Da competição ao encontro: o desporto como realização da pessoa humana
Que o desporto seja sempre escola de fraternidade e não de rivalidade vazia, espaço de encontro e não de exclusão, caminho de paz e não de violência.
Leão XIV
A afirmação de Leão XIV encerra uma profunda visão antropológica do desporto. Numa época em que a competição tende frequentemente a sobrepor-se à pessoa, o Papa recorda que o verdadeiro sentido da prática desportiva não reside na vitória em si mesma, mas naquilo que ela pode revelar e construir no ser humano.
O desporto nasce do movimento natural do homem. Desde a infância, correr, saltar, lançar ou nadar são manifestações da alegria de existir. O corpo não é um mero instrumento ao serviço da vontade; é uma dimensão constitutiva da pessoa. Assim, quando o ser humano pratica desporto, não está apenas a exercitar músculos ou a aperfeiçoar técnicas: está a desenvolver capacidades físicas, intelectuais, emocionais e relacionais que contribuem para a sua realização integral.
A fraternidade de que fala Leão XIV encontra-se precisamente neste reconhecimento do outro como companheiro de caminho. O adversário não é um inimigo a destruir, mas alguém que torna possível a superação de ambos. Sem o outro não existe competição; sem competição não existe aperfeiçoamento; sem aperfeiçoamento não existe crescimento humano. O adversário é, paradoxalmente, um colaborador do nosso próprio desenvolvimento.
Por isso, a rivalidade só tem sentido quando está subordinada a um bem maior. Quando a vitória se transforma num absoluto, o desporto degrada-se. Surge então a rivalidade vazia: aquela que reduz o outro a obstáculo, que alimenta a arrogância na vitória e a humilhação na derrota. É a lógica do ego que procura afirmar-se através da negação do próximo. Nessa circunstância, o desporto deixa de ser uma escola de humanidade para se tornar um palco de vaidades.
A história oferece inúmeros exemplos da dimensão unificadora do desporto. Desde os Jogos Olímpicos da Grécia antiga, que suspendiam conflitos armados para permitir a celebração atlética, até aos grandes eventos internacionais contemporâneos, o desporto possui uma extraordinária capacidade de aproximar povos, culturas e religiões. Homens e mulheres de origens diversas descobrem-se iguais no esforço, na disciplina, no sofrimento e na alegria.
Num plano ético, o desporto educa para virtudes fundamentais. A prudência ensina a avaliar os limites e as oportunidades. A coragem permite enfrentar a adversidade e a derrota. A temperança disciplina os impulsos e os desejos imediatos. A justiça leva ao respeito pelas regras e pelos adversários. Estas virtudes não pertencem apenas ao campo desportivo; são pilares da vida humana e da convivência social.
Também politicamente, no sentido mais elevado do termo — como o entendiam Platão e Aristóteles — o desporto possui uma função insubstituível. Ele contribui para a construção da comunidade, gera pertença, promove a cooperação e ensina que o bem comum é superior ao interesse individual. Uma equipa vence não porque cada elemento procure apenas o seu sucesso, mas porque todos colocam os seus talentos ao serviço de um objetivo comum.
A violência, pelo contrário, representa a negação desta dimensão política e comunitária. Sempre que o desporto se converte em pretexto para o ódio, para a agressão ou para a exclusão, trai a sua própria natureza. O mesmo sucede quando discrimina os mais frágeis, os deficientes, os idosos ou aqueles que não possuem os mesmos recursos. O desporto verdadeiramente humano é inclusivo porque reconhece a dignidade de cada pessoa independentemente da sua capacidade competitiva.
Talvez por isso algumas das mais belas histórias do desporto não sejam as das medalhas ou dos recordes. São as histórias de solidariedade entre adversários, de atletas que ajudam um concorrente caído, de equipas que acolhem os mais frágeis, de homens e mulheres que encontram no desporto um caminho de integração e de dignidade. Nesses momentos, a vitória deixa de ser apenas individual e transforma-se numa vitória do humano.
Leão XIV recorda-nos, assim, uma verdade essencial: o desporto atinge a sua plenitude quando se torna uma forma de amizade cívica. Não existe para separar, mas para unir; não existe para exaltar os mais fortes, mas para permitir que todos cresçam; não existe para alimentar conflitos, mas para criar pontes.
Quando isso acontece, o estádio, a piscina, o pavilhão ou o campo de futebol deixam de ser apenas locais de competição. Tornam-se lugares onde se aprende uma das lições mais importantes da existência: que o ser humano se realiza não contra os outros, mas com os outros. E é por isso que o desporto pode ser, verdadeiramente, uma escola de fraternidade, um espaço de encontro e um caminho de paz.
Francisco Vaz
17 de jubho de 2026
Sem comentários:
Enviar um comentário