35Porque tive fome e
destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e
recolhestes-me, 36estava
nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes
ter comigo.”
Mateus 25, 35-36
O retábulo “As sete Obras de Misericórdia” de Caravaggio é
uma pintura a óleo, com 390 cmx260 cm, e encontra-se na Igreja de Pio Monte
della Misericordia, em Nápoles, Itália. O trabalho foi originalmente planeado
para ser efetuado em sete painéis mas, no final, Caravaggio optou por combinar
todas as sete misericórdias num só quadro.
Nesta
obra é perceptível o desespero no rosto e na postura de certas personagens. A
disposição diagonal dos elementos da tela sugere uma composição assimétrica com
um acentuado contraste entre o claro e o escuro, com intensos focos de luz
sobre os detalhes do rosto e do corpo.
As obras
de misericórdia que podemos identificar nesta pintura são as seguintes:
-
Dar de
comer a quem tem fome e visitar os presos
À direita está uma mulher amamentando
um homem o que representa dois atos numa mesma cena: alimentando os famintos e
visitando os prisioneiros. A cena refere-se a uma antiga história romana, na
qual uma mulher, Pero, amamenta o seu pai, Simon, que foi condenado a morrer de
fome. Ela tinha licença para visitá-lo na prisão, mas não para levar-lhe
comida. Como acabara de dar à luz, numa atitude de dedicação sublime, amamenta
o pai faminto. Os guardas da prisão descobrem, levam o facto ao conhecimento
das autoridades, que, sensibilizadas com essa devoção filial, decidem libertar
o prisioneiro.
-
Dar de
beber a quem tem sede
À
esquerda, acima do peregrino com um bastão nas mãos, Sansão bebe água de um
recipiente de osso. Essa alusão a Sansão remete para o episódio da Bíblia em
que ele estava em perigo de morrer de sede e Deus deu-lhe água numa vasilha de
osso.
-
Vestir os
nus, visitar e atender os doentes
O mendigo, nu e aleijado, não anda e
arrasta-se pelo chão. São Martinho com um traje cor de vinho cumprimenta-o e
dá-lhe atenção, dividindo o seu manto em duas partes para agasalhar o mendigo.
-
Dar
pousada aos peregrinos
Um peregrino, que se pode distinguir
pela carapaça e pelo bastão, é a terceira figura à esquerda. Busca abrigo
conversando com o dono de um albergue, que já aponta o dedo indicador mostrando
o caminho a seguir para a pousada.
-
Enterrar
os mortos
No
segundo plano, à direita, dois homens carregam um homem morto. Podem ver-se os
seus pés.
Esta obra
só mais tarde e por razões teológicas se reuniria às seis referidas por São
Mateus. Alguns autores defendem que o seu sentido pode ser encontrado no mesmo
texto, um pouco mais à frente, quando Maria, irmã de Lázaro, derramou sobre a
cabeça de Cristo um perfume precioso. O caso foi motivo de indignação por parte
dos discípulos, que pensavam vender o perfume e fazer reverter o dinheiro a
favor dos pobres, ao que Jesus respondeu: «Derramando este perfume sobre o meu
corpo, ela preparou a minha sepultura» (Mt 26, 12). Outros há que, retomando
fontes da igreja primitiva, como Lactâncio, e medievais, como Johannis Beleth,
filiam esta obra no Livro de Tobias 1, 17: «Durante o reinado de Salmanasar, eu
dava muitas esmolas aos meus irmãos, fornecendo pão aos esfomeados e vestindo
os nus, e se encontrava morto alguém da minha linhagem, atirado para junto dos
muros de Nínive, dava-lhe sepultura». Esta parte do Livro de Tobias é tanto
mais significativa por quanto ainda permite intuir outras duas, pois Tobias,
representa o cuidado com os doentes, ao ajudar a curar a cegueira do pai, e o
anjo Rafael, caracteriza-se pela
sua proximidade aos viajantes e peregrinos.
Francisco Vaz
Março 2016
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