«Se te queres matar,
porque não te queres matar?
Ah, aproveita! Que
eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me,
também me mataria…
Ah, se ousares,
ousa!».[1]
Começamos esta reflexão acerca da
esperança com uma citação duríssima de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, que
nos situa imediatamente no campo do absoluto daquilo que está em causa quando
se fala de esperança. Temos vivido, vamos vivendo, e não é apenas agora – este
nosso agora é onde nós estamos e onde
nos dói –, de um modo débil o absoluto do acto
que nos põe, absolutamente, em cada instante, contra o possível, também em cada
instante e também absoluto, nada de nós
próprios, e, connosco, de tudo, de todo o ser, na forma, única, do sentido,
do «logos», que isto que sou é e que é tudo comigo na forma do acto do
espírito. E não há outro acto, não para nós.
Como diz o Poeta, no mesmo poema, umas
linhas mais à frente, à parte esta memória lógica, em acto em nós ou em outros
que nos tenham presentes: «Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.» (ibidem, p. 24). A esperança é, muito
agostiniana e paulinamente, modificando uma expressão de Vieira, a memória do
futuro, na forma do sentido absoluto do também absoluto de sua possibilidade.
Deste ponto de vista, a esperança é tudo.
É tudo, pois é a forma lógica humana do
poder-ser do futuro como presença semântica em cada pessoa. Sem esta presença,
semanticamente, a pessoa não é possível
e sabe-o. Não há, sequer, uma anterioridade lógica ou ontológica da pessoa, do
ser da pessoa, relativamente à esperança: são absolutamente coincidentes.
Prolepticamente, no acto que sou presentemente, eu sou a esperança que em mim existe de, em absoluto, poder ser.
Sem este absoluto de esperança, que
coincide, no mais fundo do meu ser, com a minha própria possibilidade
metafisicamente entendida, não há propriamente um eu. A esperança é, assim, a forma estrutural transcendental metafísica da
possibilidade da pessoa. Sem ela, aplica-se e realiza-se o que o verso
irónico de Campos põe: sem esperança, o ser humano já está morto, é, quando
muito, numa outra expressão de Pessoa, um «cadáver adiado».
Como, prolepticamente, a pessoa é o seu
absoluto poder-ser, isto é, em última instância, Deus, metafisicamente
entendido, não é de surpreender que Deus seja a esperança em termos
transcendentais e também transcendentes. É esta a razão profunda pela qual a
própria religião fala de Deus como a
esperança, é esta a razão profunda pela qual não pode haver esperança sem
Deus ou ilusão de esperança sem um
«deus qualquer».
A fórmula anteriormente aludida «Mais
nada, mais nada, absolutamente mais nada» consegue dar, de uma forma literária,
o sentido daquilo que é exactamente a absoluta ausência de sentido, que não é
racionalmente pensável, mas é poeticamente intuível. É para esta intuição que
este verso nos abre o espírito, espírito que é precisamente a realidade que
nega isso para que o verso aponta. Mas que é isso para que o verso aponta?
Para o absoluto do nada.
Não se trata do absoluto da morte como
algo de transitório, ou para a fraca ideia de um adormecimento límbico, mas
para a possibilidade da aniquilação do que sou como, irredutivelmente, acto de
«logos», acto espiritual. Não é só para o absoluto divino que é válida a
expressão joanina «no princípio, era o “logos”», também para a pessoa humana o
seu princípio absoluto é um princípio lógico: é o absoluto de minha
possibilidade como coisa espiritual que me ergue como pessoa, não as
moleculazinhas, os atomozinhos ou as particulazinhas do que, sem «logos», é
indiscernível de um cadáver. Este cadáver faz parte do tal «absolutamente mais
nada».
Sendo assim, a esperança só assume
pleno sentido quando posta na sua relação fundamental com a possibilidade da aniquilação. Isso que
esperamos é não ser aniquilados, o
mais é irrisório, vaidade das vaidades. Por tal, pode São Paulo falar da
vanidade de tudo se Cristo não ressuscitou: é que, se Cristo não ressuscitou,
foi aniquilado, e, se Cristo foi aniquilado, todos o seremos e tudo se resume a
«absolutamente mais nada».
É mesmo angustiante. E é-o porque põe
em causa o nosso acto, que é toda a riqueza que possuímos. A grandeza própria
da esperança só se entende, assim, no contraste com a sua antítese absoluta que
é a morte como aniquilação.
Podemos, então, dizer que a esperança é o sentido lógico próprio da
vida como absoluto de sua possibilidade.
A plenitude da esperança é a plenitude
da vida em acto que antegosta a sua possível plenitude sem obstrução possível,
a sua eterna e metafisicamente ilimitada possibilidade própria. Esta eterna
possibilidade é, metafisicamente, Deus. De novo, percebemos que, no limite, a
esperança é Deus, na forma da possibilidade que nos outorga.
Mas a esperança não é apenas este acto
duplo do que sou e do que sei que posso vir a ser e do que esta possibilidade é
como acto de possibilidade minha em Deus: é também, a relação entre ambas. Ora,
esta relação assume quer o carácter da marca absoluta do acto do criador em mim
quer a marca da continuidade da presença do acto do criador em mim. A esperança
é, assim, absoluto de possibilidade como acto primeiro de criação, que permite
todo o poder-ser e, com ele, o saber desse poder-ser, mas é também a
providência de um acto criador que não
abandona a criatura.
Este acto de providência, a tal
presença que Agostinho descobriu imanente no mais fundo de seu ser, é o que
permite o antegosto da perene possibilidade de ser sem reservas. Desaparecesse
esta presença, e nada na experiência humana poderia dar a noção de uma possível
perenidade, pois a nossa comum experiência é a de uma imparável e indominável
transitoriedade, correndo para um mar de absoluta indiferença ontológica, caos
ou nada. Álvaro de Campos continua a ter razão.
A evidência do absoluto da
impossibilidade da continuidade do poder-ser da pessoa, isto é, a evidência da
aniquilação, imediatamente gera o contraditório da esperança, que é o desespero. Note-se que esperança e
desespero são contraditórios e não contrários. São ambos absolutos e
incompossíveis. Se há esperança, não há desespero, se há desespero, não há
esperança. Esta permite a continuação da vida: o realíssimo não nos querermos
matar, de que fala o Poeta. Mas o desespero imediatamente implica que nos
queiramos mesmo matar, pois, já nada faz ou pode fazer qualquer sentido. É
isto, no seu extremo semântico de que depende a vida humana, que está aqui em
causa.
Perspectivar esperança e desespero como
se fossem contrários permitiria que o ser humano viajasse na linha que os
relaciona, umas vezes tendo mais esperança ou menos desespero, outras o contrário.
Mas a realidade não é assim e quem desespera porque perdeu o seu sentido de
poder ser, neste acto, está semanticamente
morto, e apenas a cobardia implícita na ironia do verso inicial de Campos
impede que retire a conclusão prática coerente.
Mas que vida é esta de quem não tem
esperança e continua biologicamente vivo? Mas não é esta a realidade de muitas
pessoas que se mantêm vivas apenas como vegetais humanos, porque, para elas, já
nada tem sentido? Pensamos que sim. Ao não darem o passo lógico implicado pela
evidência nihilista que vivem, que são,
pelo menos permitem que, quem está de fora de tal acto, perceba que ainda há
possibilidade para tal ser. Mas não é uma questão de contemplação externa do
acto de terceiros que aqui está em causa, antes saber o que se pode fazer para
ajudar esta pessoa a poder ver que a vida é sempre um acto de possibilidade em
constante porvir.
No fim da sua República, sem usar o termo «elpis», «esperança» em grego, Platão
fala de precisamente o que é a sua esperança em que, na pertinente tradução de
Maria Helena da Rocha Pereira,[2]
o ser humano possa ser feliz. É claro que, para além de todo o pormenor
económico, ético, político, pedagógico, uns melhores do que outros, que Platão
põe nesta monumental obra dedicada ao ser-possível da humanidade, isto é, à sua
metafísica esperança, o fulcro está na ancoragem de tal nobre esperança num Bem
transcendente e transcendental a toda a realidade, Bem que é o divino para este
Autor. Se eliminarmos o Bem da reflexão que é a República,
eliminamos a possibilidade do ser humano e, com ele e com ela, a sua esperança.
Por outro lado, e é uma grande lição em
termos antropológicos e políticos, o mito final de Er, o Panfílio, lembra-nos
que não há propriamente esperança digna de um ser humano se este não agir de
forma a cumprir o melhor possível de si próprio, como aquele que
metaforicamente se aproxima da perfeição do sol. Neste mito e, de uma forma
original para o seu tempo, aponta-se já para uma forma pessoal de esperança e
os seres humanos recebem nome próprio: não é uma esperança genérica diluída num
todo anónimo, mas a esperança de salvação de um Ulisses ou a ausência de
esperança de salvação de um tirano como Ardieu.[3]
Esta esperança como possibilidade de
salvação é fruto não já de um destino cego ou caótico ou bestialmente erótico,
mas de uma escolha inequivocamente pessoal. Platão põe nas mãos de cada ser
humano a possibilidade da esperança própria sua. O desespero humano não é fruto
de acção caprichosa ou penalizadora dos deuses, mas do acto do ser humano,
condicionado pelo que foi e, no que é, pelo que guarda monumental ou
memorialmente do que foi. Nas palavras literais do Mestre da Academia, «deus é
isento de culpa».[4]
A minha esperança é a minha
possibilidade de ser perenemente, posta nas minhas mãos pelo «deus», para que
eu escolha, me escolha. O que a minha
esperança vai ser é o resultado desta escolha. O «deus» é o dador da
possibilidade da esperança. «Esperança da esperança», mas mais nada. O ser
humano é absolutamente livre, no que é e como é, de construir a sua esperança e
de se construir como esperança. Lição
espantosa, lição perene.
Mas lição que não se encontra
desacompanhada, pois uma outra, de uma outra civilização, a acompanha e a
completa. Estamos habituados a considerar Job como, para mim muito mais do que
Abraão, pai de fé. Mas Job é, também, pai
de esperança. E, também, pai da relação entre fé e esperança, que, aliás,
nele, se tornam, senão indiscerníveis, pelo menos consubstanciais, e
consubstanciais ao que o ser humano é no mais radical de seu fundo ontológico,
na relação, única, com Deus. De novo, invocamos Campos: sem tal, mais nada,
absolutamente mais nada.
Deus, através da acção técnica do Satã
e da acção bestial da mulher e dos falsos amigos de Job, bem como da sua
própria acção tirânica quando se lhe revela pela primeira vez, isola Job de
tudo. Job não só está absolutamente só como é
absolutamente só. Sobram-lhe a confiança, a fé, em Deus e a esperança de que
tal fé não seja vã.
E este momento é um terrível abismo: se
te queres matar?... Apenas a esperança de que o seu amor por Deus, baseado na
fé, no absoluto da confiança que deposita no amor de Deus por ele, explica a
razão pela qual Job não se matou. A fé de
Job, sem a esperança de Job, não se teria podido manter. Mas que mais pode
ser esta mesma esperança radical senão um acto
de amor pelo absoluto do acto que Deus lhe tinha dado? E, neste acto de
amor a tal bem, que nunca negou, um acto de amor ao próprio Deus?
Assim, a esperança é um acto de amor ao absoluto de possibilidade de se ser.
Este absoluto é Deus. O Deus de Job –
de Abraão, de Isaac e de Jacob, como queria Pascal –, mas também o metafísico
Deus dos filósofos, princípio metafísico absoluto sem o qual nada faz sentido e
não pode haver esperança alguma, pois não há absoluto poder-ser algum (Pascal também
sabia disto…).
Nascida do ócio, diz-se (embora Tales
fosse, ao que parece, bastante trabalhador), ainda assim, compete à Filosofia
ultrapassar a ociosidade autocomplacente de discursividades e metadiscursividades
bizantinas, apontando, sempre que possível, caminhos, precisamente como os
antigos queriam, para a salvação dos seres humanos.
A questão da esperança requer uma
resposta filosófica, sobretudo não academista, que possa permitir aos seres
humanos perceber o absoluto de possibilidades que, em cada instante
considerável, o constitui, possibilidades alicerçadas não num mítico nada, mas
num esplendor metafísico de dom de poder-ser. O caminho para o desespero, que,
cumprido, não tem retorno possível, só pode ser abandonado através daquilo que
faltou a Job, do amor que mostre, que manifeste, que demonstre que, para além
desse caminho, único, há infinitos outros, bastando para tal corresponder com
um sim à proposta de abrir os olhos para o esplendor de um dom, e de um mundo
em que se consubstancia, em que, cruzando o nosso caminho de possível bem com o
caminho de possível bem de outros, perceberemos que não há um único caminho entre nadas, mas uma infinitude de caminhos que reclamam um
infinito que os sustente, base metafísica de toda a esperança.
Grande parte do mundo moderno e
contemporâneo é um mundo em processo de desespero porque não pode sequer
acreditar nesta dimensão infinita que sustenta a possibilidade da esperança.
Ter esperança em possíveis bondades puramente imanentes, é ter esperança em
algo que vai deixar de ser, mais cedo ou mais tarde, isto é, é ter esperança em
algo que vai ser aniquilado, o que implica que é não ter esperança propriamente
dita, mas apenas a ilusão psicológica de que se tem esperança. A esperança em
ídolos é um acto de desespero disfarçado e mata semanticamente, lentamente,
quem o pratica. É este o retrato rápido da mundanidade que nos rodeia e parece
querer asfixiar.
Pensemos bem: se verdadeiramente
acredito que tudo vai colapsar no nada, de que serve ter esperança ou deixar
alguém ter esperança? Por que não ser coerente com tal intuição e começar já a
tirar as consequências? Se estamos já todos fundamentalmente mortos, por que
não massacrar, destruir, aniquilar tudo num só acto, para, pelo menos, acabar
com este absurdo com um estrondo tal que, se houvesse Deus, este teria de o
ouvir?
Podemos procurar as postuladas causas
que quisermos para o absurdo presente no mundo, mas a grande causa reside na
real falta de esperança em algo que mereça, como o Bem de Platão ou o Deus de
Job, que em tal se espere.
Temos de voltar a esperar num absoluto
de bem, ou, então, aceitar o desafio de Campos.
O
tempo dos fracos está a chegar ao fim.
É chegado o tempo dos que, ainda que frágeis, não são fracos e se
atrevem a ter esperança num bem infinito, sem desculpas, sem defecções, na
gratuidade absoluta de um acto uno de fé e de esperança, que é, se se cumprir
em sua potencial plenitude, um acto de caridade. Então, o mundo metamorfosear-se-á
e a esperança da Cidade de Deus encontrará a sua justificação.
Ou podemos ficar a olhar para o frio
espelho da nossa impotente falta de esperança que nem matar-se consegue.
Américo Pereira
Fevereiro do
Ano da Graça e da Esperança gratuitas de 2015
[1] PESSOA
Fernando, Poesias de Álvaro de Campos,
Lisboa, Ática, 1980, Poema «Se te queres matar, porque não te queres matar?»,
p. 22.
[2] Platão, A república, «Introdução», tradução e
notas, de Maria Helena da Rocha Pereira, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian,
[1980], 3ª ed., 621c-d, p. 500.
[3] Ibidem, 615d-e, p. 490.
[4] Ibidem, 617e, p. 493.
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