Pecado original

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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Para a Europa e para a Cáritas: Populorum Progressio, cinquenta anos depois, mais actual do que nunca


No dia 26 de Março de 1967, o Papa Paulo VI apresentou ao mundo a Encíclica Populorum Progressio onde propôs uma nova ordem mundial. O que tem isso a ver com a Europa de hoje, com a construção europeia? Muito! Paulo VI apresentou ao mundo os valores orientadores de uma nova ordem mundial, onde o desenvolvimento passou a ser o novo nome para a paz. Nesta encíclica, Paulo VI pede às nações mais ricas que assumam a obrigação moral para com os mais pobres, contribuindo para o desenvolvimento e trabalhando para o bem comum. Na Populorum Progressio Paulo VI faz um apelo à solidariedade e colaboração - entre as pessoas e entre as nações - e delineia o que deverá ser a cooperação internacional, sublinhando que o desenvolvimento “não se pode limitar ao crescimento económico. Para ser autêntico, deve promover o desenvolvimento de cada homem e do homem todo” (Populorum Progressio, 14). Ao colocar a pessoa, em comunhão com as outras pessoas, no centro do desenvolvimento, Paulo VI introduziu o conceito de desenvolvimento humano integral, onde as íntimas ligações multidimensionais entre o bem-estar social e emocional de pessoas, famílias e comunidades, com a dimensão económica, são fundamentais.
Durante estas décadas a Populorum Progressio tem sido fonte de inspiração para muitas das diversas forças que, no diálogo e no confronto de ideias (e não de armas), foram e continuam a ser motores da construção da União Europeia que conhecemos hoje. Muitos dos então novos conceitos introduzidos pela Populorum Progressio, como por exemplo o desenvolvimento humano integral, fazem hoje parte do vocabulário europeu e do seu património.
A Cáritas Europa ainda hoje usa estes conceitos para defender as pessoas desfavorecidas e fazer chegar as suas vozes às instituições europeias. Ao fazer isto, usamos, ao mesmo tempo, a linguagem da igreja e a linguagem da Europa.
Ao mesmo tempo, estou convencido de que o papa Paulo VI, ao ler os sinais dos tempos, se inspirou no Tratado de Roma, assinado em 25 de Março de 1957, dez anos e um dia antes da promulgação da Populorum Progressio. Coincidência? Penso que Paulo VI o fez deliberadamente. O projecto europeu começou como um projecto de “paz” e de “solidariedade”, dois conceitos centrais da Populorum Progressio.
Paz: Depois de centenas de anos de guerras em solo europeu, vários políticos cristãos de diferentes nacionalidades, hoje chamados de “Pais Fundadores da União Europeia”, decidiram lançar as bases de uma paz duradoura. A estratégia era criar interdependência em diferentes áreas políticas (começando com o carvão, o aço e o comércio), em que a cooperação fosse a única forma de ganhar. A paz no território da UE dura agora há mais de setenta anos.
Solidariedade: os Tratados de Roma instituíram imediatamente o Fundo Social Europeu, primeira grande ferramenta de solidariedade para ajudar as pessoas necessitadas, naquela época os trabalhadores das indústrias do carvão e do aço que perderam o seu emprego e tinham que encontrar um novo. Mais tarde, outras políticas e fundos europeus reforçaram o conceito de solidariedade: o FEADER, a solidariedade com os agricultores e a população rural; o FEDER, solidariedade com as regiões mais pobres da Europa; e tantos outros fundos e programas nos últimos sessenta anos.
Estou convencido de que, sem o projecto europeu, sem a solidariedade europeia, haverá mais desigualdades entre regiões e países, os pobres serão mais pobres e enfrentaremos muitos mais problemas estruturais. Apesar de todas as críticas justificadas que podemos fazer hoje aos nossos governos e às instituições europeias, relativamente à necessidade de uma melhor implementação e protecção dos direitos humanos e sociais, a Europa é, no entanto, um lugar muito melhor hoje do que há sessenta anos. E, apesar de todas as incoerências e erros, reconheceremos que o mundo também é um lugar melhor devido ao papel da Europa na arena internacional nestas últimas décadas. E a Europa e o mundo são lugares melhores precisamente por causa dos sucessos do projecto europeu.
Ao ler como o Senhor molda a história da humanidade, observando o desenvolvimento promissor do projecto europeu, com a encíclica Populorum Progressio, o Papa Paulo VI quis lembrar (também) aos europeus os valores mais elevados que devem nortear a construção deste projecto.
Sim, os pobres precisam da Europa, definitivamente. E não se trata apenas de uma questão de dinheiro, mas de uma abordagem integral para o desenvolvimento humano. O que ouvimos ultimamente como “primeiro a minha região”, “primeiro o meu país” ou imaginemos que alguém diria “em primeiro lugar a minha Cáritas”, é contra o princípio do bem comum consagrado pelo beato Paulo VI.
Numa releitura desta carta encíclica, constatamos a sua actualidade. Torna-se necessário reforçar estes valores no nosso trabalho como Cáritas, promovê-los na relação com os governos locais, regionais, nacionais e as instituições europeias. Na Cáritas, o nosso encontro directo com as pessoas em situação de pobreza e os ensinamentos do Ensino Social da Igreja são os sólidos alicerces do nosso “caminho político da caridade” (Caritas in Veritate, 7), para dar voz à causas dos pobres (Evangelii Gauidum, 198).
Baseando-se no Ensino Social da Igreja Católica, o papa Francisco pediu em três momentos diferentes a continuação do desenvolvimento do projecto europeu: no seu discurso ao Conselho da Europa (2014), no discurso ao Parlamento Europeu (2014) e no discurso na cerimónia de entrega do prémio Carlos Magno (2016). Fundamentada na tradição e nos ensinamentos da Igreja orientados para o desenvolvimento integral das nações e das pessoas, a visão do papa é apoiada pela actuação da Cáritas no seu dia a dia. Cáritas que claramente está empenhada na construção da Europa.
A Europa é um projecto imperfeito, mas cuja construção está em curso. Sem unidade na diversidade, sem diálogo e sem uma visão do todo, a Europa desmoronar-se-á. Precisamos da Europa. Uma Europa construída no espírito da Populorum Progressio.

Jorge Nuno Mayer
Secretário Geral da Cáritas Europa

Abril 2017

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