Como o livro mais controverso da Bíblia acabou por encerrar a Escritura Cristã
Entre todos os livros do Novo Testamento, nenhum teve um percurso tão complexo até à sua aceitação definitiva no cânone cristão como o Apocalipse de João. Hoje parece natural encontrá-lo no final da Bíblia, mas durante os primeiros séculos do Cristianismo a sua inclusão esteve longe de ser consensual.
Paradoxalmente, o livro que hoje encerra a revelação cristã foi também um dos últimos a alcançar aceitação universal.
Um livro nascido da perseguição
O Apocalipse foi provavelmente escrito no final do século I, durante o reinado do imperador romano Domiciano, por volta dos anos 95-96 d.C.
O seu autor apresenta-se simplesmente como João, exilado na ilha de Patmos. Desde cedo a tradição cristã identificou-o com João Evangelista, embora a questão da autoria continue a ser debatida pelos estudiosos.
O contexto era dramático. As comunidades cristãs enfrentavam a pressão do poder imperial e a exigência do culto ao imperador. O Apocalipse surge como uma mensagem de resistência e esperança dirigida às Igrejas da Ásia Menor, afirmando que nenhum poder terreno pode ocupar o lugar de Deus.
A rápida aceitação no Ocidente
Nos séculos II e III, o livro gozou de grande prestígio em numerosas comunidades cristãs.
Figuras como Justino Mártir, Irineu de Lião e Tertuliano citaram-no como Escritura inspirada.
Particularmente importante foi Irineu, que, vivendo apenas uma geração após os apóstolos, testemunhou a ampla aceitação do Apocalipse nas Igrejas do seu tempo.
Para muitos cristãos perseguidos pelo Império Romano, o livro representava uma poderosa fonte de consolação e esperança.
As resistências no Oriente
No entanto, a situação era muito diferente em diversas Igrejas orientais.
A linguagem simbólica do Apocalipse dava origem a interpretações excessivamente literais e milenaristas. Alguns grupos defendiam que Cristo regressaria para instaurar um reino terreno de mil anos, interpretação que gerava tensões e expectativas difíceis de conciliar com a reflexão teológica emergente.
Por esta razão, teólogos influentes como Dionísio de Alexandria levantaram dúvidas sobre a autoria apostólica do livro.
Enquanto os Evangelhos e as Cartas de Paulo eram universalmente reconhecidos, o Apocalipse permanecia objeto de debate.
Durante séculos, algumas Igrejas do Oriente utilizaram o livro com reservas ou mesmo o excluíram da leitura litúrgica.
O critério da canonicidade
A Igreja antiga utilizava vários critérios para reconhecer um livro como inspirado:
Origem apostólica ou ligação direta aos apóstolos;
Conformidade doutrinal com a fé recebida;
Uso litúrgico generalizado;
Reconhecimento pelas diversas comunidades cristãs.
O Apocalipse satisfazia claramente o segundo e o terceiro critérios. A principal dificuldade residia na questão da autoria.
Apesar das dúvidas, o peso da tradição recebida acabou por prevalecer.
A consolidação do cânone
No século IV, a situação começou a estabilizar.
A célebre Carta Festal de Atanásio de Alexandria, escrita em 367, apresenta pela primeira vez exatamente os vinte e sete livros que hoje compõem o Novo Testamento, incluindo o Apocalipse.
Pouco depois, os sínodos regionais de Concílio de Hipona e Concílio de Cartago confirmaram a mesma lista.
Embora alguns setores orientais mantivessem reservas durante mais algum tempo, o consenso foi progressivamente alcançado.
Porque encerra a Bíblia?
A colocação do Apocalipse no final da Bíblia não resulta apenas de ter sido um dos últimos textos escritos.
Existe uma profunda lógica teológica nessa escolha.
O Génesis inicia a Escritura com a criação do mundo.
O Apocalipse conclui-a com a renovação da criação.
O Génesis apresenta o primeiro jardim.
O Apocalipse apresenta a Jerusalém Celeste.
No Génesis surge a entrada da morte na experiência humana.
No Apocalipse proclama-se a sua derrota definitiva.
No Génesis o homem afasta-se de Deus.
No Apocalipse Deus habita para sempre com os homens.
A Bíblia forma assim um grande arco narrativo que vai da criação à consumação, da promessa ao cumprimento, da origem à plenitude.
Um livro para encerrar com a esperança
A inclusão do Apocalipse no cânone não foi um acidente histórico nem uma simples decisão administrativa da Igreja. Foi o reconhecimento de que este livro exprime algo essencial à fé cristã: a convicção de que a história possui sentido e finalidade.
Por isso, o último livro da Bíblia não termina com uma descrição do fim do mundo, mas com uma visão de comunhão.
A revelação cristã encerra-se com uma promessa e não com uma ameaça.
Talvez seja essa a razão mais profunda da sua presença no cânone. Depois da criação, da aliança, dos profetas, da encarnação, da cruz e da ressurreição, faltava ainda uma última palavra.
Essa palavra é esperança.
E é por isso que o Apocalipse permanece, até hoje, o grande livro da esperança cristã.
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