Em 1917, ano em que aconteceram as
aparições em Fátima, a humanidade encontrava-se no auge de uma guerra que,
embora centrada na Europa, semeava destruição um pouco por todo o mundo. Na
Rússia, iniciava-se a revolução bolchevique que aspirava à instauração duma
sociedade sem classes. Se a revolução soviética originou uma transformação
violenta das estruturas socioeconómicas violentando as pessoas, as aparições de
Fátima, embora contendo uma mensagem clara de rejeição da injustiça não
suscitaram a transformação de estruturas, apesar do invulgar exemplo de
dignidade perante a injustiça, dado pelos três pastorinhos.
De facto vivia-se um ambiente social,
político e religioso resultante de acontecimentos históricos com alguns
séculos. O protestantismo no século XVI, o racionalismo
do século XVIII, o agnosticismo do século XIX e o consequente desenvolvimento
do espírito racionalista e materialista, que atinge o seu clímax em 1848 com o
manifesto comunista, vinham anunciando a morte de Deus colocando o homem como
medida de todas as coisas. “Com a eliminação de Deus das consciências é o
próprio homem que entra em perigo. No final do século está em jogo e risco não
só a existência de Deus mas também a dignidade do homem” (O. G. Cardedal).
A mensagem de Fátima centra-se no
chamamento à conversão e à penitência como Jesus Cristo anunciou. O que Maria comunicou
aos pastorinhos tem fundamento bíblico e
teológico:
o amor, a misericórdia, a salvação, o pecado, o céu, o inferno, a Eucaristia, a
oração, a Igreja, o lugar do Papa e o seu magistério. Nas recentes palavras de
D. António Marto “a mensagem de Nossa Senhora é um apelo para nos abrirmos a
outra dimensão da história, alimentada por outra Presença, sustentada por outra
Força, conduzida por outra Luz, orientado para outra Meta, já agora misteriosa
e silenciosamente presentes e operantes na cadeia das gerações que guardam as
Promessas do Senhor e as transmitem de geração em geração.”
A mensagem de Fátima é tornada universal
pela primeira vez com a visita pastoral do Papa Paulo VI, no cinquentenário das
aparições, em 1967. Vale a pena revisitar a sua homilia na Eucaristia desse dia
em particular quando explicita as razões da sua peregrinação: “A primeira
intenção é a Igreja: a Igreja una, santa, católica e apostólica. Queremos
rezar, como dissemos, pela sua paz interior. O concílio Ecuménico despertou
muitas energias no seio da Igreja, abriu perspectivas mais largas no campo da
sua doutrina, chamou todos os seus filhos a uma consciência mais clara, a uma
colaboração mais íntima, a um apostolado mais activo. […] E, assim, passamos à
segunda intenção deste Nosso peregrinar, intenção que enche a Nossa alma: o
mundo, a paz do mundo”.
Sendo a mensagem de Fátima no seu âmago um grito
pela paz não deixa de ser interessante constatar que ainda no final desse ano
de 1967, mais concretamente no dia 8 de Dezembro, Paulo VI dê a conhecer ao
mundo a primeira mensagem do Dia Mundial da Paz, criando aquele que viria a ser
o Dia Mundial da Paz comemorado no primeiro dia de Janeiro de cada ano:
“Dirigimo-nos a todos os homens de boa vontade, para os exortar a celebrar o
«Dia da Paz», em todo o mundo, no primeiro dia do ano civil, 1 de Janeiro de
1968. Desejaríamos que depois, cada ano, esta celebração se viesse a repetir,
como augúrio e promessa, no início do calendário que mede e traça o caminho da
vida humana no tempo que seja a Paz, com o seu justo e benéfico equilíbrio, a
dominar o processar-se da história no futuro”.
Posteriormente, as visitas apostólicas, não
só do Papa João Paulo II realizadas em 1982, 1991 e 2000, e a sua íntima
ligação a Fátima, bem como a visita do Papa Bento XVI em 2010, abrem novos
horizontes ao culto mariano.
Ao aceitar presidir este ano às celebrações
religiosas do centenário das aparições, o Papa Francisco reafirma a importância
de Fátima como altar do mundo que se ergue “como palavra profética de denúncia
do mal e compromisso com o bem, na promoção da justiça e da paz, na valorização
e respeito pela dignidade de cada ser humano.” (CEP, Carta pastoral no centenário
das aparições de Nossa Senhora de Fátima, Dez. 2016).
Francisco Vaz
Março, 2017
Francisco Vaz
Março, 2017
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