Pecado original

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sábado, 20 de junho de 2026

Voltaire: um platónico improvável?

Entre a procura do Ser e o cultivo do jardim

Quando se fala de Voltaire, dificilmente se pensa nele como herdeiro de Platão. A sua figura surge associada ao Iluminismo, à crítica das instituições, à defesa da tolerância religiosa e à confiança na razão humana. Platão, pelo contrário, é geralmente visto como o grande fundador da tradição metafísica ocidental, aquele que procurou elevar o pensamento até à contemplação do Bem, da Verdade e da Beleza como fundamentos últimos de toda a realidade.

À primeira vista, parecem habitar universos intelectuais distintos. Contudo, a relação entre ambos é mais interessante do que uma simples oposição.

Tal como Platão, Voltaire acreditava que a razão constitui uma das mais elevadas capacidades humanas. Ambos viam na ignorância uma das principais causas da injustiça e da degradação da vida comum. Ambos acreditavam que a existência humana não pode ser reduzida ao mero jogo das paixões ou dos interesses imediatos. Existe, para os dois, uma exigência de inteligibilidade do mundo e da ação humana.

Mas é precisamente na forma de compreender essa inteligibilidade que os seus caminhos se separam.

Para Platão, o mundo sensível encontra o seu sentido numa realidade superior que o transcende. O que vemos, fazemos e pensamos só é plenamente compreensível porque participa de uma ordem mais profunda do ser. A filosofia consiste, em grande medida, numa ascensão da alma em direção a esse fundamento último, a essa fonte de sentido que designa como o Bem.

Voltaire segue um caminho diferente. A sua preocupação principal não é a contemplação do fundamento absoluto do ser, mas a condição concreta dos homens. O seu olhar dirige-se para a intolerância, para a superstição, para o fanatismo e para o sofrimento causado pelas instituições e pelas ideologias. Em vez de perguntar pelo que é o Bem em si mesmo, pergunta como evitar que os homens destruam os seus semelhantes em nome das certezas que afirmam possuir.

Esta diferença torna-se particularmente evidente em Cândido. Nessa obra, Voltaire utiliza a ironia para desmontar as filosofias que pretendem justificar racionalmente todos os males do mundo. O pano de fundo é uma época marcada por guerras, perseguições e, sobretudo, pelo terramoto de Lisboa de 1755, acontecimento que abalou profundamente a confiança europeia em certas conceções otimistas da providência.

Perante o sofrimento, Voltaire desconfia dos grandes sistemas explicativos. Considera que existe algo de profundamente inadequado numa filosofia que procura justificar abstratamente a dor de quem sofre. Daí a célebre conclusão da obra: «é preciso cultivar o nosso jardim». A expressão não representa uma fuga à realidade, mas uma chamada de atenção para a responsabilidade concreta de agir no espaço limitado da existência humana.

É precisamente aqui que emerge um diálogo particularmente fecundo com a tradição platónica. Voltaire recorda-nos que qualquer reflexão filosófica perde legitimidade se ignorar a realidade concreta da vida humana. Nenhuma teoria sobre o bem, a verdade ou a providência pode dispensar o confronto com a experiência efetiva do sofrimento, da injustiça e da fragilidade.

Mas a tradição platónica responde igualmente a Voltaire. Sem uma interrogação sobre o fundamento último do ser, sem uma procura daquilo que confere sentido à própria ação humana, o risco é reduzir a existência a uma sucessão de respostas práticas sem horizonte transcendente. Cultivar o jardim é necessário; compreender por que razão vale a pena cultivá-lo é igualmente indispensável.

Talvez seja por isso que Voltaire não possa ser considerado um pensador da linhagem platónica em sentido estrito. Falta-lhe a orientação metafísica que caracteriza Platão e toda a tradição que dele descende. No entanto, também não é um simples adversário dessa tradição. A sua crítica obriga a filosofia a manter os pés assentes na realidade humana, impedindo que a procura do absoluto se transforme numa abstração desligada da vida.

Entre Platão e Voltaire existe, assim, uma tensão criadora que continua atual. De um lado, a exigência de procurar o fundamento último do ser; do outro, a necessidade de nunca esquecer os homens concretos que habitam o mundo. A sabedoria talvez consista precisamente em não sacrificar nenhuma destas dimensões: nem a altura da contemplação, nem a humildade do jardim.

Francisco Vaz

20 de junho de 2026

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