Criação, amor e gratuidade à luz da tradição cristã
Vivemos numa civilização profundamente marcada pela lógica da troca. Uma das expressões mais conhecidas dessa mentalidade é a afirmação de que “não há almoços gratuitos”. A frase, geralmente atribuída ao pensamento económico liberal, pretende lembrar que tudo tem um custo e que alguém acaba sempre por pagar a conta.
No plano da economia, a observação possui alguma validade. Os recursos são limitados e os bens materiais exigem trabalho, energia e meios para serem produzidos. O problema surge quando esta lógica é elevada a princípio universal e aplicada a toda a realidade humana. Nesse momento, a própria possibilidade da dádiva torna-se incompreensível.
Se não existisse verdadeira gratuidade, então o amor seria apenas uma forma sofisticada de interesse. A amizade seria um contrato implícito. A solidariedade uma troca diferida. A maternidade e a paternidade um investimento. E a própria ética reduzir-se-ia a uma contabilidade de vantagens e desvantagens.
Mas a experiência humana mostra precisamente o contrário. Os momentos mais decisivos da nossa existência são recebidos gratuitamente. Ninguém paga pelo dom da vida. Ninguém merece nascer. Ninguém compra o amor autêntico de uma mãe, a amizade sincera ou a beleza de um pôr do sol. O essencial é-nos dado antes de qualquer mérito ou retribuição.
A questão atinge a sua maior profundidade no plano teológico. Se fosse verdade, em sentido absoluto, que não existem almoços gratuitos, então a própria criação seria um absurdo metafísico. Deus não teria criado por amor, mas por interesse. Necessitaria de algo que lhe faltasse. Procuraria uma compensação, um benefício ou uma vantagem. Contudo, um Deus que precisasse de algo deixaria de ser Deus, pois seria imperfeito e carente.
A tradição teológica judaico-cristã afirma precisamente o contrário: Deus cria porque é plenitude de ser e plenitude de amor. A criação não resulta de uma necessidade, mas de uma superabundância. O universo surge como dádiva. Não porque Deus precise do mundo, mas porque o Bem, sendo pleno, tende a comunicar-se. Como diria Platão, o Bem é difusivo; como diria Santo Agostinho, o amor procura naturalmente partilhar-se.
Por isso, a criação é o maior desmentido da tese segundo a qual toda a realidade se reduz à troca. Antes de qualquer dívida existe uma dádiva originária. Antes de qualquer obrigação existe um dom. O ser humano encontra-se lançado numa existência que não conquistou nem comprou. Vive porque recebeu.
Daqui decorre uma consequência antropológica decisiva. A gratidão é mais fundamental do que a dívida. A dívida prende-nos a uma obrigação; a gratidão desperta-nos para o reconhecimento do bem recebido. Quem vive apenas na lógica da dívida torna-se contabilista da existência. Quem descobre a lógica da dádiva compreende que a vida é, antes de tudo, um dom a acolher e a transmitir.
Por isso, a frase “o amor da dádiva não dá dívida” exprime uma verdade profunda. A dádiva autêntica não cria devedores; cria agradecidos. Não estabelece relações de dependência; funda comunhão. E é precisamente porque existe esta gratuidade originária — inscrita na criação, no amor e no próprio ser — que o humano pode transcender a mera lógica económica e abrir-se àquilo que verdadeiramente o realiza.
Afinal, se tudo fosse troca, o mundo seria um mercado. Mas porque existe dádiva, o mundo pode ser também um lugar de amor, de beleza e de esperança.
Francisco Vaz
17 de junho de 2026
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