O tempo pascal mostra
incontrovertivelmente que para se poder ser cristão, isto é, digno seguidor de
Cristo, não se pode ser cobarde. Não por causa das pobres emoções de nível
psicológico que os pormenores grosseiros associados à maldade humana expostos na
fase mais dolorosa da paixão mostram, mas porque, para se ser digno seguidor de
Cristo, é necessário, como ele, obedecer, até à morte, ao mandamento do amor.
Ora, o amor, como perene acto em favor
do bem do que nos transcende e de nós próprios, assim transcendendo o nosso
egoísmo, que nos arrasta para a bestialidade, implica coragem, determinação,
capacidade e actualidade de possível padecimento. Implica ser capaz de, como
Cristo, beber o cálice da amargura até ao fim, no mais incompreensível
abandono, sem qualquer voz que nos aconselhe, mesmo a do Pai, sem qualquer colo
que nos conforte, mesmo o da Mãe.
Tal é a condição, para sempre
paradigmatizada na figura de Job, do ser humano na sua mais profunda condição
de pessoa, realidade ontologicamente incomunicável, nunca comunicável
psicológica ou socialmente, apenas comunicável através precisamente do acto do
amor, que, permitindo o bem e agindo no sentido deste, implica que o meu acto
comunique com o acto do amado, no e pelo
bem que nele opero, imagem do acto criador de Deus.
Mas, neste acto, por melhor que seja o
bem que faço, estou absolutamente só. Se encontrei Deus no mais fundo de mim
próprio, como o velho Agostinho de Hipona, sei que cada acto meu corresponde ao
desabrochar dessa presença. Mas essa presença, sem este meu acto, não ganha
dimensão mágica, isto é, não opera por mim, na minha vez.
Por isso, tem Cristo de beber o seu cálice,
seu e de mais ninguém, sem que alguém o ajude, sem que alguma voz se pronuncie,
no que é o protótipo do momento mais absolutamente solitário da história da
humanidade. Beber o cálice é o momento da cruz
como forma espiritual: a cruz de madeira é a forma material consequente,
mas impossível sem que a cruz do cálice fosse assumida e carregada.
Este momento é o momento salvífico por
essência e substância. Tudo o mais daqui decorre. Tudo o mais para aqui
converge: aqui, está a criação do mundo, a incarnação no ventre de Maria, a
agonia final, a ressurreição, verdadeira Páscoa, porque verdadeira passagem novíssima, que recria o mundo,
recria e assume toda a criação, assume, como a paixão e o cálice, todo o bem,
mas, sobretudo, todo o mal.
A
ressurreição anula o mal na sua consequência.
E o mal nada mais é do que
consequência. Sem consequência, o mal é apenas uma recordação, um monumento à
falha do poder do bem. Mais nada. Eis o poder de Deus: matar o mal, não como
coisa, mas como significado, como absoluto de isso que semanticamente faz
sofrer. E o mal é apenas esta semântica negativa. E esta negatividade é o
sofrimento que o mal provoca e com que coincide, pois, sem sofrimento, não há e
não pode haver mal.
É no sofrimento que o mal se revela
diabólico. É na acção que anula o sofrimento, através do amor, da caridade, da
ressurreição, que Deus, na carne de Cristo, anula o mal, porque anula o
sofrimento, assim, anulando o alimento da diabólica figura, supremo paradigma
do parasita. O diabo é o parasita do bem: não pode viver sem ele, vive da sua
anulação, engorda com a morte da possibilidade do bem. O corpo do demónio é o
mal realizado na forma do bem não feito. Mas, assim sendo, como todos os
parasitas, é uma mera função de isso que parasita e, quando o parasitado se
liberta do parasita, este definha e morre.
A ressurreição de Cristo mata o
parasita. E mata-o definitivamente para todos os que, seguindo o exemplo de
Cristo, sempre fizerem o bem.
Mas historicamente não é assim, diz-se.
Não é verdade: para o Cristão, a Mãe de Cristo soube seguir tal exemplo, mesmo
antes de ter podido perceber exactamente de quem era Mãe. Teve a sua recompensa
imediata, indo viver – sim, viver verdadeiramente – com o Filho.
Todos nós, os que não somos capazes de
fazer o mesmo, continuamos a ser convidados a fazê-lo.
Temos de nos lembrar em permanência que
o alimento do parasita somos nós quem o fornece, sou eu quem alimenta o maligno,
quando, em vez de amar, não amo: o diabo incha com o mal que eu faço. E as
tentações não servem de desculpa, pois o próprio Cristo foi tentado e soube
resistir. Somos tão humanos quanto Cristo era; humanamente, somos tão capazes
de resistir quanto ele.
Mas ele tinha em si o elemento divino e
nós não.
Falso. Na diferença que há entre mim e
Cristo, permanece a semelhança da mesma humanidade nele e em mim, da divindade
plena nele e da marca divina em mim, marca que é, em mim e na minha dimensão, tão
divina quanto a dele na sua dimensão. Deus é Deus, e não há mais Deus ou menos
Deus. Há é maior ou menor fidelidade a Deus.
E voltamos ao cálice: a mesma situação
de Cristo e minha. Que fazer? Ser fiel a Deus ou não?
É a mesma situação, sempre a mesma
situação. E é esta mesmidade prototípica humana que faz de Cristo e de mim
pertencentes a uma mesma humanidade matricial: ser-se humano, é estar sempre
situado na cena do cálice. Cálice-nosso-de-cada-dia em que eu digo sim a Deus
ou digo não a Deus, como Cristo teve oportunidade de fazer. Mas Cristo disse
sim.
E o que se seguiu transformou o mundo
de uma forma radical. Salvar-se, é dizer sim a Deus, mesmo que tal implique
muito sofrimento. Mas, no fim dos fins, é Deus que me vem buscar e nada, mas
mesmo nada, se pode opor a tal abraço paternal. Como em Job.
Na espantosa cena da Piedade de Maria,
Maria não está só com o cadáver do Filho ao colo. Com Maria, presente no ventre
de Maria, está o Espírito, em luto pela Outra Pessoa infinitamente amada. E é
este Espírito que é a presença do Pai, no ventre, na matriz, no cerne da carne
de Maria e de toda a humanidade, que embala o Filho morto, como diz o Poeta.
Este Filho sou eu. Maria é minha Mãe.
No seu ventre está o meu Pai, no Espírito que clama pela minha vida, que quer
que eu suba dos infernos da ausência de amor e me reencontre comigo próprio,
que deixe de me dividir em espírito e cadáver, amantes separados, e volte a ser
carne.
A carne é o acto do espírito em forma
de matéria. Com ele, a matéria passa a veículo de sentido. Sentido, «logos».
Isso que era no princípio, segundo João. Isso sem o que nada é. Nem a matéria. Isso que, como carne, sou eu,
somos todos nós. Isso que Deus pôs como mundo para que este pudesse saborear-se
como absoluto de bondade, precisamente como isso que Deus criou e que viu que
era bom. «Logos», o divino sabor.
O mundo, que não é panteísta corpo de
Deus, precisou do corpo de Deus-Cristo para poder ser directamente santificado.
De corpo a corpo. A bênção do Espírito
recebe-a o corpo do mundo através do corpo de Cristo. E não há outra forma
directa de o fazer.
Daqui provém a sensação que muitos têm
da «distância» de Deus ao mundo. Mas é mesmo assim: sem magia, sem que possa
interferir no criado sem ser através de criaturas, não há outra forma de Deus
comunicar directamente com o mundo senão através da tomada de forma semelhante
à da das criaturas. Sem redução, mas sem magia e sem arrogância. Através de um
corpo humano: Maria.
Cristo é «Logos» de Deus, mas é carne
de Maria. Perfeitamente um e a outra.
Pode, assim, o Papa Francisco dizer, na
sua Misericordiae vultus, que «Jesus
Cristo é o rosto de misericórdia do Pai.» (1, início).
Misericórdia que não é uma abstracção
ou um mito ou uma piedosa intenção vazia, mas um acto de carne, pois é um
rosto. Só as pessoas têm rosto. Os cadáveres não têm rosto. Os cadáveres não
têm coisa alguma: suprema lição de humildade para os que querem substituir o
espírito pela ilusão da posse.
Na Páscoa, celebramos – mas esta
celebração deve ser toda a nossa vida – a carne de Deus feita rosto de
misericórdia, acto de divino amor que nos permite que nos salvemos ao
aceitarmos beber o cálice com Cristo, com a mesma atitude, com a mesma
confiança, com a mesma graça, nome antigo para essa caridade que faz de nós
pessoas, filhos de Deus, não bestas diabólicas.
Páscoa é misericórdia, Páscoa é vida.
O mais é do maligno.
Páscoa de 2016
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