Não há qualquer actividade humana, seja ela
prática, pragmática ou mesmo teórica pura, que não tenha necessariamente uma dimensão
física. O trabalho intelectual é propriamente trabalho, isto é, implica o uso
de energia em seu sentido físico fundacional. Implica degradação de energia, em
certo sentido, de modo a, noutro nível e sentido, proporcionar ou poder
proporcionar uma re-gradação positiva da energia na forma de uma melhor
organização do mundo, mormente do mundo humano. Tudo isto é trabalho, tudo
necessita da técnica apropriada para que sequer possa ocorrer, melhor ou pior,
conforme a qualidade da técnica empregue.
Mas,
se bem que não possa haver trabalho e técnica em seus sentidos humanos sem esta
dimensão física, tal dimensão, servindo de condição basal necessária,
incontornável, não resume tudo o que «trabalho» e «técnica» são enquanto coisas
propriamente humanas. O trabalho, como realidade puramente física, dispensa a
realidade humana: poderia nunca ter havido realidade humana alguma e a
realidade física trabalho permaneceria o que sempre foi sem a existência de
entidades humanas. Por outro lado, do ponto de vista estritamente físico, a
entidade humana é um objecto físico e apenas físico como qualquer outro: um
corpo em queda com forma física humana e massa a ela adequada tanto cai de
forma física normalíssima se for propriamente um corpo humano (isto é, vivo),
como se for um cadáver, como se for um boneco com características físicas exactamente
homólogas. A pura física ignora o próprio
específico do ser humano enquanto tal.
Já a
técnica, enquanto tal na sua especificidade própria irredutível, tendo uma
necessária dimensão física, é algo de absolutamente dependente do ser humano.
Quando se fala de técnica em outros ambientes, está a usar-se uma analogia, que
será válida apenas se for tomada analogicamente, inválida se for autonomizada:
as formigas não possuem técnica – nós é que chamamos “técnica” a procedimentos
das formigas que nós interpretamos
analogamente. A “técnica” das formigas é constituída por procedimentos lógicos
naturais independentes das formigas: não foram elas que os criaram do mesmo
modo que Volta criou a pilha… (As analogias com o próprio dos seres humanos em
ciência podem ser epistemologicamente muito perigosas e são sempre
antropocêntricas…)
Ora,
porque possuem a mesma origem profunda, «trabalho humano» e «técnica» são ambos
criações do ser humano, da «humanidade», se quisermos entrar em metáforas
epistemologicamente perigosas. Trabalho e técnica são criações de seres humanos
que imediatamente contribuem quer para a realidade desses seres humanos quer
para a realidade de todos os seres humanos presentes e futuros que de tal
criação vão poder usufruir e realmente vão usufruir.
Aquilo
a que habitualmente chamamos «cultura» em seu sentido mais lato refere-se a
toda a produção e criação feita pelos seres humanos desde que existem: é mesmo
esta evidência cultural, isto é, da existência destes produtos, que até nós
chegaram como monumentos (em seu sentido histórico de objectos físicos), que
permite inferir que em certo lugar estiveram presentes seres humanos e não
outros quaisquer, pois apenas os seres humanos produzem este tipo de
monumentos.
Podemos,
agora, perceber que isso a que chamamos
cultura é, então, todo o produto do trabalho humano, em que a técnica tem um
papel sempre fundamental.
Mas,
neste mesmo sentido, podemos também perceber que, a partir destes achados, é
indiscernível o que é trabalho e técnica humana e o que é o próprio ser humano
como agente de tal produção.
Em termos culturais, o ser humano é
indiscernível da cultura que produz, logo, é indiscernível do trabalho que
faz e da técnica que nele usa.
No
que é a sua pura interioridade de sentido, há mais ser humano do que o seu
trabalho, do que o trabalho que realiza, mesmo aquele que acontece como
movimento próprio interno de seu corpo, cérebro incluído, pois não pode haver
confusão possível entre o cérebro e sua física e química em acto e o sentido
que tal acto consegue criar, mas, em termos culturais, políticos, isto é, de
inter-acção, o ser humano é o trabalho que de si transparece, que de si se
transcende.
Isto
carrega consigo uma grande dignidade antropológica, porque imediatamente, como
Platão percebeu, relaciona de forma necessária todos os seres humanos com todos
os seres humanos e a possibilidade de bem
de todos fica, assim, absolutamente co-implicada. Mas também carrega
grandes perigos, pois, o que é a escravatura, antiga ou contemporânea, senão a
redução do ser humano à sua dimensão de trabalho, de trabalhador, de produtor,
sem mais?
O
mesmo instrumento antropológico de possibilidade de nossa libertação é também
aquele que permite a nossa servidão, se mal usado.
Como
se pode perceber, a partir de uma interpretação não mítica do relato bíblico da
expulsão de Adão e Eva do paraíso, o trabalho possui ambas as facetas de
possível libertação e de possível condenação. O paraíso representava o estado
em que os seres humanos não precisavam de trabalhar, em sentido propriamente
humano, isto é, não precisavam de fazer mais do que deixar que o trabalho
físico decorresse e dele tudo lhes provinha, sem esforço: é uma condição
puramente natural, não há cultura, não há técnica, não há trabalho humano,
porque é totalmente desnecessário.
É
uma condição próximo-angélica. O trabalho humano, a técnica, a cultura nascem
quando o ser humano é privado da condição natural de integrado no movimento e
trabalho puramente naturais e vai ter de produzir, de criar os seus mesmos
meios de sustento, a técnica, e de o fazer por meio de um esforço próprio: o
trabalho humano.
Mas
o que parece ser difícil de entender é que, neste
mesmo momento, o ser humano adquire a possibilidade e os meios da sua liberdade,
já não como algo de natural, mas como algo de autoral, de verdadeiramente próprio. O preço desta propriedade
auto-litúrgica fundamental é o «suor do rosto», símbolo do esforço que todo o
trabalho humano implica. Mas é o preço da mesma possibilidade de autonomia.
Trabalho
e técnica são, assim, os meios incarnados próprios de uma condição
não-paradisíaca, em que o que o ser humano é se deve ao seu labor, não a
qualquer permanente dom, próprio de uma outra condição, essa celestial,
legítima apenas se imediatamente decorrente de um acto de absoluta amizade
entre Criador e criatura e em que a criatura vive ainda da vida do Criador,
directamente; ou se decorre de um merecimento próprio, caso da recompensa em
bem final pelo bem medial do trabalho de uma vida, ou de um acto de perdão,
acto que transcende toda a economia dos terrenos trabalho e técnica, mesmo da
terrena cultura, sendo, aliás, em sua mesma transcendência absoluta, o possível
acto fundador de toda a cultura e trabalho, pois é o acto que lembra ser
possível a abolição de tudo o que, no mundo, funciona como entrópico, como
degradação de energia, de que o pecado é a versão antropológica perfeita em sua
mesma imperfeição absoluta.
Trabalho
e técnica são, assim, o modo, único, que o ser humano tem ao seu dispor para se
construir ou reconstruir segundo o modo do movimento, do tempo, da vida que se
encaminha para uma morte certa e sem apelo. Mas o acto e o tempo mediais
reclamam o ser humano, mortal e, assim, absolutamente único e precisos, como poeta de si próprio, autor sempre
imperfeito da sua possível perfeição como imperfeito. O trabalho é sempre uma
tarefa de Sísifo. Mas não é uma tarefa absurda como não é absurdo o Sísifo que,
tendo de fazer o que tem de fazer e não podendo ou querendo morrer
imediatamente, seja perfeito no que faz, pois o que faz é o que pode fazer do
modo melhor para ser perfeito.
Mas
perfeito na sua imperfeição?
É
que todo o bem realizado no seu melhor possível é perfeito enquanto tal. A
grandeza humana no seio da entropia não apenas física, mas também metafísica –
simbolizada pela saída do paraíso –, reside na possibilidade e realidade – se
realizada a possibilidade – de construir uma perfeição relativa, tão preciosa
em sua finitude e imperfeição quanto a infinita em sua infinitude e
imperfeição.
Janeiro
de 2016
Américo
Pereira
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