Pecado original

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segunda-feira, 22 de maio de 2017

Trabalho, técnica e cultura

 Não há qualquer actividade humana, seja ela prática, pragmática ou mesmo teórica pura, que não tenha necessariamente uma dimensão física. O trabalho intelectual é propriamente trabalho, isto é, implica o uso de energia em seu sentido físico fundacional. Implica degradação de energia, em certo sentido, de modo a, noutro nível e sentido, proporcionar ou poder proporcionar uma re-gradação positiva da energia na forma de uma melhor organização do mundo, mormente do mundo humano. Tudo isto é trabalho, tudo necessita da técnica apropriada para que sequer possa ocorrer, melhor ou pior, conforme a qualidade da técnica empregue.
Mas, se bem que não possa haver trabalho e técnica em seus sentidos humanos sem esta dimensão física, tal dimensão, servindo de condição basal necessária, incontornável, não resume tudo o que «trabalho» e «técnica» são enquanto coisas propriamente humanas. O trabalho, como realidade puramente física, dispensa a realidade humana: poderia nunca ter havido realidade humana alguma e a realidade física trabalho permaneceria o que sempre foi sem a existência de entidades humanas. Por outro lado, do ponto de vista estritamente físico, a entidade humana é um objecto físico e apenas físico como qualquer outro: um corpo em queda com forma física humana e massa a ela adequada tanto cai de forma física normalíssima se for propriamente um corpo humano (isto é, vivo), como se for um cadáver, como se for um boneco com características físicas exactamente homólogas. A pura física ignora o próprio específico do ser humano enquanto tal.
Já a técnica, enquanto tal na sua especificidade própria irredutível, tendo uma necessária dimensão física, é algo de absolutamente dependente do ser humano. Quando se fala de técnica em outros ambientes, está a usar-se uma analogia, que será válida apenas se for tomada analogicamente, inválida se for autonomizada: as formigas não possuem técnica – nós é que chamamos “técnica” a procedimentos das formigas que nós interpretamos analogamente. A “técnica” das formigas é constituída por procedimentos lógicos naturais independentes das formigas: não foram elas que os criaram do mesmo modo que Volta criou a pilha… (As analogias com o próprio dos seres humanos em ciência podem ser epistemologicamente muito perigosas e são sempre antropocêntricas…)
Ora, porque possuem a mesma origem profunda, «trabalho humano» e «técnica» são ambos criações do ser humano, da «humanidade», se quisermos entrar em metáforas epistemologicamente perigosas. Trabalho e técnica são criações de seres humanos que imediatamente contribuem quer para a realidade desses seres humanos quer para a realidade de todos os seres humanos presentes e futuros que de tal criação vão poder usufruir e realmente vão usufruir.
Aquilo a que habitualmente chamamos «cultura» em seu sentido mais lato refere-se a toda a produção e criação feita pelos seres humanos desde que existem: é mesmo esta evidência cultural, isto é, da existência destes produtos, que até nós chegaram como monumentos (em seu sentido histórico de objectos físicos), que permite inferir que em certo lugar estiveram presentes seres humanos e não outros quaisquer, pois apenas os seres humanos produzem este tipo de monumentos.
Podemos, agora, perceber que isso a que chamamos cultura é, então, todo o produto do trabalho humano, em que a técnica tem um papel sempre fundamental.
Mas, neste mesmo sentido, podemos também perceber que, a partir destes achados, é indiscernível o que é trabalho e técnica humana e o que é o próprio ser humano como agente de tal produção.
Em termos culturais, o ser humano é indiscernível da cultura que produz, logo, é indiscernível do trabalho que faz e da técnica que nele usa.
No que é a sua pura interioridade de sentido, há mais ser humano do que o seu trabalho, do que o trabalho que realiza, mesmo aquele que acontece como movimento próprio interno de seu corpo, cérebro incluído, pois não pode haver confusão possível entre o cérebro e sua física e química em acto e o sentido que tal acto consegue criar, mas, em termos culturais, políticos, isto é, de inter-acção, o ser humano é o trabalho que de si transparece, que de si se transcende.
Isto carrega consigo uma grande dignidade antropológica, porque imediatamente, como Platão percebeu, relaciona de forma necessária todos os seres humanos com todos os seres humanos e a possibilidade de bem de todos fica, assim, absolutamente co-implicada. Mas também carrega grandes perigos, pois, o que é a escravatura, antiga ou contemporânea, senão a redução do ser humano à sua dimensão de trabalho, de trabalhador, de produtor, sem mais?
O mesmo instrumento antropológico de possibilidade de nossa libertação é também aquele que permite a nossa servidão, se mal usado.
Como se pode perceber, a partir de uma interpretação não mítica do relato bíblico da expulsão de Adão e Eva do paraíso, o trabalho possui ambas as facetas de possível libertação e de possível condenação. O paraíso representava o estado em que os seres humanos não precisavam de trabalhar, em sentido propriamente humano, isto é, não precisavam de fazer mais do que deixar que o trabalho físico decorresse e dele tudo lhes provinha, sem esforço: é uma condição puramente natural, não há cultura, não há técnica, não há trabalho humano, porque é totalmente desnecessário.
É uma condição próximo-angélica. O trabalho humano, a técnica, a cultura nascem quando o ser humano é privado da condição natural de integrado no movimento e trabalho puramente naturais e vai ter de produzir, de criar os seus mesmos meios de sustento, a técnica, e de o fazer por meio de um esforço próprio: o trabalho humano.
Mas o que parece ser difícil de entender é que, neste mesmo momento, o ser humano adquire a possibilidade e os meios da sua liberdade, já não como algo de natural, mas como algo de autoral, de verdadeiramente próprio. O preço desta propriedade auto-litúrgica fundamental é o «suor do rosto», símbolo do esforço que todo o trabalho humano implica. Mas é o preço da mesma possibilidade de autonomia.
Trabalho e técnica são, assim, os meios incarnados próprios de uma condição não-paradisíaca, em que o que o ser humano é se deve ao seu labor, não a qualquer permanente dom, próprio de uma outra condição, essa celestial, legítima apenas se imediatamente decorrente de um acto de absoluta amizade entre Criador e criatura e em que a criatura vive ainda da vida do Criador, directamente; ou se decorre de um merecimento próprio, caso da recompensa em bem final pelo bem medial do trabalho de uma vida, ou de um acto de perdão, acto que transcende toda a economia dos terrenos trabalho e técnica, mesmo da terrena cultura, sendo, aliás, em sua mesma transcendência absoluta, o possível acto fundador de toda a cultura e trabalho, pois é o acto que lembra ser possível a abolição de tudo o que, no mundo, funciona como entrópico, como degradação de energia, de que o pecado é a versão antropológica perfeita em sua mesma imperfeição absoluta.
Trabalho e técnica são, assim, o modo, único, que o ser humano tem ao seu dispor para se construir ou reconstruir segundo o modo do movimento, do tempo, da vida que se encaminha para uma morte certa e sem apelo. Mas o acto e o tempo mediais reclamam o ser humano, mortal e, assim, absolutamente único e precisos, como poeta de si próprio, autor sempre imperfeito da sua possível perfeição como imperfeito. O trabalho é sempre uma tarefa de Sísifo. Mas não é uma tarefa absurda como não é absurdo o Sísifo que, tendo de fazer o que tem de fazer e não podendo ou querendo morrer imediatamente, seja perfeito no que faz, pois o que faz é o que pode fazer do modo melhor para ser perfeito.
Mas perfeito na sua imperfeição?
É que todo o bem realizado no seu melhor possível é perfeito enquanto tal. A grandeza humana no seio da entropia não apenas física, mas também metafísica – simbolizada pela saída do paraíso –, reside na possibilidade e realidade – se realizada a possibilidade – de construir uma perfeição relativa, tão preciosa em sua finitude e imperfeição quanto a infinita em sua infinitude e imperfeição.
Janeiro de 2016
Américo Pereira


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