Como a procura da arkhé inaugurou a aventura filosófica da humanidade
Quando pensamos em Tales de Mileto, é frequente encontrarmos a afirmação de que foi o filósofo que defendia que «tudo é água». Lida superficialmente, esta frase parece quase ingénua, como se estivéssemos perante uma tentativa rudimentar de explicar a constituição física do universo. No entanto, uma leitura mais atenta revela algo de muito mais profundo. A verdadeira grandeza de Tales não reside na escolha da água como princípio, mas na descoberta da própria necessidade de um princípio.
Com Tales nasce uma das perguntas mais decisivas da história do pensamento humano: qual é a origem última de tudo o que existe? Que fundamento sustenta a multiplicidade das coisas que encontramos na experiência? A esta realidade fundamental os gregos chamaram arkhé, termo que significa simultaneamente origem, princípio, fundamento e causa.
A novidade da reflexão de Tales não consiste, pois, numa teoria sobre a natureza, mas numa mudança radical de atitude perante o real. Antes dele, as grandes questões acerca do mundo eram predominantemente respondidas através do mito. Com Tales surge a convicção de que o universo possui uma ordem inteligível e que o ser humano pode procurar compreendê-la através da razão. É o nascimento do logos filosófico.
Quando Tales identifica a água como arkhé, não pretende apenas afirmar que todas as coisas são feitas de água. O que a sua intuição procura expressar é a existência de uma unidade ontológica subjacente à diversidade do mundo. Por detrás da multiplicidade dos seres existe um princípio comum que lhes confere consistência e inteligibilidade. A água funciona, assim, como símbolo de uma realidade mais profunda: a descoberta de que o universo não é um conjunto caótico de acontecimentos desconexos, mas uma totalidade ordenada.
Esta intuição inaugural abre um caminho que nunca mais seria abandonado. A filosofia torna-se, desde então, uma procura incessante do fundamento do ser. Cada pensador procurará identificar esse princípio de forma diferente, mas todos permanecem herdeiros da mesma pergunta original. A grande aventura da filosofia começa precisamente no momento em que o homem se interroga sobre aquilo que torna possível a existência de tudo o que existe.
O desenvolvimento posterior da reflexão pré-socrática confirma esta dinâmica. Anaximandro, discípulo ou sucessor de Tales, compreende que o princípio de todas as coisas não pode ser uma realidade determinada entre outras. Propõe então o apeiron, o ilimitado ou indefinido. Se tudo aquilo que se manifesta possui forma, limite e definição, a fonte dessa manifestação não pode ela própria estar limitada por uma forma particular. Surge assim uma compreensão mais profunda do absoluto como fonte inesgotável de todo o ser.
Aquilo que está em causa não é uma questão física no sentido moderno do termo. Os primeiros filósofos não procuravam apenas explicar fenómenos naturais. Procuravam compreender o mistério da própria existência. A sua interrogação fundamental era ontológica: porque existe algo em vez de nada? Como é possível que haja realidade? Que sentido possui esta presença extraordinária do ser diante da nossa experiência?
Vista desta perspectiva, a filosofia não nasce da curiosidade científica, mas do espanto perante a existência. O verdadeiro objecto da investigação filosófica é o próprio ser enquanto actualidade absoluta. Tudo o que existe participa desse mistério fundamental que consiste simplesmente em ser.
A actualidade de Tales permanece, por isso, surpreendente. Vivemos numa época que acumulou um conhecimento científico incomparavelmente superior ao dos gregos. Conhecemos a estrutura da matéria, observamos galáxias distantes e exploramos os mecanismos mais íntimos da vida. Contudo, nenhuma destas conquistas elimina a pergunta originária. Continuamos sem poder evitar o espanto perante o facto de existir alguma coisa.
É precisamente aqui que reside a perenidade da lição de Tales. A filosofia começa quando deixamos de considerar a existência como algo evidente e descobrimos que o ser é o maior dos mistérios. O homem verdadeiramente filosófico não é aquele que possui todas as respostas, mas aquele que conserva viva a capacidade de se maravilhar perante a realidade.
Talvez por isso Tales continue a ser recordado mais de dois milénios depois. Não porque tenha dito que tudo é água, mas porque foi um dos primeiros a compreender que, por detrás de todas as coisas, existe uma questão infinitamente mais importante: o que significa ser?
Francisco Vaz
20 de junho de 2026
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