As cortes de Coimbra e a batalha de Aljubarrota, em 1385,
foram acontecimentos relevantes e decisivos da história de Portugal, que,
resolvendo uma das maiores crises nacionais, estabeleceram e firmaram para
sempre a nossa independência. Se já nas Cortes de Coimbra foi decisiva -
juntamente com a de João das Regras, embora noutro plano - a ação desenvolvida
por Nuno Álvares, mais decisiva ainda foi a sua ação na batalha de Aljubarrota.
Não fora a sua determinação contra o parecer dos conselheiros do Reino e as
próprias hesitações de D. João I, Aljubarrota não se teria verificado e os
factos históricos subsequentes de consequências tão extensas e felizes para
Portugal, também não.
Nuno Álvares Pereira, sendo uma figura ímpar da nossa
história, foi de uma vida interior riquíssima. Ao enfrentar a guerra, estava
consciente da sua justiça e honra, na defesa da terra e de um povo que,
acreditava, tinha o direito de gerir o seu destino.
Como Condestável, comandante do exército, enérgico e de
convicções firmes, castigava aqueles que instigavam e participavam em desordens.
Contudo, não castigava com destempero, mas com brandura, de modo que os seus
homens tinham dele mais reverência que
temor. Usava de fraternidade na relação com os soldados no respeito pela
sua dignidade humana, independentemente da função. Sabia repartir com
generosidade, sem qualquer cobiça, o que resultasse das incursões e fosse
tomado no final das pelejas. Usava da misericórdia mesmo para com aqueles que combatia, uma vez que não odiava os adversários,
nem permitia que a paixão dominasse o ardor da luta. Por isso cuidava dos
prisioneiros e feridos, não deixava que destruíssem aldeias ou campos
cultivados, amparava as mulheres, crianças e pobres e, em momento de carência
alimentar, chegou a custear e distribuir trigo pelos castelhanos.
De facto, na base de todas as suas atitudes estava uma fé
profunda. Todos os dias, mesmo em tempo de guerra, cumpria os seus deveres
religiosos. Como observou Oliveira Martins no seu livro “A vida de Nun’Álvares”
: A sua fé em Deus era a chama em que
ardia a sua dedicação patriótica e a sua energia militar. A religião era a
raiz: a virtude, a coragem, o civismo, os ramos da árvore da sua vida, iniciada
pela revolução mística da Cavalaria. Salvando Portugal, levantando um trono ao
Mestre de Avis, cumpria a empresa que lhe fora marcada; mas essa empresa,
transcendentalizando-se, importava a própria exaltação da sua alma no seio de
Deus amado.
Vencidas as batalhas da independência e assinado o
tratado de paz com Castela, em 31 de Outubro de 1411, Nuno Álvares começou a
orientar a sua vida para o convento. Conforme se conclui da leitura quer de
Fernão Lopes quer do autor anónimo das Crónicas
do Condestável, tudo para ele se revestia de significado religioso porque
Deus era sempre o ponto de referência dos seus atos. Por isso, em Nuno Álvares,
o combatente e o monge, o cavaleiro e o professo, são apenas as duas faces de
uma mesma moeda. Esta unidade interior, que nenhuma vicissitude jamais desfez,
antes acentuou, refere-a Fernão Lopes ao observar que Nuno Álvares, sem
desfalecimento de qualquer ordem, propôs
em sua alma haver Deus por guiador principal dos seus feitos.
Assim,
depois de repartir terras em favor dos netos, perdoar dívidas, doar todos os
bens a cavaleiros e escudeiros pobres, entrou no Convento do Carmo como simples
cristão em busca de recolhimento. Admitido a 15 de Agosto de 1423, 38 anos
depois de Aljubarrota, passou a ser conhecido por Nuno de Santa Maria, levando
uma vida extremamente simples e modesta. Por obediência, guardou a tença que
lhe concedeu o príncipe D. Duarte, mas essa mesma a repartia quotidianamente em
esmolas. Foi esta atitude radical de alguém que fora o fidalgo mais poderoso do
país que conquistou o coração do povo.
Se há homens que se tornam notáveis, porque realizaram
uma grande obra ou porque deram das suas virtudes grandes exemplos, Nuno
Álvares Pereira foi-o simultaneamente por uma e outra razão. Oliveira Martins
descreve-o como aquele que remiu
Portugal do cativeiro castelhano iminente, abstraindo a Nação dos limbos
obscuros da política pessoal dos reis, para assentar sobre os alicerces firmes
da vontade popular: aclamando-a num voto de ação heróica, e deixando-a, de pé e
armada, pronta para a conquista do seu lugar épico na história da civilização
moderna.
A experiência de fé passa necessariamente por um
itinerário espiritual. Este tem, na raiz de toda espiritualidade, uma
experiência datada e concreta, vivida por pessoas em diferentes contextos. Nas
palavras consagradas a S. Nuno aquando da sua canonização em Abril de 2009,
Bento XVI sublinhou a unidade de vida e a integridade espiritual do novo santo,
mesmo em contextos aparentemente incompatíveis com o estado de santidade,
sublinhando que a vida do Condestável é uma prova
de que, em qualquer situação, mesmo de carácter militar e bélica, é possível
atuar e realizar os valores e princípios da vida cristã. Neste contexto, o
testemunho de vida de Nuno Álvares Pereira, pautada pelos princípios
evangélicos, constitui um exemplo que pode ajudar-nos a refletir e a perceber
como poderemos ser parte ativa na construção de uma sociedade mais justa, mais fraterna
e mais misericordiosa.
Francisco Vaz
Bibliografia:
A.
Alexandre Reis Rodrigues, Nun’Álvares, Condestável e Santo, Aletheia editores, Lisboa, 2009
B.
Carlos Moreira Azevedo, São Nuno de Santa Maria, Um Santo Condestável e Carmelita, in
Azimute, Revista Militar de Infantaria, nr 187 – Agosto de 2009, Mafra
C.
Jaime Nogueira Pinto, Nuno
Álvares Pereira, A esfera dos livros, Lisboa, 2009
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