uma peregrinação
visita à Casa Verdi, em Milão, foi, para mim, um dos momentos mais marcantes desta viagem a Itália. Não foi apenas uma visita cultural. Foi, acima de tudo, uma verdadeira peregrinação. Julgo que qualquer músico — profissional ou amador — que se preze deveria fazer esta visita pelo menos uma vez na vida.
Fomos recebidos numa visita guiada por Ettore, um dos voluntários do projeto Aperti per Voi, do Touring Club Italiano, cuja dedicação e entusiasmo deram ainda maior significado ao percurso. Graças ao trabalho destes voluntários, a Casa Verdi permanece aberta ao público, permitindo que milhares de visitantes descubram aquela que o próprio Giuseppe Verdi considerava ser “a mais bela de todas as suas obras”: não uma ópera, mas uma casa destinada a acolher músicos e cantores que, depois de uma vida dedicada à arte, necessitassem de apoio e de um lugar onde envelhecer com dignidade. (Touring Club Italiano)
O momento mais emocionante foi, sem dúvida, a descida à cripta, onde repousam Giuseppe Verdi e a sua segunda esposa, Giuseppina Strepponi. Ali existe igualmente uma discreta homenagem à primeira mulher de Verdi, Margherita Barezzi, cuja morte prematura marcou profundamente a vida do compositor. Casados em 1836, perderam primeiro os dois filhos ainda crianças e, poucos anos depois, Margherita morreu aos vinte e seis anos, provavelmente vítima de uma das doenças infecciosas então comuns, como encefalite, tifo ou malária. Essa sucessão de tragédias mergulhou Verdi numa profunda crise humana e artística, da qual apenas viria a recuperar anos mais tarde. (Casa Verdi)
Percorrer as salas da Casa é entrar na intimidade do compositor. Tivemos o privilégio de ver o seu piano de cauda, documentos relacionados com a construção da instituição e diversos objetos pessoais. Entre todos, impressionou-me particularmente o manuscrito original do seu testamento. A caligrafia revela um homem extraordinariamente meticuloso, de pensamento claro e rigoroso, qualidades que reconhecemos igualmente na estrutura das suas óperas e na forma como organizou toda a sua obra filantrópica.
Ao longo da visita fomos registando, através de várias fotografias, os espaços onde Verdi imaginou que a música continuaria viva muito para além da sua própria existência. Cada sala recorda que a verdadeira grandeza de um artista não reside apenas no legado que cria, mas também na forma como cuida daqueles que partilharam consigo a mesma vocação.
No final da visita tivemos a honra de inscrever o nosso nome no livro de visitantes. Foi um gesto simples, mas profundamente simbólico. Não o senti como a assinatura de um turista, mas como a humilde homenagem de um músico perante um dos maiores génios da história da música.
Saí da Casa Verdi com uma convicção reforçada. As grandes obras de um homem não são apenas aquelas que permanecem nos teatros ou nos livros. São também aquelas que continuam a servir os outros muito depois da sua morte. As óperas de Verdi deram voz às paixões humanas; a Casa Verdi deu dignidade aos próprios músicos. Talvez por isso o compositor tenha afirmado que esta era, entre todas as suas criações, a mais bela. E, depois desta visita, compreendo perfeitamente porquê.
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