O termo «eutanásia» quer literalmente
dizer «boa morte». Traduz um composto por prefixação feito a partir do grego clássico,
que junta o prefixo «eu», que significa geralmente «bom», ao termo «thanatos»
que significa geralmente «morte». Sendo a morte, de um ponto de vista
estritamente mundano, o pior dos males, pois aniquila definitivamente todas as
possibilidades, dificilmente se pode perceber como é que se pode associar ao
temo «morte» o termo «boa». Trata-se, indubitavelmente de um eufemismo de tipo
meramente psicológico, destinado ao engano da angústia de quem tem de morrer,
nomeadamente todos nós.
Desta angústia, não se foge, nunca se
foge, por mais escravo da ilusão que se seja: a única forma de «fuga» a esta
angústia é mesmo a morte, seja ela a comum biologicamente entendida, seja a
morte semântica da pessoa, ainda que com sobrevivência biológica. Note-se que
este último foi o meio escolhido pelos nazis para anular a humanidade presente
nos seres humanos que enviaram para os campos de concentração e de morte.[1]
Do ponto de vista estritamente mundano,
não há «boa morte», só há morte, isto é a total aniquilação de todas as
possibilidades próprias de um ser humano, absolutamente irremissível. Assim,
por mais confortável e psicologicamente agradável que a morte seja, tal de nada
serve, pois o objecto-sujeito de tal morte de nada beneficia senão durante um
processo que não tem qualquer ou não pode ter qualquer sentido ulterior, pois
de tal ser humano nada vai restar, nem mesmo qualquer forma própria de memória.
Cruel, sem dúvida, mas absolutamente verdadeiro e incontrovertível.
Do ponto de vista estritamente mundano,
tanto importa que a morte seja «boa» ou «não-boa», pois quer da vida quer do
processo de morte quer da própria morte, nada resta, tudo se equivale e
equivale absolutamente a nada. Boa ou má, a morte é o fim sem sentido algum
próprio possível para uma vida que, boa ou má, também não tem e não pode ter,
por causa do absoluto da morte assim entendida, qualquer sentido.
Deste ponto de vista, então,
«eutanásia» ou «kakotanásia», que seria o seu antónimo, equivalem-se, pois nada
faz qualquer sentido e o modo como se morre é apenas uma questão psicológica
que pode variar desde a maior satisfação, sejam quais forem as circunstâncias,
até à maior insatisfação, sejam quais forem as circunstâncias, tudo isto
modificável quimicamente de forma artificial através da medicação “indicada”,
em ambos os casos: pode muito bem entender-se como não aceitável ter uma morte
excitante, por exemplo. Basta para tal fazer uma lei: a química e os servidores
de tal lei cumprem-na.
Pode mesmo pensar-se numa forma
institucionalizada de morte-padrão, em que todos morram da mesma forma,
obedecendo a protocolos bio-médicos estritos, monitorizados directamente por
máquinas que controlem o modo de se morrer conformemente ao padrão. Repetimos:
tanto dá, se tudo vai acabar em nada.
Num ambiente em que há uma qualquer
abertura trans-mundana e em que ao mundo da pura imanência – necessariamente
física – se acrescenta a possibilidade de um «outro mundo», metafísico, em que
a soma do sentido haurido no mundo da imanência recebe a sua eterna consumação,
então, a forma como se morre é muito importante, mas é-o do ponto de vista
ético, isto é, do absoluto do acto realizado por cada ser humano, o que
relativiza tudo o resto, mesmo o possível sofrimento havido em vida, vida de
que o processo de morte faz parte. Aqui, apenas o sofrimento desnecessário é
absurdo, devendo ser atenuado sob todos os modos possíveis, ainda que no risco
de que a intervenção possa apenas coincidentemente fazer sobrevir a morte; é
impossível, por exemplo, num campo de batalha, ponderar com absoluta acribia
uma dose de morfina ou de algo semelhante a administrar de modo a retirar ao
ferido grave o sofrimento desnecessário: se for calculada – naquelas
circunstâncias de pressão factual e de perigo – por defeito, incumpre a sua
função e é ineficaz, se for calculada por excesso, pode causar a morte. Mas não
se trata de forma de morte provocada, antes de um acidente.
Ora, a história da chamada eutanásia é
a história da morte provocada. Provocada por razões ou com finalidade de
misericórdia, diz-se. Mas provocada,
o que introduz um elemento fundamental, pois, assim sendo, trata-se ou de um
suicídio ou de um assassinato. Se tal é considerado legal ou não é imaterial,
pois qualquer acto pode ser considerado legal, basta que haja alguém com poder
formal e material para o fazer e que o faça. Lembremos que a morte de Sócrates de
Atenas foi legal e lembremo-nos, sobretudo, das Leis de Nuremberga, que abriram
caminho para, entre outras coisas, o «Programa Eutanásia» nazi, directamente
patrocinado e em parte aplicado por Hitler como decisor qualificado e eficaz,
como foi o caso do programa específico dedicado às crianças indesejadas.
Se «Eutanásia» quer mesmo dizer «boa
morte» tem de corresponder sempre ao que esta designação quer dizer. Não pode o
mesmo termo querer dizer algo no tempo e sob a acção de Hitler e querer dizer
algo de diferente, possivelmente antagónico, por exemplo, hoje.
E não se trata do uso equívoco de uma
expressão, pois que equivocidade objectiva pode o termo boa-morte ter? «Boa»
não é «boa», é «má»? precisamente como? Questão do arbítrio de quem usa a
expressão. Ora, toca-se o ponto fundamental: o uso do arbítrio humano no que
diz respeito à vida humana no que esta tem de absoluto. Ao abrir-se o uso de
tal arbítrio em tal tema, imediatamente se põe a vida humana, não como coisa
teórica ou abstracta, mas como realidade concreta, irredutível e
insubstituível, nas mãos de quem nunca deveria estar. Nenhum ser humano deveria
ter ou poder ter ou exercer poder de vida e de morte sobre um outro ser humano.
O poder próprio de morte própria não é confundível com um acto de eutanásia,
sempre existiu, é estrutural, é tristemente comovente, é de um sentido trágico
que convoca o mais profundo sentido de misericórdia alheio e chama-se poder de
«suicídio». Como absoluta negatividade última nunca poderá ser um direito – o
direito ao nada é simplesmente néscio –, mas, sendo uma trágica possibilidade
própria, é irredutível e diz respeito apenas à interioridade ética do sujeito-pessoa,
imperscrutável – por mais que os comuns voyeurismos psicológico-tirânicos não o
queiram –, que tem de ser respeitada, sob pena de absoluto desrespeito da
pessoa humana. O mistério da morte às próprias mãos fica, numa perspectiva
laica, na finitíssima interioridade, assim anulada, do sujeito; numa
perspectiva crente, fica entre o sujeito e o seu Deus. A haver condenação, esta
será prerrogativa divina, no âmbito da famosa relação entre a métrica justiça e
a imétrica misericórdia, cabendo ao crente estar profunda e respeitosamente
calado e não se meter no que a Deus diz respeito.
Não confundir, pois, «eutanásia» com
«suicídio».
Isso que, para sempre, ficará como a
marca fundadora da grandeza absoluta da Eutanásia, o programa nazi a ela
dedicado com extraordinário sucesso, serve para mostrar bem a diferença entre
uma realidade e a outra. Pela razão aduzida, não podemos discorrer acerca do
suicídio, porque notoriamente não somos Deus, mas podemos brevemente tecer
algumas considerações acerca da matriz eterna de todos os processos de
Eutanásia.
Não foi por suicídio que as vítimas
quer do Programa de Eutanásia Infantil quer do Programa T4 de Eutanásia para
adultos morreram: foram assassinados com o pretexto de uma «morte
misericordiosa» medicamente assistida, patrocinada pelo Estado, o Terceiro Reich, por iniciativa, com a bênção e
com o empenho activo do seu responsável máximo democraticamente eleito, Adolf
Hiter.
Antes de Hitler ter pegado no assunto,
com a sua habitual eficácia, já havia um grande debate acerca da eutanásia,
debate científico – este adjectivo infelizmente messalinizou-se definitivamente
– na Alemanha, com obras fundamentais publicadas.[2]
No entanto, «Hitler tinha um intenso
interesse na matança medicamente operada directa.» (ibidem, p. 50). É este interesse pessoal do chanceler, alicerçado
nas suas ideias de pureza rácica, que desencadeia a passagem do debate teórico
e das intenções de intervenção aniquiladora sobre certos tipos de seres humanos
– precisamente considerados como menos humanos ou humanamente degradados e,
assim, não só passíveis de serem submetidos ao processo de eutanásia, mas
devendo a ele ser submetidos – à sua realização concreta.
Mas algo de muito diferente ajudou ao
desencadear e acelerar do processo: «Para o fim de 1938, o regime nazi recebeu
pedidos de parentes de recém-nascidos ou de crianças muito novas com
deformações severas e deformações cerebrais para o consentimento de uma morte
misericordiosa.» (ibidem). À vontade
política de Hitler de eliminar todos os que, por várias razões, não se
enquadrassem no seu modelo de ser humano perfeito, juntou-se a vontade das
famílias em que as suas crianças imperfeitas, supostamente com gravidade – o
modo de o aferir é visto mais adiante. O processo de eutanásia de crianças, o
primeiro a ser implementado, tinha as condições políticas reunidas:
legitimidade institucional e apoio popular directo dos próprios familiares.
Registam-se as palavras do historiador sobre
o modo como o nascimento da Eutanásia ocorreu: «A ocasião para se iniciar
efectivamente a matança das crianças, e de todo o projecto “eutanásia”, foi a
petição para “a matança misericordiosa”(Genadentod,
na realidade “morte misericordiosa”) de uma criança chamada Knauer, nascida
cega, com uma perna e parte de um braço em falta e, aparentemente, um
“idiota”.» (ibidem). Esclarecedor.
Imagine-se que tal se torna padrão.
Mas tornou-se padrão.
Concluídos os procedimentos
médico-científicos necessários: «De retorno a Berlim, Brandt [médico pessoal de
Hitler encarregue por este do processo aqui em causa] foi autorizado por
Hitler, que não queria ser publicamente identificado com o projecto, a proceder
do mesmo modo em casos similares: isto é, a formalizar um programa, com a ajuda
do dirigente nazi de alto nível Philip Bouhler, chefe da Chancelaria de Hitler.
Este “caso de teste” teve papel de pivot para os dois programas de matança –
das crianças e dos adultos.» (ibidem,
p. 51).
Aos nazis, parecia mais natural começar
pelas crianças: primeiro recém-nascidos, depois crianças até 3-4 anos, depois
mais velhas (cfr. ibidem). As
crianças eram submetidas a um júri de avaliadores médicos, três de cada vez,
que preenchiam um relatório, em que assinalavam se recomendavam o «tratamento»,
isto é, a morte da criança, pondo uma cruz na coluna da direita. Podia-se
propor um adiamento na decisão. O formulário era processado sequencialmente,
sabendo os médicos sucessivamente qual o parecer ou pareceres antecedentes. Era
necessária uma decisão unânime para que a criança fosse morta (cfr. ibidem). Tudo perfeito do ponto de vista
formal, metodológico, científico e legal, pois tinha a chancela do Chanceler
reconhecido como legítimo chefe de estado pela diplomacia internacional.
Aparentemente tudo perfeito. Mas estavam a matar crianças.
Para se ver até que ponto esta matança
era verdadeiramente misericordiosa, retomemos as palavras do historiador
citado: «A matança era usualmente preparada pelo director da instituição ou por
um outro médico que trabalhasse sob as suas ordens, de modo frequente mais por
sugestão do que por ordem específica. Era geralmente realizada através da toma
de comprimidos de luminal dissolvidos em líquido, como chá, dado à criança para
beber.» (ibidem, p. 55). Se não
funcionasse assim, era administrada uma injecção de morfina-escopolamina (ibidem).
Como se pode constatar, tudo muito
misericordioso.
Mas as crianças foram apenas o
princípio: «Diferentemente do programa “eutanásia” para crianças, o programa
T4, focado sobre pacientes adultos crónicos, envolveu virtualmente a totalidade
da comunidade psiquiátrica alemã e partes relacionadas da comunidade médica
geral.» (ibidem, p. 65). Entramos no
que é a eutanásia-padrão: a morte
“misericordiosa” medicamente assistida. Foi aqui, no ambiente político e médico
colaboracionista com a vontade tirânica, em pleno fulgor do nazismo, que a
eutanásia-padrão nasceu.
A legalidade burocrática, como no caso
das crianças, estava assegurada, bem como a cientificidade do processo. Havia
que preencher uma ficha protocolar (reproduzida na obra citada, ibidem, pp. 68-69). Se se fosse aprovado
para se ser morto, seguia-se o processo de misericordiosa morte: «Depois de as
portas serem fechadas, o ar era sugado para fora da câmara de gás através de um
ventilador, pelo mesmo médico que tinha procedido ao “exame” anterior. Depois,
durante cerca de dez minutos, monóxido de carbono era
deixado penetrar (pelo mesmo médico) e os seus efeitos observados através de
uma pequena janela.» (ibidem, p. 73).
Já basta, já temos o suficiente para se
perceber o que está em causa neste programa de morte misericordiosa, o Programa
Eutanásia.
Há, no entanto, que notar que foi aqui
que residiu a primeiro passo burocrático e técnico para a implementação das
infames câmaras de gás industriais dos campos de aniquilação, após se ter
descoberto, em Auschwitz velha, o método adequado de matar, ainda com o
pretexto de ser de forma misericordiosa, milhares de pessoas de cada vez,
através já não do ineficaz monóxido de carbono, mas da sublimação de cristais
de cianeto de potássio.
O
Holocausto levado a cabo nos campos de aniquilação nazi começou com o programa
Eutanásia. É esta a certidão
de nascimento da Eutanásia real, que marcará para sempre quer o termo quer tudo
o que se lhe associar.
Janeiro de 2016
Américo Pereira
[1] Ver nosso
estudo (Se) questo è un uomo. Leitura
ética, política e ontológica da obra de Primo Levi, Covilhã, www.lusosofia.net, 2014.
[2] Ver obra de LIFTON Robert Jay, The Nazi Doctors. Medical killing and the
psychology of genocide, s. l., Perseus Books, 1986, «Capítulo 2».
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