultarmos uma obra monumental como a Histoire générale des techniques, dirigida por Maurice Daumas
(Paris, PUF, 1962), ficamos com a ideia, bastante correcta, aliás, de que há
uma necessária ligação entre a vida propriamente humana e a técnica: a vida
humana, como a conhecemos, em sua actual humanidade parece ser impossível sem a
técnica. Já Platão percebera (ver «Livro II» da sua República) que, para que o ser humano possa existir e existir como
propriamente humano, tem de viver numa «polis» e esta implica necessariamente,
para que possa ser erguida, um conjunto integrado de mediações, umas apenas
feitas com a matéria da carne humana e com a subtil energia do espírito humano,
mas outras feitas com outra matéria e movidas por outras energias.
Estas
últimas mediações constituem a técnica, as técnicas. Mais «poiéticas», poéticas
ou mais pragmáticas e mesmo até consubstanciadas nos próprios gestos práticos,
para seguirmos a divisão operada por Aristóteles, as técnicas são as mediações
de construção da relação política que funda a cidade.
Assim
sendo, encontramos técnica, em geral, e técnicas particulares, que são
concretização tópica daquela, desde que encontramos seres humanos politicamente
enformados, isto é, na forma da «polis».
Para
procriar, é preciso técnica, para parir é preciso técnica, para que haja
alimento é preciso técnica, para procurar com quem procriar é preciso técnica,
para enterrar os mortos é preciso técnica. Estas etapas simbólicas da vida
humana servem precisamente para simbolizar a importância literalmente
fundamental da técnica quer para a construção da relação política que sustenta
a cidade quer para a possibilitação, na cidade, da vida de cada indivíduo
humano. Deste ponto de vista, irredutível, a técnica e as técnicas são não
apenas um bem, mas são um bem necessário, incontornavelmente necessário.
Como
tal instrumento possibilitador da realização, da autêntica criação (perceba-se
tal ou não – Platão, por exemplo, parece não o perceber; mas também uma certa
tradição já dita cristã também não) de mediações necessárias para a vida
humana, comunitária e individualmente considerada, a técnica é algo de bom, de absolutamente bom, pois, sem ela, nada
poderia ser realizado em tal âmbito, o que implicaria, também necessariamente,
que não pudesse existir humanidade.
Mas
em si mesma, a técnica é algo de neutro, nem boa nem má, pois é meramente
instrumental. A qualidade dos resultados da utilização da técnica é que é, à
partida, ambígua. Tal ambiguidade depende não apenas do fim a que o uso da
técnica se destina como da relação do fim com o uso da técnica. É, assim, um
problema ético, não técnico. Tal implica que a questão da moralidade da técnica
não faça qualquer sentido. Antes deve ser posto o problema da moralidade do agente que usa da técnica.
É o seu modo de acção que qualifica, não a técnica, que é eticamente
inqualificável, mas a sua própria acção.
Por
exemplo, uma técnica cirúrgica qualquer, genericamente entendida, pode ser
usada para solucionar um problema ocular, o que é um bem, ou para torturar uma
pessoa, o que é um mal. A mesma técnica que uso para martelar a cabeça de um
prego com que construo um berço pode ser utilizada para provocar um traumatismo
mortal no crânio de uma pessoa. Os exemplos são possivelmente infinitos. Tais
acções são eticamente qualificáveis (politicamente também), mas qualificam quem
as pratica, não a técnica que foi usada. A técnica como conjunto de
procedimentos mediacionais não é sujeito moral possível. Este é sempre e apenas
o ser humano que usa as técnicas, quaisquer sejam, quaisquer sejam as suas
finalidades, o seu modo de operação. Mesmo que sempre usada para o mal, uma
qualquer técnica não é má em si mesma por tal. Pode sempre ser usada para algo
de diverso do mal.
Deste
modo, percebe-se que, nascendo das naturais capacidades do ser humano, pois de
outras não poderia nascer, a técnica é um
prolongamento natural do ser humano. Tal percebe-se de forma clara e
imediata no caso exemplar das próteses ortóticas, por exemplo, no caso de uma
mão prostética, complemento artificial do corpo humano, mas cuja
artificialidade, propriamente a técnica, decorreu naturalmente da capacidade
humana de quem a desenvolveu. Com o desenvolvimento da técnica, a mão
prostética poderá assumir características de tal modo próximas com a
materialidade – talvez mesmo com a carnalidade humana – que a separação entre o
natural e o artificial se esbata de uma forma tal que integre tal prótese no
corpo, de forma próximo-orgânica, passando a fazer parte dele.
Este
exemplo, mesmo com a sua parte ainda especulativa, mas possível, é bastante
revelador da natureza profundamente humana da técnica e do também profundo
sentido de complementaridade humana e humanamente natural entre ser humano e
técnica.
Podemos,
então, dizer que a técnica é o necessário complemento humano natural da humanidade,
que permite a esta ser, pois é isso que serve para colmatar as insuficiências
mediacionais de que a humanidade naturalmente sofre. Mas é esta mesma natureza
lacunar que, necessitando de criação de complementos que possibilitem a vida
humana, faz com que a técnica tenha de existir.
A
relação entre a humanidade e a técnica formalmente é uma relação de simbiose: a
humanidade não pode viver sem a técnica; esta existe apenas porque é necessária
para a humanidade. É na actualização desta estrutura formal que podemos
encontrar e encontramos, de facto, a perversão da técnica através da sua
utilização não para o bem da cidade e da pessoa na cidade, mas de um, o tirano,
ou de poucos, os oligarcas, em detrimento dos mais.
A
técnica pode, assim, ser usada como mediação tiranizante. Ao longo da história
da humanidade, de que a historiografia sobrevivente é montra diminuta, mas
muito significativa, encontramos uma constância universal de uso perverso da
técnica no sentido acima exposto. Simbolicamente, podemos perceber que o mesmo
martelo com que faço o tal berço pode ser utilizado para construir uma masmorra
em que meto o ser humano a quem odeio, apenas porque o odeio, ou para o matar.
Deste ponto de vista, não já simbolicamente, mas na realidade concreta dos actos
dos seres humanos, a história da humanidade é também a história do uso da
técnica para fins perversos.
A
solução para este mal não reside no seio do universo da técnica, mas no seio do
universo das possibilidades éticas e políticas, na dependência das escolhas que
os agentes fazem.
Uma
outra questão relacionada com a técnica diz respeito à artificialidade que o
seu uso parece implicar. Não é a técnica isso através de que se cria o
artificial, por oposição ao «natural»?
Temos
de perceber que «artificial» se pode tomar pelo menos em duas acepções
diferentes: artificial como isso que é criado pelo ser humano como complemento
natural da sua própria natureza e integrável na restante natureza; artificial
como isso que é criado pelo ser humano como anti-natural. Sobre a primeira, já
reflectimos. Vamos, então, reflectir sobre a segunda.
Há
um domínio de artificialidade que não complementa a natureza própria do ser
humano, antes tende a destruí-la. A primeira artificialidade não só não
constitui qualquer problema, como constitui instrumento necessário para a
possibilidade própria do ser humano. A segunda, contraditoriamente,
constitui-se precisamente na possibilidade da impossibilidade do ser humano e,
se realizada, aniquila o ser humano e, no limite, todos os seres humanos, isto
é, a própria humanidade como um todo.
Os
casos, todos até agora felizmente infrutíferos, são incontáveis, mas todos
podem ser agrupados sob a designação de artificialidade
de guerra. Passamos a explicar: o acto de guerra é aquele que intenta
aniquilar, mediata ou imediatamente, um outro ser humano, e, no limite, a
humanidade como um todo, com excepção do seu perpetrador. Assim, toda a técnica
que seja utilizada com esta finalidade constitui a artificialidade que
contradiz a possibilidade quer de um ser humano singular quer de um grupo de
seres humanos, maior ou menor.
É
neste sentido e âmbito que a artificialidade é anti-natural e anti-humana, pois
impossibilita a humanidade em sua natureza e possibilidade próprias. É neste
sentido que qualquer meio técnico pode ser artificial-anti-natural: uma
pistola, o aludido martelo, uma bomba nuclear; mas também um discurso que
provoca uma guerra, um livro cuja doutrina prepara ou provoca uma guerra. Um
qualquer gesto que tenha o mesmo efeito: pode ser um atentado ou a recusa de um
aperto de mão – tudo necessita de e possui uma técnica própria, cujo uso pode
ser artificial no sentido aqui proposto.
Assim
sendo, o maior perigo para a humanidade
reside propriamente nesta mesma artificialidade como mediação técnica que
atenta contra a própria possibilidade da humanidade: é a humanidade que
cria e aplica os meios técnicos para que possa aniquilar-se.
Nos
tempos em que vivemos, esta artificialidade assume uma dimensão poderosíssima e
os riscos que implica são reais e de imprevisível evolução. O único modo de
combater tais riscos consiste em retornar a um registo de artificialidade não
anti-natural, o tipo que informa o exemplo da prótese acima aludido. O retorno
a uma técnica cuja artificialidade não atente contra a natureza quer humana
quer geral, antes a complemente e prolongue, como a prótese complementa e
prolonga a natureza do membro superior a cuja re-perfeição se destina, ou como
a velha nora do poço que em nada atenta contra a natureza em geral e permite a
vida da natureza humana concretizada naqueles que usufruem da água que tira do
poço.
Sobre
o eventual futuro de uma humanidade rendida ao artificial anti-natural,
recomendamos o nosso estudo «Da essência do Humano. (Considerações acerca do
que é ser essencialmente humano, a partir do filme Artificial Intelligence), publicado em www.lusosofia.net.
Américo
Pereira
Maio
de 2016
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