Pecado original

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sábado, 27 de junho de 2026

Nabucco na Arena de Verona

quando a música toca a eternidade

Há experiências que se podem descrever. Há outras que apenas se podem viver. A récita de Nabucco, de Giuseppe Verdi, na Arena de Verona pertence a esta segunda categoria. Ontem, ao assistir ao vivo àquela que foi a ópera que lançou definitivamente Verdi para a história da música, cumpri dois sonhos antigos: conhecer um dos mais emblemáticos teatros do mundo ao ar livre e ouvir, naquele espaço único, uma das obras maiores do repertório operático.

A produção reuniu um elenco de grande qualidade, capaz de dar vida às intensas personagens criadas por Verdi. O protagonista encarnou um Nabucco simultaneamente poderoso e vulnerável; Abigaille impressionou pela extraordinária exigência vocal e dramática do papel; Zaccaria conferiu profundidade espiritual à narrativa; Fenena e Ismaele completaram um conjunto de elevado nível artístico, apoiado por um coro magnífico e por uma orquestra que soube revelar toda a riqueza da escrita verdiana sob a direção de um maestro de excecional sensibilidade.

Mas a verdadeira protagonista da noite foi, uma vez mais, a Arena de Verona. Entrar naquele anfiteatro romano é entrar em mais de dois mil anos de história. As pedras parecem guardar a memória de sucessivas gerações que ali procuraram beleza, emoção e sentido. Quando o sol se desvanece e a noite envolve lentamente as arquibancadas, cria-se uma atmosfera difícil de traduzir por palavras. A música deixa de ser apenas som para se transformar numa experiência coletiva. Cerca de dez mil pessoas respiram ao mesmo ritmo, partilhando o mesmo silêncio, a mesma expectativa e a mesma emoção. Durante algumas horas, desaparecem as diferenças de língua, de nacionalidade ou de cultura. Todos são simplesmente seres humanos unidos pela arte.

O momento culminante chegou com o célebre «Va, pensiero, sull'ali dorate», o coro dos escravos hebreus exilados na Babilónia. Poucas páginas da história da música conseguiram condensar tão profundamente a nostalgia da pátria, o sofrimento do exílio e a esperança da liberdade. O coro tornou-se, desde o século XIX, um símbolo da identidade italiana durante o Risorgimento, exprimindo o desejo de um povo que aspirava à unidade e à libertação. Mas a sua força ultrapassa largamente esse contexto histórico.

Na Arena, a emoção foi tão intensa que os aplausos pareciam não ter fim. Durante longos minutos, cerca de dez mil espectadores levantaram-se para agradecer aquele momento irrepetível. O maestro compreendeu que a música ainda não terminara no coração do público. E aconteceu aquilo que apenas sucede em ocasiões verdadeiramente excecionais: o «Va, pensiero» foi repetido. Não como um simples bis, mas como um gesto de comunhão entre intérpretes e espectadores. A segunda execução já não foi apenas música; foi memória, gratidão e esperança transformadas em som.

Compreendi, então, porque razão esta página continua a emocionar homens e mulheres de todas as épocas. Todos conhecemos alguma forma de exílio. Nem sempre é geográfico. Há exílios interiores, perdas, separações, sonhos adiados, saudades de pessoas, lugares ou tempos que nunca regressarão. O «Va, pensiero» fala dessa condição universal. Recorda-nos que o ser humano vive sempre entre a memória do que perdeu e a esperança do que ainda pode alcançar. É precisamente por isso que permanece atual.

Essa capacidade de tocar o universal distingue a obra de Giuseppe Verdi. A sua música não procura apenas deslumbrar pela beleza melódica ou pela perfeição dramática. Procura compreender o homem. Em Nabucco, como em RigolettoLa TraviataDon CarloAida ou Otello, encontramos personagens confrontadas com o poder, o amor, a culpa, o perdão, a liberdade e a morte. As suas óperas são verdadeiras reflexões sobre a condição humana, onde cada nota serve a verdade dramática e cada silêncio possui significado.

O legado de Verdi ultrapassa, por isso, o domínio da música. É um legado cultural, porque ajudou a moldar a identidade italiana e europeia. É um legado artístico, porque elevou a ópera a uma das mais completas expressões da criação humana. Mas é, acima de tudo, um legado profundamente humano. Verdi acreditava que a arte devia falar ao coração de todos e não apenas a uma elite. As suas melodias tornaram-se património comum porque exprimem sentimentos que pertencem à humanidade inteira.

Quando terminou a récita e as luzes da Arena se começaram lentamente a apagar, permaneci durante alguns instantes em silêncio. Não havia pressa em regressar. Sentia que saía daquele lugar um pouco diferente daquele que nele entrara. A verdadeira arte possui esta capacidade discreta de nos transformar sem violência, apenas pela contemplação da beleza.

Ontem não assisti apenas a uma representação de Nabucco. Vivi uma experiência profundamente humana, espiritual e estética. Levo comigo a memória daquela noite, das vozes, da orquestra, do coro, das pedras milenares da Arena e dos aplausos intermináveis de milhares de pessoas unidas pela mesma emoção.

A Giuseppe Verdi, cujo génio continua a falar ao mundo quase cento e vinte e cinco anos após a sua morte, deixo a minha homenagem e a minha mais profunda gratidão. Porque há obras que não terminam quando cai o pano. Continuam a ecoar dentro de nós, lembrando-nos que a beleza é uma das formas mais elevadas da verdade e que, enquanto houver música capaz de tocar a alma humana, haverá sempre esperança para a humanidade.

Francisco Vaz

27 de junho de 2026

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