Pecado original

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quinta-feira, 18 de junho de 2026

Melodias da Memória

Uma viagem pelo tempo através da música

A música possui uma capacidade única: fazer do tempo memória e da memória presença. Uma melodia pode atravessar décadas, sobreviver às mudanças das sociedades, acompanhar diferentes gerações e continuar a emocionar como se tivesse sido criada ontem. É precisamente essa viagem que este recital propõe: um percurso por algumas das mais belas canções do século XX, unidas pela sua capacidade de falar ao coração humano.

A viagem começa com As Time Goes By (1931), de Herman Hupfeld imortalizada pelo filme Casablanca. O próprio título — "À medida que o tempo passa" — introduz o tema central deste programa. O tempo corre, os anos sucedem-se, as circunstâncias mudam, mas permanecem os grandes sentimentos que definem a condição humana. É uma canção sobre aquilo que resiste à erosão dos dias.

De seguida surge Petite Fleur (1952) de Sidney Bechet. Esta "pequena flor" nasceu da memória de uma amizade perdida. A delicadeza da melodia recorda-nos que a verdadeira memória não é um peso, mas uma forma de presença. Aqueles que amámos continuam a viver em nós através da recordação.

Com Fly Me to the Moon (1954) de Bart Howard, a música transforma-se em sonho. Muito antes de o ser humano chegar à Lua, esta canção já exprimia o desejo de ultrapassar limites e alcançar o impossível. É um hino à imaginação humana, essa força que nos permite transcender a realidade imediata e abrir caminho ao futuro.

Sabor a Mí (1959) de Alvaro Carrillo, transporta-nos para o universo da música latino-americana. A sua mensagem é simples e profunda: quando existe amor verdadeiro, algo de nós permanece na vida do outro. É uma reflexão poética sobre a marca que deixamos naqueles que encontramos ao longo da existência.

Em Can't Help Falling in Love (1961) de Hugo Peretti, Luigi Creatore e George David Weiss, popularizada por Elvis Presley, encontramos uma das experiências humanas mais universais: o amor que surge sem aviso e sem explicação. Há decisões que resultam da razão; outras nascem de uma evidência interior que simplesmente reconhecemos. Esta canção fala dessa entrega serena ao mistério do amor.

A amizade ocupa o centro do programa através de You've Got a Friend (1971) de Carol King. Carole King escreveu uma das mais belas declarações de confiança entre seres humanos. Num mundo frequentemente marcado pelo individualismo, a canção recorda-nos que a amizade é uma das formas mais elevadas da solidariedade humana.

Com Goodbye My Love, Goodbye (1973) de Leo Leandros, Klaus Munro e Harald Weindorf, e popularizado por Demis Roussos, surge a experiência da despedida. Toda a vida humana é feita de encontros e separações. Contudo, esta melodia não é um canto de desespero. É antes o reconhecimento de que aquilo que foi verdadeiramente vivido permanece connosco, mesmo quando os caminhos se separam.

She (1974)de Charles Aznavour e Herbert Kretzner, fala do mistério da pessoa amada. Nenhum ser humano pode ser totalmente reduzido a palavras ou conceitos. Existe sempre uma profundidade que escapa à descrição. Talvez seja precisamente essa riqueza insondável que torna possível o amor e o encantamento.

Em Feelings (1974) de Morris Albert, o título diz praticamente tudo. A canção convida-nos a reconhecer a importância da dimensão afetiva da existência. O ser humano não é apenas razão ou vontade; é também emoção, sensibilidade e capacidade de ser tocado pelo mundo e pelos outros.

Finalmente, o recital encerra com Let It Be (1970) de John Lennon e Paul McCartney, uma das mensagens mais luminosas da música contemporânea. Inspirada numa recordação da mãe de Paul McCartney, a canção fala de serenidade perante as dificuldades da vida. Não é um convite à passividade, mas à confiança. Há momentos em que a sabedoria consiste não em controlar tudo, mas em aceitar que nem tudo depende de nós.

Vistas em conjunto, estas canções formam uma espécie de retrato musical da condição humana. Encontramos nelas a memória e a esperança, o amor e a amizade, o sonho e a despedida, a emoção e a serenidade. São temas que atravessam culturas, gerações e épocas porque pertencem à própria estrutura do humano.

Talvez seja essa a razão pela qual continuam a emocionar-nos. O tempo passa, mas aquilo que estas melodias exprimem permanece. E, enquanto permanecerem o amor, a amizade, a esperança e a memória, estas canções continuarão a encontrar eco no coração de quem as escuta.

Porque o tempo passa. Mas a música permanece.

Francisco Vaz

18 de junho de 2026


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