Pecado original

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segunda-feira, 22 de maio de 2017

Nuno Álvares Pereira – um contexto de misericórdia

As cortes de Coimbra e a batalha de Aljubarrota, em 1385, foram acontecimentos relevantes e decisivos da história de Portugal, que, resolvendo uma das maiores crises nacionais, estabeleceram e firmaram para sempre a nossa independência. Se já nas Cortes de Coimbra foi decisiva - juntamente com a de João das Regras, embora noutro plano - a ação desenvolvida por Nuno Álvares, mais decisiva ainda foi a sua ação na batalha de Aljubarrota. Não fora a sua determinação contra o parecer dos conselheiros do Reino e as próprias hesitações de D. João I, Aljubarrota não se teria verificado e os factos históricos subsequentes de consequências tão extensas e felizes para Portugal, também não.
Nuno Álvares Pereira, sendo uma figura ímpar da nossa história, foi de uma vida interior riquíssima. Ao enfrentar a guerra, estava consciente da sua justiça e honra, na defesa da terra e de um povo que, acreditava, tinha o direito de gerir o seu destino.
Como Condestável, comandante do exército, enérgico e de convicções firmes, castigava aqueles que instigavam e participavam em desordens. Contudo, não castigava com destempero, mas com brandura, de modo que os seus homens tinham dele mais reverência que temor. Usava de fraternidade na relação com os soldados no respeito pela sua dignidade humana, independentemente da função. Sabia repartir com generosidade, sem qualquer cobiça, o que resultasse das incursões e fosse tomado no final das pelejas. Usava da misericórdia mesmo para com aqueles que combatia, uma vez que não odiava os adversários, nem permitia que a paixão dominasse o ardor da luta. Por isso cuidava dos prisioneiros e feridos, não deixava que destruíssem aldeias ou campos cultivados, amparava as mulheres, crianças e pobres e, em momento de carência alimentar, chegou a custear e distribuir trigo pelos castelhanos.
De facto, na base de todas as suas atitudes estava uma fé profunda. Todos os dias, mesmo em tempo de guerra, cumpria os seus deveres religiosos. Como observou Oliveira Martins no seu livro “A vida de Nun’Álvares” : A sua fé em Deus era a chama em que ardia a sua dedicação patriótica e a sua energia militar. A religião era a raiz: a virtude, a coragem, o civismo, os ramos da árvore da sua vida, iniciada pela revolução mística da Cavalaria. Salvando Portugal, levantando um trono ao Mestre de Avis, cumpria a empresa que lhe fora marcada; mas essa empresa, transcendentalizando-se, importava a própria exaltação da sua alma no seio de Deus amado.
Vencidas as batalhas da independência e assinado o tratado de paz com Castela, em 31 de Outubro de 1411, Nuno Álvares começou a orientar a sua vida para o convento. Conforme se conclui da leitura quer de Fernão Lopes quer do autor anónimo das Crónicas do Condestável, tudo para ele se revestia de significado religioso porque Deus era sempre o ponto de referência dos seus atos. Por isso, em Nuno Álvares, o combatente e o monge, o cavaleiro e o professo, são apenas as duas faces de uma mesma moeda. Esta unidade interior, que nenhuma vicissitude jamais desfez, antes acentuou, refere-a Fernão Lopes ao observar que Nuno Álvares, sem desfalecimento de qualquer ordem, propôs em sua alma haver Deus por guiador principal dos seus feitos.
 Assim, depois de repartir terras em favor dos netos, perdoar dívidas, doar todos os bens a cavaleiros e escudeiros pobres, entrou no Convento do Carmo como simples cristão em busca de recolhimento. Admitido a 15 de Agosto de 1423, 38 anos depois de Aljubarrota, passou a ser conhecido por Nuno de Santa Maria, levando uma vida extremamente simples e modesta. Por obediência, guardou a tença que lhe concedeu o príncipe D. Duarte, mas essa mesma a repartia quotidianamente em esmolas. Foi esta atitude radical de alguém que fora o fidalgo mais poderoso do país que conquistou o coração do povo.
Se há homens que se tornam notáveis, porque realizaram uma grande obra ou porque deram das suas virtudes grandes exemplos, Nuno Álvares Pereira foi-o simultaneamente por uma e outra razão. Oliveira Martins descreve-o como aquele que  remiu Portugal do cativeiro castelhano iminente, abstraindo a Nação dos limbos obscuros da política pessoal dos reis, para assentar sobre os alicerces firmes da vontade popular: aclamando-a num voto de ação heróica, e deixando-a, de pé e armada, pronta para a conquista do seu lugar épico na história da civilização moderna.
A experiência de fé passa necessariamente por um itinerário espiritual. Este tem, na raiz de toda espiritualidade, uma experiência datada e concreta, vivida por pessoas em diferentes contextos. Nas palavras consagradas a S. Nuno aquando da sua canonização em Abril de 2009, Bento XVI sublinhou a unidade de vida e a integridade espiritual do novo santo, mesmo em contextos aparentemente incompatíveis com o estado de santidade, sublinhando que a vida do Condestável é uma prova de que, em qualquer situação, mesmo de carácter militar e bélica, é possível atuar e realizar os valores e princípios da vida cristã. Neste contexto, o testemunho de vida de Nuno Álvares Pereira, pautada pelos princípios evangélicos, constitui um exemplo que pode ajudar-nos a refletir e a perceber como poderemos ser parte ativa na construção de uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais misericordiosa.

Francisco Vaz
 Julho, 2016

Bibliografia:

A.   Alexandre Reis Rodrigues, Nun’Álvares, Condestável e Santo, Aletheia editores, Lisboa, 2009
B.    Carlos Moreira Azevedo, São Nuno de Santa Maria, Um Santo Condestável e Carmelita, in Azimute, Revista Militar de Infantaria, nr 187 – Agosto de 2009, Mafra

C.    Jaime Nogueira Pinto, Nuno Álvares Pereira, A esfera dos livros, Lisboa, 2009

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