Memória e Esquecimento
O século XX ficou marcado pela emergência de dois grandes sistemas totalitários que procuraram remodelar radicalmente a condição humana: o nacional-socialismo e o comunismo bolchevique. Apesar das diferenças evidentes entre ambos, Alain Besançon chamou a atenção para um facto que continua a interpelar a consciência histórica contemporânea: a profunda desigualdade com que a memória coletiva trata estes dois fenómenos.
A questão não consiste em diminuir a gravidade dos crimes do nazismo nem em relativizar o horror singular do Holocausto. Pelo contrário, trata-se de compreender porque razão os crimes do comunismo, responsáveis por dezenas de milhões de vítimas, parecem frequentemente relegados para um plano secundário da memória pública, enquanto os crimes nazis continuam, e bem, a ocupar um lugar central na consciência moral do Ocidente.
A raiz desta questão é mais profunda do que uma simples disputa historiográfica. É uma questão ontológica, ética e política.
Tanto o nazismo como o bolchevismo partiram de uma mesma tentação: substituir a realidade concreta do ser humano por uma abstração ideológica. No caso do nacional-socialismo, o indivíduo era reduzido à sua pertença racial. No caso do comunismo, era reduzido à sua pertença de classe. Em ambos os sistemas, a pessoa deixava de possuir valor intrínseco. O seu valor passava a depender da sua utilidade para um projeto histórico considerado superior.
Quando isto acontece, o ser humano concreto desaparece sob o peso da ideia. A realidade deixa de ser o critério da ação política. É a ideologia que passa a determinar o que deve existir e o que deve desaparecer. O homem deixa de ser um fim para se tornar um instrumento.
É precisamente aqui que nasce a perversão ética característica dos totalitarismos. Ambos afirmavam agir em nome do bem. O nazismo proclamava defender o povo alemão e purificar a Humanidade de uma suposta ameaça racial. O comunismo afirmava libertar a Humanidade da exploração económica e construir uma sociedade justa e igualitária. Ambos apresentavam horizontes de redenção coletiva. Ambos prometiam uma espécie de paraíso terrestre.
O problema surge quando o bem futuro é considerado tão absoluto que tudo passa a ser permitido para o alcançar. Se a História caminha inevitavelmente para a perfeição, então aqueles que se opõem ao processo deixam de ser vistos como pessoas. Transformam-se em obstáculos. E os obstáculos podem ser removidos.
Foi assim que milhões de seres humanos foram deportados, encarcerados, torturados ou executados não por aquilo que fizeram, mas por aquilo que eram ou representavam segundo a lógica ideológica do sistema. A ética deixou de consistir no respeito pela dignidade da pessoa e passou a ser uma técnica destinada a acelerar a chegada de um futuro imaginado.
Também a política sofreu uma transformação radical. Na tradição clássica, desde Platão e Aristóteles, a política existe para ordenar a convivência humana em função do bem comum. É o espaço onde as decisões éticas dos cidadãos se encontram e procuram harmonizar-se numa comunidade de homens livres.
Os regimes totalitários inverteram esta lógica. A sociedade deixou de ser uma comunidade de pessoas para se tornar matéria-prima de um projeto ideológico. O Estado passou a assumir a missão de fabricar um homem novo, libertado das imperfeições do passado e moldado segundo os desígnios da ideologia dominante.
O resultado é conhecido. O homem novo nunca apareceu. Em seu lugar surgiram campos de concentração, polícias políticas, expurgos, sistemas de vigilância, fomes provocadas e uma repressão sem precedentes.
É neste contexto que a reflexão de Besançon se torna particularmente relevante. Porque recordamos legitimamente Auschwitz e tantas vezes esquecemos o Gulag? Porque conhecemos os nomes dos responsáveis pela máquina de extermínio nazi e ignoramos frequentemente os arquitetos do terror soviético? Porque razão certos símbolos associados ao comunismo continuam a ser vistos com indulgência, quando símbolos equivalentes do nazismo provocam, justamente, repulsa imediata?
Uma possível explicação reside no carácter universalista da promessa comunista. Enquanto o nazismo afirmava defender interesses nacionais e raciais específicos, o comunismo apresentava-se como um projeto de emancipação universal. Falava em igualdade, fraternidade, justiça e libertação. As suas palavras eram moralmente atraentes. Muitos homens e mulheres sinceramente generosos aderiram a essa promessa acreditando servir uma causa nobre.
Mas a nobreza das intenções não absolve a realidade dos resultados. A História julga os regimes não apenas pelas promessas que formularam, mas sobretudo pelas consequências que produziram.
A memória histórica não pode tornar-se seletiva sem correr o risco de se transformar numa nova forma de injustiça. O sofrimento das vítimas não depende da ideologia dos seus carrascos. Cada vida destruída possui igual dignidade. Cada ser humano aniquilado representa uma perda irreparável para a humanidade inteira.
A grande lição do século XX talvez não seja a comparação estatística entre os crimes de Hitler e os de Estaline. A verdadeira lição consiste em compreender que toda a ideologia que coloca uma abstração acima da pessoa humana acaba inevitavelmente por abrir caminho à violência. Sempre que uma ideia vale mais do que um homem, o totalitarismo começa a tornar-se possível.
Recordar os crimes do bolchevismo não diminui a memória das vítimas do nazismo. Pelo contrário, reforça-a. Ambas nos recordam a mesma verdade fundamental: nenhuma causa histórica, nenhum projeto político e nenhuma utopia justificam o sacrifício da dignidade humana.
A memória existe para servir a verdade. E a verdade exige que todas as vítimas sejam recordadas, independentemente da cor da bandeira sob a qual sofreram.
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