Pecado original

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segunda-feira, 22 de maio de 2017

As sete obras de misericórdia de Caravaggio

 35Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, 36estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo.”
Mateus 25, 35-36


O retábulo “As sete Obras de Misericórdia” de Caravaggio é uma pintura a óleo, com 390 cmx260 cm, e encontra-se na Igreja de Pio Monte della Misericordia, em Nápoles, Itália. O trabalho foi originalmente planeado para ser efetuado em sete painéis mas, no final, Caravaggio optou por combinar todas as sete misericórdias num só quadro.
Nesta obra é perceptível o desespero no rosto e na postura de certas personagens. A disposição diagonal dos elementos da tela sugere uma composição assimétrica com um acentuado contraste entre o claro e o escuro, com intensos focos de luz sobre os detalhes do rosto e do corpo.
As obras de misericórdia que podemos identificar nesta pintura são as seguintes:
-       Dar de comer a quem tem fome e visitar os presos
À direita está uma mulher amamentando um homem o que representa dois atos numa mesma cena: alimentando os famintos e visitando os prisioneiros. A cena refere-se a uma antiga história romana, na qual uma mulher, Pero, amamenta o seu pai, Simon, que foi condenado a morrer de fome. Ela tinha licença para visitá-lo na prisão, mas não para levar-lhe comida. Como acabara de dar à luz, numa atitude de dedicação sublime, amamenta o pai faminto. Os guardas da prisão descobrem, levam o facto ao conhecimento das autoridades, que, sensibilizadas com essa devoção filial, decidem libertar o prisioneiro.
-       Dar de beber a quem tem sede
À esquerda, acima do peregrino com um bastão nas mãos, Sansão bebe água de um recipiente de osso. Essa alusão a Sansão remete para o episódio da Bíblia em que ele estava em perigo de morrer de sede e Deus deu-lhe água numa vasilha de osso.

-       Vestir os nus, visitar e atender os doentes
O mendigo, nu e aleijado, não anda e arrasta-se pelo chão. São Martinho com um traje cor de vinho cumprimenta-o e dá-lhe atenção, dividindo o seu manto em duas partes para agasalhar o mendigo.
-       Dar pousada aos peregrinos

Um peregrino, que se pode distinguir pela carapaça e pelo bastão, é a terceira figura à esquerda. Busca abrigo conversando com o dono de um albergue, que já aponta o dedo indicador mostrando o caminho a seguir para a pousada.
-       Enterrar os mortos
No segundo plano, à direita, dois homens carregam um homem morto. Podem ver-se os seus pés.

Esta obra só mais tarde e por razões teológicas se reuniria às seis referidas por São Mateus. Alguns autores defendem que o seu sentido pode ser encontrado no mesmo texto, um pouco mais à frente, quando Maria, irmã de Lázaro, derramou sobre a cabeça de Cristo um perfume precioso. O caso foi motivo de indignação por parte dos discípulos, que pensavam vender o perfume e fazer reverter o dinheiro a favor dos pobres, ao que Jesus respondeu: «Derramando este perfume sobre o meu corpo, ela preparou a minha sepultura» (Mt 26, 12). Outros há que, retomando fontes da igreja primitiva, como Lactâncio, e medievais, como Johannis Beleth, filiam esta obra no Livro de Tobias 1, 17: «Durante o reinado de Salmanasar, eu dava muitas esmolas aos meus irmãos, fornecendo pão aos esfomeados e vestindo os nus, e se encontrava morto alguém da minha linhagem, atirado para junto dos muros de Nínive, dava-lhe sepultura». Esta parte do Livro de Tobias é tanto mais significativa por quanto ainda permite intuir outras duas, pois Tobias, representa o cuidado com os doentes, ao ajudar a curar a cegueira do pai, e o anjo Rafael,  caracteriza-se pela sua proximidade aos viajantes e peregrinos.

Francisco Vaz 
Março 2016

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