Porque o último livro da Bíblia não fala do fim do mundo, mas do destino último do ser humano e da esperança que sustenta a história.
Poucos livros da Bíblia foram tão incompreendidos como o Apocalipse de João. Ao longo dos séculos, muitos procuraram nele previsões sobre o fim do mundo, códigos secretos para decifrar acontecimentos históricos ou descrições de catástrofes futuras. No entanto, uma leitura séria do texto, como a proposta pelo biblista João Lourenço, conduz-nos a uma compreensão muito diferente.
O Apocalipse não é um livro sobre o medo. É um livro sobre a esperança.
A própria palavra "apocalipse" significa revelação, desvelamento. O seu propósito não é esconder, mas revelar; não é anunciar o caos, mas mostrar o sentido profundo da história humana à luz de Deus.
Quando lido numa perspetiva antropológico-teológica, o centro do Apocalipse deixa de ser o fim do mundo para se tornar o destino do ser humano. A questão fundamental não é quando terminará a história, mas para onde ela caminha.
Ao longo da obra surgem figuras impressionantes: dragões, bestas, cavaleiros, perseguições, cidades corruptas e batalhas cósmicas. Contudo, estas imagens pertencem à linguagem simbólica própria da literatura apocalíptica. O seu significado não reside na descrição de acontecimentos concretos, mas na representação das forças que, em todos os tempos, disputam o coração humano.
O dragão simboliza tudo aquilo que se opõe à vida. A Besta representa os poderes que absolutizam a força, o domínio e a opressão. Babilónia encarna a sedução da riqueza transformada em idolatria. Não são apenas realidades do passado. São tentações permanentes da condição humana.
Neste sentido, o verdadeiro combate do Apocalipse não se trava nos céus nem nos campos de batalha da história. Trava-se no interior de cada pessoa e no seio das comunidades humanas. É o confronto permanente entre a abertura ao bem e a submissão às diversas formas de idolatria que procuram ocupar o lugar do Absoluto.
A antropologia cristã encontra aqui uma das suas expressões mais elevadas. O ser humano não é apresentado como uma realidade acabada, mas como um ser em caminho. A sua existência é uma vocação. Entre aquilo que é e aquilo que está chamado a ser existe uma tensão criadora que atravessa toda a história.
Por isso, o Apocalipse não apresenta uma visão pessimista da humanidade. Pelo contrário. Afirma que a história possui direção e sentido. O tempo não é um ciclo interminável de repetições nem uma sucessão absurda de acontecimentos. Existe uma finalidade para a qual tudo converge.
Essa finalidade é simbolizada pela Jerusalém Celeste.
É significativo que a visão final da Bíblia não seja a de um universo destruído, mas a de uma cidade renovada. A cidade é o símbolo da comunidade reconciliada. Representa a plenitude das relações humanas. Representa a superação definitiva da violência, da exclusão e da fragmentação.
Sob uma perspetiva ontológica, a Jerusalém Celeste simboliza a realização plena do ser humano enquanto criatura chamada à comunhão com o fundamento último do ser.
Sob uma perspetiva ética, representa a vitória definitiva do amor sobre todas as formas de egoísmo e injustiça.
Sob uma perspetiva política, entendida no sentido clássico da tradição platónica e aristotélica, representa a verdadeira polis, a comunidade harmoniosa onde cada pessoa encontra o seu lugar no bem comum.
Talvez seja precisamente por isso que o Apocalipse encerra a Bíblia cristã.
O Génesis abre a Escritura com a criação. O Apocalipse fecha-a com a consumação.
O Génesis apresenta um jardim. O Apocalipse apresenta uma cidade.
No Génesis encontramos a humanidade em estado de promessa. No Apocalipse encontramos a humanidade em estado de plenitude.
No Génesis o homem procura Deus. No Apocalipse Deus habita definitivamente com os homens.
A estrutura da própria Bíblia revela assim uma profunda unidade. A narrativa não começa para terminar na queda. Começa para culminar na comunhão. O sentido último da existência não se encontra apenas na origem, mas sobretudo no destino.
Por isso, a última palavra da Escritura não é destruição.
Não é castigo.
Não é condenação.
A última palavra é encontro.
Num tempo marcado pela incerteza, pelo medo e pela fragmentação cultural, o Apocalipse continua a recordar que a existência humana possui uma finalidade que transcende as crises do presente. Nenhum sofrimento é definitivo. Nenhuma injustiça é eterna. Nenhum império tem a última palavra.
A história humana, com todas as suas contradições, permanece orientada para uma plenitude que a ultrapassa e a fundamenta.
Esta é a grande mensagem do último livro da Bíblia: o fim não é uma catástrofe, mas uma realização. Não é o triunfo da morte, mas a consumação da vida. Não é o desaparecimento do humano, mas a sua plena realização na comunhão, na verdade e no amor.
O Apocalipse encerra a Bíblia porque aponta para aquilo que constitui o horizonte último de toda a existência: a plenitude do ser.
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