Monsenhor Hugh O’Flaherty foi um
sacerdote católico que, durante a ocupação de Roma pelos nazis, salvou e ajudou
a salvar cerca de seis mil e quinhentas pessoas da máquina de destruição
montada pelo escol das forças militarizadas da Alemanha.
Hugh O’Flaherty não era um sacerdote
comum: para além de possuir três doutoramentos em Teologia, Filosofia e Direito
Canónico, foi sempre um servidor da causa da Igreja, como diplomata, tendo
cumprido missões como Delegado Apostólico em terras como o Egipto, Haiti, Santo
Domingo, Checoslováquia. Era um homem destinado a terminar a sua carreira junto
da Sé Romana, tendo assumido em Roma um importante cargo no Santo Ofício –
antigo Tribunal da Inquisição – onde desenvolveu um notável trabalho
administrativo e jurídico.
Mas este homem foi sempre também um
grande atleta: grande lutador de boxe, jogador de handebol, de golfe. E tal não
é despiciendo: sabemos que este tipo de treino implica, para que se atinjam
bons níveis, grande disciplina, espírito de sacrifício, capacidade de
sofrimento, capacidade de suportar a dor, a fadiga, capacidade de substituir a
passional psicologia pela espiritual vontade. Deixar de se ser como bichos de
Pavlov para passar a ser como semelhantes ao modelo de todas estas virtudes,
que é, precisamente, Cristo.
O Pe. Hugh era fundamentalmente um
homem de liturgia, isto é, de serviço. Dedicou a sua vida ao serviço da Igreja,
não como coisa meramente institucional, quase abstracta, vivida muitas vezes
como abstracta, mas ao serviço da Igreja de carne, isto é, do Povo de Deus, que
é constituído por todos os crentes, desde o seu chefe máximo, o Papa, até ao que
for o menos mundanamente honrado, que, aos olhos de Deus e, portanto, também
aos nossos, aqui, nunca pode ser dito como o menos digno ou o menos importante.
Mas o entendimento que Hugh tem da
tarefa da Igreja e, deste modo, da sua própria tarefa transcende a eclésia
entendida deste modo: a tarefa da Igreja é católica, quer dizer, universal,
transcendental a toda a humanidade, pois toda ela é «de Deus»,
independentemente de o reconhecer ou não.
Hugh reconhece-o e faz sua a tarefa de
levar os meios de humana salvação a quem deles necessitar. Mas este Padre sabe
que a humana salvação só é possível porque é obra de Deus, mas sabe também que
Deus não opera magicamente, servindo-se da carne litúrgica dos seus filhos para
o bem-fazer aos seus filhos, quaisquer sejam, pois a vontade salvífica de Deus
é absoluta, universal, gratuita, sem condições que não o amor: amor para com
Deus, que tem de necessariamente passar pelo amor para com as criaturas de
Deus, particularmente para com as criaturas humanas, especialmente queridas.
Usámos o termo «católico» e este termo,
no seu significado matricial de «universal», de «kath-holon», de «segundo o
todo» vai assumindo para nós um especial sabor de bondade à medida que vamos
estudando estes temas relacionados com a cooperação humana com Deus para a
salvação – em muitos modos – dos seres humanos. A matriz católica da liturgia
da graça salvífica marca a acção de três grandes homens – são os que até agora estudámos,
há muitos mais e de confissão não-católica, mas não é da confissão que aqui se
trata – que actuaram liturgicamente nesta época, neste meio de universal morte,
em benefício de uma metamorfose para um novo mundo de vida.
A matriz de vontade divina de salvação
universal que o catolicismo é marcou-os com uma latitude antropológica não
muito comum para a época, de grande vínculo etnocêntrico e nacionalista ou
internacionalista, de tipo fascista, fosse segundo a matriz clássica italiana
ou segundo as derivações nazi e comunista de tipo soviético. A matriz católica
é, paulinamente, serva de todos,
independentemente das suas características secundárias, interessando apenas que
em cada ser humano há uma entidade feita à imagem e semelhança de Deus. Apenas
isto interessa, apenas isto é merecedor de atenção e de respeito fundamentais.
De nada interessa catolicamente se o
ser humano é mais ou menos escuro, circuncidado, baixo ou alto, muito ou pouco
pecador, dado que o são todos, mas que é uma pessoa, sempre amável como tal,
amável humanamente porque paradigmaticamente amada por Deus. Universalmente,
catolicamente. Ser católico, é participar desta e nesta acção amante de Deus
para com as suas criaturas.
Os católicos, como todos os outros
seres humanos, são imperfeitos, relativamente a Deus, e pecadores. Os nossos
três católicos servos do bem humano são todos pecadores. Por exemplo, Schindler
era um inveterado mulherengo, não se importando com o sofrimento que causava;
Sousa Mendes, católico devoto, não se inibiu de ter uma amante; O’Flaherty odiou
os britânicos que oprimiram o seu povo.
Para todas estas imperfeições, podemos
encontrar justificações, mais ou menos especulativas. Mas todas não relevam a
imperfeição e o pecado.
No entanto, se tivermos em consideração
o bem feito por estes homens imperfeitos, as suas imperfeições resultam
não só muito relativas, como, pelo facto de terem sido capazes de, apesar
delas, realizar bens imensos, ajudam a exaltar tais bens, precisamente porque
foram feitos não por deuses artificialmente postos em cena, mas por entes humanos
comuns, tomados por uma paixão e um amor
incomuns. Entre os três, salvaram cerca de quarenta mil pessoas.
Pessoas: eis o ponto fulcral, o ponto
«católico», pois o ponto universalista. Não salvaram os da sua laia, não
salvaram segundo protocolos formais, apenas aplicaram à espécie humana que se
lhes expunha o mandamento católico do amor. Sem esta forma católica, teriam
estes homens tido o sentido não-preconceituoso que tiveram?
No caso do nosso Monsenhor, o sentido
da catolicidade da salvação é levado ao extremo, pois, mesmo obrigando o tirano
nazi Kappler, chefe da Gestapo em
Roma, a sofrer amargamente o novo sabor da angústia da possível perda dos que
amava, aquando da chegada dos Aliados à cidade – e, sim, estas pessoas são
capazes de amar –, não deixou Hugh de salvar a mulher e os filhos daquele.
Aliás, num filme que lhe é dedicado,[1]
o Monsenhor trabalha muito bem o que estava de fundamental em causa, pois,
quando Kappler pede para que Hugh salve os seus familiares e este recusa,
lembrando o mal que o tiranete tinha feito e mandado fazer, este insulta-o, bem
como à Igreja, dizendo que, no fundo, é tudo igual e que não há caridade, amor,
Deus.
Quando percebe, mais tarde, que,
afinal, o Monsenhor tinha feito chegar a bom porto a família, intuiu que nem
tudo é igual, que há quem seja diferente nos actos, mesmo que use palavras
duras. Mas são palavras que servem para despertar as bestas, para as fazer cair
no abismo da sua maldade, sem o que, sem esta autêntica passagem pelo inferno
espiritual do mal, não pode haver conversão, pois, sem a quebra substancial da
estupidez que constitui o bloqueio que torna a bondade invisível, não pode
haver reconhecimento de tal bondade, não pode haver arrependimento substancial
– não apenas verbal ou psicológico –, não pode haver conversão, conversão que
coincide com a própria salvação, pois é, já, aceitação de Deus.
O ápice da acção litúrgica de Hugh,
historicamente irónico, mas ética e religiosamente (teologicamente, até) perfeito,
aconteceu quando, quinze anos mais tarde, em 1959, Kappler acaba por receber o
baptismo, depois de se ter convertido. Desde a sua prisão, todos os meses, Hugh
foi a única pessoa que visitou o antigo monstro, assim providenciando não uma
lição, mas, mais uma vez, uma liturgia de caridade, de misericórdia.
No especial ano da misericórdia que
estamos a viver, a obra do Pe. O’Flaherty é um monumental testemunho do que
pode ser e é o trabalho de misericórdia, sem o qual não há salvação quer de
inocentes quer de não-inocentes.
A obra de Hugh é uma obra completa
segundo a dinâmica e o movimento da caridade: tendo em si um dom de
extraordinária virtude, soube este Padre ser digno de tal dom, pondo-o a
frutificar esplendorosamente em favor do católico bem da humanidade. Tanto
quanto podia e podia muito. E muito realizou. Soube apresentar ao dador dos
talentos grandes lucros.
Hugh pecador tem em si um manancial de
virtudes, mais, é exemplo paradigmático do septenário das virtudes.
Temperança, que aprendeu a usar com os
britânicos inicialmente odiados, mas também com os nazis e fascistas, talvez já
não odiados, mas de quem teve de presenciar actos, esses sim odiosos, sem se
deixar levar pela paixão, sob pena de tudo deitar a perder, como chefe que era
de uma organização vasta de apoio a vítimas e possíveis vítimas. Durante muito
tempo, a sua cabeça esteve a prémio e a Gestapo
tudo fez para o apanhar, prender, torturar e matar. O seu domínio temperante de
si próprio libertou-o de um destino terrível e ajudou milhares de outros a
também de tal se libertarem.
A coragem era um de seus fortes. Desde
muito novo, assim foi, tendo sido criado num ambiente político em que a
cobardia e a temeridade matam precocemente. Mas Hugh era mestre no uso da força
interior, sabendo muito bem até onde ir, se bem que, muitas vezes, a sua acção
fosse vista como temerária por quem não o conhecia suficientemente. É claro que
uma pessoa que não tivesse a sua formação, física e intelectual, não poderia
expor-se do modo como muitas vezes se expunha, mas as suas capacidades, desde
sempre trabalhadas, constituíram uma mediação preciosa.
Por outro lado, sem a força interior
que possuía, não teria conseguido ser tão bom em tudo como era. Mas a vida não
é boa para os cobardes e é curta para os temerários. É também a coragem isso
que dá força ao ser humano para ser temperante: diante de certas situações,
para que não explodisse o Hugh celta e aguerrido, para que o necessário tempero
da acção surgisse e se mantivesse, foi preciso ter muita força, do tipo que apenas
certos religiosos muito bem treinados em ascese ou militares com treino análogo
possuem. Hugh era corajoso e temperado, por isso foi vitorioso sobre um poder
imenso, capaz de causar terror a outros.
Hugh era um sábio, um homem de
prudência sem medida, com uma visão estratégica de um general, o conhecimento
de um triplo Doutor, uma tarimba de um diplomata endurecido pelo sol dos
trópicos da sobrevivência no seio da perversidade política (como, aliás, na
mesma altura aquele que viria a ser o Papa João XXIII, que também salvou vários
milhares de pessoas e um dignitário nazi, von Papen; é o nosso quarto católico,
ainda por nós não estudado).
A sabedoria administrava a coragem e a
temperança no sentido do bem maior do serviço à Igreja, ao Povo de Deus e ao povo
humano em busca de salvação. A caridade não é apenas um acto de vontade, é
também um acto de inteligência, essa que percebe o absoluto do bem a atingir e
que constrói as mediações necessárias para tal aportação.
Mas a caridade é sempre uma obra do ser
humano, da pessoa, como um todo: é Cristo quem se dá em acto de oblativa e
litúrgica caridade; o mesmo para o Pe. Hugh.
E, assim, Monsenhor O’Flaherty foi um
homem justo, pois foi temperante, corajoso e sábio, fazendo o bem e a justiça que
é o bem próprio de cada coisa.
Teologalmente, deparamo-nos com
realidade homóloga: o Pe. Hugh soube ser um homem de fé, de esperança, de
caridade.
Desta última já falámos bastante.
Quanto à fé, ela é incoativa nele, segundo rezam as crónicas, mas, sobretudo, é
o dado que permite o sustento das virtudes cardeais: sem uma indefectível
confiança transcendente e transcendental em Deus como Pai amante e que quer o
bem de seus filhos, como suportar tal tarefa? Aliás, todas as tarefas? Para
quê? Para quê os esforços diplomáticos, para quê os esforços jurídicos no Santo
Ofício, para quê apostar na salvação política dos perseguidos ou espiritual dos
pecadores? Para quê, se não houver um bem infinito em que confiar?
Tudo é nada e nada vale coisa alguma e
mais vale acabar já com tudo. A acção de Hugh é contraditória deste cenário e
só faz sentido precisamente tendo como pano de fundo o cenário contraditório,
que a tudo dá sentido primeiro e último, alfa e ómega.
Esperança. Para quem nasce numa Irlanda
ainda de luto por uma matança de um milhão de seres humanos à fome, vítimas da
maldade de outros seres humanos, espezinhada por colonos que tratavam os
autóctones celtas como bichos, não deve ser muito fácil viver com esperança,
pois, pouco há de mundano em que esperar.
Mas a esperança é dom de Deus. Certo,
mas dom de Deus que grande parte da humanidade se esforça por derrotar
sistematicamente. O velho Agostinho demorou a encontrar a fonte da esperança
bem dentro de si, tão funda que pareceu nunca lá estar. E teve de ser mandado
«tomar e ler».
A toma e leitura de Hugh realizou-se na
matriz católica da Irlanda celta, nos Padres Jesuítas, em missão, depois já
como adulto no modo como a sua acção foi ajudando a moldar um mundo com menos
injustiça, menos fome, menos ódio. A esperança não vive sem a mediação da obra
realizada, sem que o Agostinho que há em todos nós se dê ao trabalho de se
encontrar a si próprio como instrumento mediacional da obra de Deus. Descoberto
isto, não apenas se descobre Deus, mas a si próprio em Deus, mais do que Deus em
si próprio. E a esperança nasce como intuição de que, em Deus e com Deus, eu
posso. Absolutamente, eu posso.
O ser humano que se transforma na
mediação litúrgica de Deus no mundo para bem do mundo e dos seres humanos, e,
assim e só assim, para e como glória de Deus (que sempre vê o que é bom, e,
nisso, se revê), deixa imediatamente de ser metal vazio que ressoa ao vento num
mundo sem ouvidos, para passar a ser divina música, divina e humana harmonia,
caridade perfeita, que o é sempre, por mais ínfima que nos possa parecer.
Como Agostinho depois da sua conversão,
todo o ser humano que descobre o fascínio do bem, de Deus, não descansa
enquanto não tiver feito todo o bem possível, até que Deus seja servido levá-lo
do tempo para a eternidade, para a paz.
É Agostinho em constante trabalho
pastoral, pondo os fundamentos teológicos de sempre; é Schindler a comprar
tresloucadamente pessoas para as salvar; Sousa Mendes a carimbar passaportes
como se o mundo fosse acabar ali e então; Monsenhor O’Flaherty a enfrentar com
prudência de serpente e candura de diplomática pomba a tirania nazi, sempre
pronta a reclamar vitória mesmo sobre aqueles a quem não tendo podido vencer no
campo da honra assassinava.
A caridade triunfa sempre. Não é com
isto que nos devemos preocupar, pois é dom de Deus de que Deus não abdica:
quando abdicar, tudo o que se move cairá no nada. É com o preço do triunfo da
caridade que nos devemos preocupar, como o facto de não sermos tão fortemente
agentes do bem como o Pe. Hugh, tão activas boas imagens e semelhanças de Deus.
A caridade e a misericórdia finais de
Deus não nos devem servir de desculpa para a nossa mediocridade. A recompensa
que Deus nos dá não anula a recompensa que damos a nós próprios e que vai ser a
nossa eternidade, transformada, mas não anulada.
Que me trazes como dote, Pe.
O’Flaherty? Pergunta Deus.
Que me trazes, Américo?
Março de 2016
Américo Pereira
[1] LONDON Jerry, The scarlet and
the black, produção de Bill McCutchen, argumento de David Butler, com:
Gregory Peck, Christopher Plummer, John Gielgud, ITC Entertainment Productions,
MCMLXXXVIII.
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